sexta-feira, 30 de abril de 2010

LITERATURA NO QUINTAL


“Maria prestava tanta atenção pra se equilibrar direito, que não via apartamento passando, nem céu clareando, não via nada. Nem pensava em nada também. Só quando viu a antena de televisão bem perto é que um pensamento passou correndo e dizendo: vou saltar nesse terraço pra descansar. Mas na hora de saltar deu medo: vai ver saltando e descansando perdia a coragem de voltar. Então, mal chegou no fim da corda, se virou e voltou. Do mesmo jeito: só prestando atenção no equilíbrio do corpo.

Quando pulou de novo pro quarto, sentiu a perna bamba, a pele suada o coração adoidado. Sentou. Respirou fundo. Lembrou de Quico, virou num susto. Ele dormia a sono solto. Lembrou das janelas dos apartamentos, olhou em volta. Tudo quieto; o sol já estava de fora, mas ainda não se via ninguém. Olhou pro céu. Não tinha mais andorinha. E aí então Maria se encostou na cadeira e suspirou satisfeita: “Foi que nem lá no circo; bem alto!”.

Ficou quieta. Descansando. Pensando como tinha sido bom. Depois se debruçou na janela pra ver se a corda ainda estava bem presa (tinha uma jardineira na janela com três potes de gerânio; a corda estava amarrada ali), e quando levantou a cabeça reparou que a corda passava pertinho do andaime, “ah, que pena! Passei duas vezes na janela diferente, podia tão bem ter espiado lá pra dentro”.


In Corda Bamba, Lygia Bojunga, Casa Lygia Bojunga,23ª edição, RJ, 2008

Nenhum comentário:

Postar um comentário