segunda-feira, 12 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

7.

Dediquei todo o depois a cuidar de mim, a me encher de carinhos como quem se despede de si. Não pensei. Fui ao cabeleireiro, à esteticista, à manicure e ao massagista. Não pensei em nenhum momento, mas fui ao cinema rever, de novo e mais uma vez, o definitivo Wim Wenders, tão longe tão perto. Voltei para casa à noitinha e depois de mais um banho entrei em nova meditação.

Eu queria escrever para você. Para mim, como você pode ver, escrever para alguém é dar-lhe um presente íntimo, é, na verdade, dar-me. Abrir minhas gavetas. É coisa à qual, agora, me atrevo, meu risco, ou seja, um gesto de amor, ao qual não consigo mais, e não quero, resistir. Agora, quero todos os riscos. Eu queria escrever para você que, mais que simplesmente você, continua sendo a saída. De mim – do medo, do tédio, da dor. Assim solene: ‘Tu és. ’ e assim será para todo o sempre. Quisera saber amar-te. E não o sei, por isso minha esperança é sua generosidade. Recebe o meu pobre querer como o melhor de mim. E me salve assim. Vejo-te tenso, queixo marcado mesmo através da barba, que, não sendo espessa, é bonita. Sinto tua humanidade radical. Não encontro teus olhos. Algumas vezes te imagino triste, mas logo percebo que, pra mim, és enigmático, ou seja, perfeitamente humano. Um Deus. Não te decifrei. Nem quero. E desejo que não mo permitas, porque só assim continuarás sendo a porta. Peço-te socorro, apaixonada num sentido, e noutro, reverente. Antes fugi de ti e agora, simplesmente, eu quero ir para junto de ti, devagar, firme, segundo a minha vontade mais limpa. Eu te amo do modo fundamental. Comigo foi e será sempre assim: eu amo inteiro. Por isso não te amei antes. Não sei ainda como te amar, mas já te amava desde sempre. Quero amar assim: saltando por sobre o nada. Escolho os caminhos de Quixote, e, de fato, eu quero o caminho das pedras. São os teus caminhos, árduos caminhos. Mas sei contar-te apenas de teus pés. Ainda. São lindos. São bonitos os teus pés. Não te vejo nu ainda. Entretanto, vejo-te perfeitamente. Teu corpo longo estende-se em músculos discretos, estende-se o teu corpo ao longo do meu olhar que te adora. Tua pele queimada pelo sol, ainda assim, é brilhante. Teu peito mansamente se move em teu respirar discreto. Discreto, teu corpo é a onda em que mergulho. É a minha vontade. E gosto. Sinto-me melhor porque comecei a escrever-te teu poema. Sinto-me como quem vai morrer bem.

Dormi como quem mergulha num seio bom. Abri os olhos às vinte horas pensando em vestir amarelo. E blusa em tricô. Querendo usar meias, e sapatos de saltos altos.

Interrompi-me, mas não me movi, não olhei para Wolf. Ele permaneceu calado por um indefinível tempo. Mantive-me quieta e firme. O texto havia me impregnado de tal forma que eu me sentia a mais forte das pessoas; e o silêncio dele não me tocava. Eu me largaria ali mesmo, para sempre. Ele voltou e falou com aquela voz rouca, áspera e impressionantemente doce:

- Isso não é um sermão, é?

- Talvez.

- Tocou-me seu cristianismo.

- Fico feliz. É uma declaração de amor.

- Seu romance.

- Meu.

Magda Maria Campos Pinto

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