segunda-feira, 19 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

9.

- Seu romance é um espasmo de reflexão?

- Não há outro jeito. Você quer ouvir? De volta à multidão sem rosto, um alguém, ou melhor, uma boca, pede um cigarro enquanto uns braços querem um abraço e outra boca quer te beijar, mas outra voz te xinga enquanto um outro braço quer te meter a mão... Mas de repente tanto faz, porque nada faz sentido pra você, ou talvez faça tanto que você não sente absolutamente nada, e por isto veste arrogância e caminha pra trás de outra porta. E subitamente entra em pânico. Aqui, fechado, começa a planejar a saída, como uma fuga, isto é, se embaraça com as possibilidades da saída, pois se esqueceu de que são as mesmas da entrada. Você está embriagado, talvez pelo cheiro acre – agora quase sólido – talvez pela falta de sentido, talvez pelo sentido demasiado. Talvez. Sabe-se somente que você foi apanhado. Pela própria insanidade, isto é, pela arrogância.

- Por que um romance sobre doença mental?
- Nunca encontrei razão de um romance.

- Não era sobre uma mulher contemplativa?

- É. As coisas fluem.

- E daí? Mulher contemplativa dá em doença mental?

Quase rio da defensiva caricatura científica, essa engenhosa infantilidade. Mas ignoro. Continuo sentindo-me forte depois da declaração de amor. Penso que posso olhar para a doença mental. Sei não. Mas estou vendo.

- Em romances não existem porquês. Você sabe, romances são passagens de um viajante aportado em inesperado porto. Interregnos. Num romance, tudo já aconteceu, já se aportou. Romances são vagagens por bem-vindas ilhas.

- Hummm... E depois da multidão sem rosto?

- Você fechou os olhos e os ouvidos, conseguiu escapar travestido de robô. Mas vem o dia seguinte, e hoje, você irá trabalhar mais tarde, depois do meio-dia. À hora da sesta o toque da campainha aterroriza um porteiro que cochila sobre a mesa e assim, ao primeiro toque, o caminho está livre. Você atravessa corredores e escadas sem encontrar ninguém; por uma porta entreaberta vê alguém dormitando, que também se assusta facilmente, pois seus sonhos são assaltos. O certo é que o tempo parece durável, quieto como se um único acontecimento - apenas um - acontecesse. Uma sensação de inverno eterno. Aflito, você procura o barulho da chuva que não há. A esperança da água... Mas não há água. Abre corajosamente a segunda porta, mas desta vez não encontra nenhuma multidão. As paredes estão semi-lavadas e tudo seria vazio se lá não permanecesse o cheiro. O cheiro do abandono. O cheiro está no vazio, vem de lugar nenhum. Só existem camas, e mais camas, camas ocupadas por indistinguíveis seres; alguéns embolados sob escuros cobertores toscos, silentes, paz de dormideira de acalanto químico. Você vê os amontoados, bolos amarronzados, cor de vinho ruim. De repente, sente uma desesperante vontade conversar, quase sente saudades da amorfa multidão da manhã de ontem. Nada sufoca tanto como vazio mal cheiroso. Não é difícil encontrar uma tentativa de conversa porque alguém sempre resiste ao acalanto químico e espera que você diga alguma coisa. Mas rapidamente você se encontra sem o que dizer, e começa a se repetir, e se cala outra vez. Aquele alguém fica frustrado, outra vez, e desiste de você. E a fome, sem dúvida, continua. Desistindo de você, alguém pede um cigarro. Você tem ganas de não se perdoar, e não é capaz de dizer algo inteligível. Mais uma vez.

- Você, você, você... Quem? Todo mundo, eu ou você aí, sentada, falando. Quem é o doente mental afinal?

- Quem? Estou cansada, continuamos depois?
Magda Maria Campos Pinto


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