sábado, 3 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

4.

- Você tem problemas com os tempos verbais, você mistura tudo.

- É proposital, não quero uma marcação linear do tempo; além de falsa, empobrece minha narração.

- Não se esqueça de que nenhuma narração fala deste real.

- Posso tentar?

- Pra que? Está dito: é preciso narrar, entretanto isso não tem nada a ver com a realidade comum.

- Você faz com que me sinta idiota.

- Não se importe, é o que somos.

- Não seja cruel.

- Não sou, você sabe que não sou, mas detesto te ver querendo enganar-se.

- Não consigo ser diferente.

- Deixa disso, encare logo. Vamos lá... O que você quer com essa história?

- Dizer que a vida é o que a gente diz que ela é.

- E...?

- Mas a gente não ouve o que a gente diz.

- Quem é a gente?

- Exceto você.

- Ok, seja cruel, eu agüento.

- Eu sei, por isso preciso de você.

- Que mais?

- Quero começar criando um ambiente físico tipo doméstico, aconchegante, mas simples; limpo, bem arrumado, com discretas flores naturais, propício para um ser contemplativo. Vou criar um personagem contemplativo; será feminino, e contemplativo.

- Tem certeza?

- Nenhuma. É só o que eu quero.

- Você já disse que o querer é o ser.

- Já?

- Disse que o ser não é o tempo, nem a náusea, nem o evento. É o querer.

- Você acha que eu sou contemplativa?

- Acho que se envergonha de ser. Por isso, penso que você tem que escrever.

- Você me domina.

- Se eu não fizesse isso, você me devoraria.

- E depois, eu morreria de fome.

- Pois é. Melhor deixar-se dominar.

- É.


5.

Apesar de tudo, eu preciso sustentar alguma coisa. Apesar de tudo seria indigno (não posso saber o que significa isso exatamente já que este ‘apesar de tudo’ significa exatamente que sinto que a vida tem sido indigna comigo), bom, mas apesar de tudo seria indigno desistir completamente. Reconheço hoje que tenho direito e boas razões para desistir. Reconheço também que não existe ninguém (quero repetir: ninguém) que me compreenderá; nem mesmo reconhecerá uma única das tantas boas razões que tenho para acabar com tudo. Mas apesar de tudo isso, eu não o farei; vou sustentar alguma coisa. Quer dizer, não vou me matar, vou me entregar ao tempo, ou seja, à morte. Que ela venha quando quiser vir. Quem poderá dizer que isso é se matar? Ninguém poderá dizer, pois isso é se entregar à vida, ao destino, ao acaso, enfim, é simplesmente, se entregar. Aqui, simplesmente quer dizer completamente. Ou seja, não se fará nenhuma força; nunca mais. Não pensarei mais em mim, nem em nada que seja ou tenha sido meu. Nenhum desejo, nenhum objeto. Sonho algum. Eu, isso não existe mais. Dito isso, direi agora a razão (ou razões, não serão tantas quantas são as contrárias, ou seja, aquelas que me dão o direito de acabar com tudo) para que eu não me mate. O respeito pelo meu pai é a primeira coisa que me ocorre. A segunda coisa que me ocorre é meu amor por ele. A terceira coisa é a admiração que ele me causa. A quarta coisa é a dívida que as três razões anteriores criam para mim perante ele. Santo Freud! Neste momento, posso discutir rigorosamente com ele, Freud, meu mestre. Mas não discutirei. Bobagem. Discernir bobagens e essências é outro ponto que também devo ao meu pai, se é que aprendi o discernimento. Ocorreu que a vida foi dura e injusta com meu pai. Serviu-lhe o pior pedaço; retirou-lhe qualquer glória. Repito: qualquer. Exigiu-lhe tudo aquilo que não lhe deu. A vida o construiu em pedra e o obrigou a viver entre cristais. Ele se sustentou. Nunca quebrou nenhum, apesar de se saber pedra pura. Ao contrário, olhava para os cristais em sua volta e os admirava. Sentia-se grato por ter sido encarregado de cuidar deles. Nunca se queixou de frio ou solidão. E nunca teve manto nem companhia. Atiraram-lhe muitas pedras, ele as aparou com o peito, nunca as devolveu. Sabia das fragilidades do redor. Mas falava somente das próprias fraquezas, ou seja, das suas. E apesar de tudo, sentia-se afortunado. Grato. Prova disso era o recorrente bom humor. Prova que tenho contra Freud, meu mestre. Amo meu pai, que me amou porque via em mim um cristal que nunca fui. Nunca passei de vidro barato. Esta é a primeira das razões que exigem de mim que eu sustente este fio, apesar de tudo, e me entregue ao sopro tênue da vida.

Quando terminei a leitura, percebi que a havia feito num único fôlego. Mas a voz estivera firme, bem pausada. Levantei os olhos e olhei diretamente para Wolf. Ele estava outro; havia lágrimas em seus olhos que agora pareciam ser lagos que não me permitiam ver o fundo. Ele tremia ligeiramente. Quase sorriu antes de sussurrar:

- Eu teria escrito isso.

MAGDA MARIA CAMPOS PINTO

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