segunda-feira, 5 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

6.

Levei-o a uma casa italiana.

Um salão amplo, construído solidamente, mostra paredes, colunas, arcos e portas inteiramente pintados com flores, pássaros e frutos. E aqui e ali se expõem quadros e troféus de caça. Mesas grandes cobertas com toalhas muito brancas sustentam jarros com flores miúdas e candelabros esguios, acesos. Eu gosto dessa profusão de coisas e cores. É um exagero. Uma música tranqüila, semi-audível, contrasta com a exuberância quase escandalosa do ambiente. Há pouca gente por ali. A música flutua livre na silenciosa abundância de cores do salão. Ele sugere vinho e rapidamente quer jantar, dizendo-se faminto. Eu não digo nada, nem penso, apenas me entrego a este meu balanço morno. Ele me serve vinho tinto seco. Ele sabe que gosto deste vinho? Come e bebe à vontade. É um aparente à vontade, eu penso, pois está totalmente fechado. Movimenta-se sem olhar para mim. Não diz nada e isto, de algum modo, me agrada. Nos calamos por muito tempo. E não nos olhamos, isso é certo. Mas muitas coisas acontecem aqui, agora mesmo. Rio em mim, parece alegria o que vem dele, parece. Depois, sem olhar para mim, pergunta se se deve negociar com sequestradores.

- Deve-se conversar sem parar. Sem acabar...

-Eles matam.

Ouço uma voz nítida e quase sem pontas. Fico insegura. Ela gosta de se mover devagar.

- É. Talvez sejamos todos culpados.

- Todo mundo é responsável, é diferente...

- Somos todos inocentes, eu penso, mas sentimos vergonha da inocência, sentimos vergonha porque a inocência nos expõe...

Antes que eu sentisse por inteiro o susto com minha eloqüência pronta a disparar, ele me interrompe;

- Culpa e responsabilidades se entrelaçam na nossa consciência, são as bases de nossa pessoa.

Não sei dizer nada com clareza, mas me senti subitamente aliviada. Por quê? Ele continuou:

- Reféns não podem fazer nada.

- Penso que podem, e só o refém pode. Liberdade não se perde enquanto há vida, é o atestado de que se está vivo, uma pessoa viva é uma pessoa ativa, em qualquer situação...

Ele quis ficar debochado e dois sulcos discretos surgiram nos cantos da boca. Piscou devagar com as duas pálpebras. Tentou um ar paciente, mas empinou o nariz, e escarneceu:

- A liberdade é a mesma para todos?

- Claro... Mas a maioria foge da liberdade, prefere a irresponsabilidade... Até se compreende já que a primeira parte de nossa vida é de muita dependência, de irresponsabilidade, mas é imperdoável esconder-se da liberdade por muito tempo.

- Uma idéia bonita, só isso... Todo mundo age instintivamente, e isso é tudo. As idéias bonitas não conferem com a realidade.

- Nem todo mundo, e isso faz a diferença. A realidade são idéias. Depende de nossa coragem.

- Temo que seja puro idealismo, quase uma alienação.

- Só o individualismo moderno é alienado, aquele tipo ilha que só pensa em guerra, mas aqui falo diferente, penso naquela ilha que flutua, aquela que sabe que sua existência depende do redor; é por isso que a conversa não pode acabar pois o redor não acaba.

Num átimo senti novamente o risco de minha eloqüência e quis me punir; pensei na morte que eu andava desejando, pensei nas contradições que me fazem, quis me calar para sempre como tantas vezes desejei, mas continuei:

- Falar. Espernear. Cantar. Pensar. Propor. Reagir. Ser. Sei lá... Me lembro dos filmes, das ficções que sempre contam coisas assim, em que o herói inventa, faz o inesperado e não desiste, passa por outra trilha, é aquele capaz de lutar sozinho...

- Ficções, heróis... E isto lá é realidade?

- Por que não? Todo mundo é herói, claro que é.

- Claro que muita gente desiste, mas aí é outra história. Você acha mesmo que a vida real pode repetir a ficção? Não acredito; você não pensa assim. Imagine se os americanos fossem o que são em seus filmes. Sei lá...

Empolguei-me completamente. Estou vibrando e vejo a vida como um grande diálogo sinfônico. Saboreio o vinho com vagar, e adoro este lugar rebuscado e quente. Ele parece preguiçoso como lagarto, mas sei que está vivo e ardendo internamente. Ele recua.

- Quando se pode morrer, o ser biológico grita, faz qualquer negócio para sobreviver.

Volto a pensar que o melhor é mesmo viver. Mas logo penso que morrer deve ser apenas mais um modo de viver. A morte verdadeira é a morte pela vida; qualquer outra seria medíocre. É mentirosa qualquer vida que não seja uma celebração de si mesma. Eu também reajo.

- É verdade, o ser meramente biológico faz qualquer negócio. Mas estamos falando de seres humanos, não é? Há muito mais que biologia aqui. Há quase nada de biologia aqui. Humanos não fazem qualquer negócio, se fizerem, tudo se perde. Você acha que tudo já se perdeu?

- Tudo se perde? Tudo o quê?

- A beleza da dignidade. Somos mais que animais famintos... Não somos? E a morte está sempre aqui, em nós mesmos, é banal.

- Na maior parte do tempo não há lucidez; é o pânico. É a vida em si a qualquer custo.

- Não acredito em vida em si.

Estamos ligeiramente embaraçados. É difícil se render à verdade da morte para a vida. Ele quer magoar-se ainda com a idéia de uma vida para a morte, quer pensar que a morte é derrota, falência, quer defender seu cientista. Rio internamente do homem cheio de esperanças aqui, diante de mim, parecido comigo, e que não quer se render. Recuo do meu pensamento atrevido. Tenho que respeitar sua recusa de intimidade. Me calo. Ele também. Saboreia o vinho, ouve a música inaudível, observa o ambiente, olha a mulher exuberante da mesa ao lado, me esquece. Aproveito para examiná-lo com vagar. Descubro um nariz delicado que me lembra o jovem que amei platonicamente na adolescência, e que nunca mais vi. De repente ele se volta e diz:

- Você já se despediu de uma saudade?

Interrompo aqui a leitura e pela primeira vez me volto para Wolf. Ele permanece na mesma posição, largado sobre a poltrona branca diante de mim, observando o teto. Quando me calo, se volta com ares de interrogação. Minto:

- Só escrevi até aqui.

- Estranho. Você não ia criar um ambiente doméstico, e uma protagonista contemplativa?

- Sim. Criei. Não percebeu? Mas tenho problemas com os tempos verbais; e aqui, já estamos mais adiante. Ela recebeu uma inesperada carta e resolveu encontrar-se com a pessoa que escreveu a carta. Depois se falará disso.

- E onde você arrumou essa pessoa?

- Inspirei-me em você.

Wolf me fuzilou com aquele olhar de fera acuada. Temi e me encolhi. Mas ele inspirou todo o ar que havia e disse:

- Estou cansado. Continuamos depois?


MAGDA MARIA CAMPOS PINTO

Nenhum comentário:

Postar um comentário