quinta-feira, 1 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


1.

É uma espécie de vertigem a minha escrita.

Melhor diria se dissesse que é uma espécie de gosto pela vertigem.

É convite a um salto. Solo.

Sem solo.


2.

- Ela vai morrer? De repente ele berrou como nunca pensei que um dia ele fosse berrar. Estava trêmulo; e se estranhou. Ver-se descontrolado o perturbou mais que um plausível desfecho da história. Recolheu-se. Deixou que caíssem as pálpebras num gesto quase envergonhado. Eu, envergonhada como sempre, lhe mostrava anotações do romance que queria escrever, e aquela perturbação, me deixou sem céu. Wolf já fora minha necessidade, meu amor platônico, meu último desejo, meu ódio e minha dor. Foram muitos os velhos tempos, e foram intensos pode-se dizer. Foram do tipo verão. Para mim, verão, me sufoca. É asfixia. Eu só sabia viver primaveras, e meus verões foram incontáveis. Entretanto, sobrevivi. Enfim, hoje, Wolf é minha inspiração profunda e fresca, meu jeito de amar, inventa primaveras pra mim. Wolf é meu amigo. Ele, que se sente em casa neste mundo, é um artista. E caçoa de mim. É assim. No mundo sente-se à vontade, não compreende minha seriedade. Isso não quer dizer que ele não sofra, pelo contrário, significa que sabe sofrer e ser leve. Eu não me sinto confortável neste mundo. Um dia confessei que ele, Wolf, era o universo que eu queria, ele riu, gargalhou, mas topou. É verdade, ele foi o primeiro, e talvez ainda seja o único, a compreender esta minha dificuldade; e mais que compreender, decidiu me fazer companhia. Como não amá-lo? Ele conversa comigo, é silencioso que nem eu, nossa conversa é um escutar o mundo. Ele brinca de anfitrião e vai me mostrando cores e palavras que descobre. De início discordamos sempre, suavemente. Porque Wolf é suave sempre. Gosto de mentir pra mim; quero ser musa, ele abusa de minha esperança. É que muitas vezes ainda me perco, demorei pra crescer. Ele não, ele foi grande desde pequeno. Sabe guardar tudo em seu coração. Wolf não gosta que eu fique falando nele; quer que eu fale de outras coisas, insiste que eu escreva, eu quero escrever, é o que eu mais quero. Depois de falar dele, com ele, pra ele. Wolf tem cabelos e olhos pretos, enormes. Profundos. Sente náuseas com tudo que é desmedido. Temos o mesmo medo: tédio. Eu, mais que ele, claro. Temos o mesmo ódio: dinheiro. Tenho mais medo e ódio, ele é mais sábio, ele diz: temos que cuidar muito mais das coisas sujas, e diz também que eu busque humildade pra ser intelectual, eu não consigo compreender, ele repete: você tem que se transformar num cândido ser mental. E pede que eu escreva. Sem sofrer.


3.

– Me conte a história da meditação...

Só contarei parte. Comecei a meditar sem saber que o fazia ao meio-dia do dia 31 de março de 1964. Eu era uma criança e o caos em que amanheci me empurrou para debaixo da cama dos meus pais, lugar mais seguro que encontrei para mim, minha irmã e nossas bonecas. Eu fiquei ali por mais de doze horas, e quando me encontraram lá, eu não era a mesma. Eu sei. Na tarde do dia treze de outubro de 1967, ainda criança, ouvi um grito lancinante do jovem estranho que eu amava platonicamente e de quem meu pai não gostava porque ele tinha cabelos longos. Corri até aquele grito e ele estava chorando; pela primeira vez olhou pra mim, disse: ‘eles o mataram na Bolívia’. Naqueles olhos molhados eu vi a dor e o desalento. Sentei-me ao lado daquele jovem e ali fiquei silenciosa por tantas horas quantas ele ficou. Dia vinte e seis de janeiro de 1968 uma dor aguda me levou para o hospital e lá fiquei por três meses. Entre dores, silêncio e perplexidades. Quando saí do hospital eu sabia o que era a vida: eram muitos mundos ligados pela morte. Aprendi a visitar mundos sem sair do lugar.

Criei um ritual diário, há anos, muitos anos, mistura de dança e alongamento que, a cada dia, foi se tornando mais e mais lento. Eu me estiro milimétrica e lentamente. Com o passar do tempo, o ritual se preencheu de música e cores, e recriou os meus dias em canções; assim me equilibrei na corda bamba das horas e atravessei os abismos dos minutos: ouvindo música silenciosa e tocando os milímetros do tempo. Naquela manhã um pensamento amarelo invadiu minha meditação. O pensamento amarelo tinha a voz do John Lennon; começou soando a peace a chance e a beautyfull boy; depois o amarelo se avermelhou e soou remenber my life is in your hands; e o dia avançou com um estranho frêmito barulhando em mim. Uma centelha nervosa não se apagava, gastei o dia perdendo-me de mim, a poesia fugia; antes da tarde me senti extenuada, e deu vontade de morrer. E logo senti também grande vergonha de morrer assim, sem ter me sentido viva verdadeiramente. Às cinco horas da tarde deste mesmo dia meu pensamento se tornou delicados óculos de aros metálicos, com lentes opacas, negras. E toda música parou. Ouvi explosões. Decidi ir para o quarto e retomar o ritual da manhã; e tudo foi um silêncio negro. Era a noite de oito de dezembro de 1980.

MAGDA MARIA CAMPOS PINTO


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