terça-feira, 13 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

8.

Acordei ouvindo Lobão cantando Tempo-Rei em tarde chuvosa de domingo ocioso. Acordei é modo de dizer apenas, eu não acordei, eu me lembrei, ou sonhei, porque há muitos anos Lobão não canta Tempo-Rei, há quantos anos? E naquele tempo eu, eu me lembro, queria falar sobre o tempo, queria decifrar o tempo, eu o ouvia cantando Tempo-Rei com aquela voz rouca, mas todo mundo estava tão bem naquele tempo, isto é, fingia estar, isto é, se exigia ficar. Foi assim quando chegamos à idade adulta e nada era como tivéramos a certeza de que seria vinte anos antes. Então, inconformados, todos decidiram viver como se tudo fosse perfeitamente como tínhamos pensado que seria – muitos morreram por isso – vinte anos antes. Eu também tentei, juro que tentei, mas não consegui, e minha primeira dissidência foi ouvindo Lobão cantar Tempo-Rei, sem fugir do terrível aqui e agora, aquele árido aonde que tínhamos chegado, sem fugir, rendida, descansei nas trilhas da voz rouca falando do tempo.
Foi a primeira que vez que fugi pra infância e lá encontrei alguma coisa boa, acolhedora; aconchego que me salvou de ter que mentir no hoje, e resgatou um acalanto me ajudando a suportar desilusão sem escândalo. Daí, naquela manhã depois do encontro da noite anterior me reapareceu a voz rouca, o aconchego, um insuspeitado passado bom, denso, compactado... Percorreu meu corpo ainda na cama, ainda sonolento, ou sonhando, ou lembrando... Mas tudo era bom, e me aquietei silente. Ouvi a voz da chuva solfejando na janela de vidro, e a música era suave, um arranjo simples, e meu coração na percussão. Um oceano morno inundou meu deserto, e tudo ficou amareloazul. Lembrei de alguém, ou melhor, lembrei-me de um texto, existem em mim mais textos que pessoas para se lembrar, que dizia ‘eu não quero viver num mundo sem catedrais, quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais’, e caí na enorme igreja que marcava o umbigo da minha aldeia. Pousada sobre a colina, ela parecia tocar as nuvens e falar diretamente com Deus. Para mim, aqueles vitrais mosaicos coloridos eram mil olhos vigiando cada um, cada passo e até - minha mãe o confirmava - cada pensamento.
Mas tudo mudava quando eu entrava lá dentro, naquele imenso espaço cheiroso, fresco, onde uma luz difusa, refratada por vitrais de mil cores, pontilhava o espaço com milhares de pingos multicoloridos; e o cheiro... por certo era o cheiro de Deus, e era tão bom! Quando eu entrava ali, os olhos Dele, vigiando, caçando, ficavam lá fora, e aqui dentro ficava eu e Sua paz cheirosa. E também um silêncio só música... Música de vida viva, que era um silêncio, pois não eram meus ouvidos que a ouviam, era cada poro, cada mínimo poro ouvia uma música que me tornava grande. Sim, eu crescia quando me quedava ali, me tornava toda ouvidos, toda visão, todo olfato, toda música. Sim, meu corpo era outro, deve ser a alma que emergia; emergia? Não sei, eu era outra, e era só sentir. Bom sentir. Todo sentir tudo ao mesmo tempo. Foi assim que se implantou em mim o gosto de Deus, e a atração pelo indomado. Com tempero de segredo.
Ainda estou imóvel na cama, Lobão ainda canta Tempo-Rei em algum lugar do meu corpo, meus poros sentem a paz de um Deus que usa perfume, e, reconheço meu ‘ET brincando aqui no meu quintal’.

Wolf é ainda mais bonito quando dorme assim, tão a descoberto.
Magda Maria Campos Pinto

Nenhum comentário:

Postar um comentário