quinta-feira, 22 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

10.

Estou sentada na confortável poltrona da minha varanda esperando por Wolf que prometeu ouvir outra parte do meu romance. Revejo seu relaxamento quando, da última vez, me declarei cansada e pedi para interromper. Wolf está ficando diferente; às vezes, quase deixa a emoção sair. De repente ele começou a tagarelar e movimentava as mãos; coisa rara é Wolf movimentar-se quando fala. Revejo a pele clara, bastante clara, os dentes pequenos, delicados. Dentes infantis. Sorriso velhaco, de repente. Agora me ocorre ‘o passado é doce’, e quase canto: “there are places I remenber all my life...”, ele não gosta do Paul MacCartney, implicância, só porque eu gosto. Será que ele não vem? Seria outra diferença. Wolf sempre vem quando a gente chama.
Ele chegou. E mal passou pela porta, começou a falar. Wolf mudou muito.
- Já resolveu quem é o você do romance?
- Não se engane: você é o protagonista. Só isso: uma situação desconcertante, a confusão eu, tu, ele, nós. O que me interessa é: o que existe ‘entre nós’ que permite ou que impede a conversa?
Wolf se impacientou. Revirou-se e resmungou:
- Você está louca, é impossível escrever isso. É estúpido; como apreender o intervalo? Apreendido, ele deixa de ser intervalo, não entende?
Impaciente fiquei eu; por que essa birra se estava claro que agora ele era também sentimento? Saco! Por que este gozo de meio de caminho? Esta paralisia de ‘fui’ mas ‘não vou’?
- Esta sua mais que falida insistência na mais que fracassada racionalidade já me encheu... Chega! Paramos aqui. Deixa que eu siga minha impensável irracionalidade escrita, e você não se dê ao trabalho da escuta, ok?
Wolf ficou quieto me fuzilando com aqueles olhos de poço fundo, escuro, abismo, precipício, trevas, tentando me hipnotizar.
E hipnotizou. Baixei a cabeça. Eu quero este abismo. Eu sei do macio deste fundo.
- Esquece e desculpa. Não tem mais romance. Eu não tenho disciplina suficiente, nem autocontrole, nem clareza de idéias. Fim.
- Pára! O que pensa que eu estou fazendo aqui? Não tenho vocação pra babá, paciência pra papá, nem formação pra assistente social. Pára com esta histeria, é fingimento. De volta ao romance, por favor!?
- Grosso!
Emburrei. Embirrei. Empaquei. Amuei. Verdade na cara até que vai, mas assim, sem disfarce, sem amortecedor nem lubrificante? Ah, não, assim também não. Eu também tenho olhares assassinos. Arremessei vários. E um bico deste tamanho, é claro.
E ele assimilou, claro. Wolf é perfeito nesse jogo. Afinal, é exatamente por isso eu gosto tanto dele. Eu também jogo bem. É por isso que ele está aqui. Mantive a posição empacada. Meu olhar assassino encontrou o olhar ‘vim pra você.’ Merda. ‘Lá vou eu de novo...’
A rede da varanda é branca, rendada e grande. Compramos no nordeste, nós dois, no tempo em que não tínhamos varanda nem sabíamos dormir em rede. Por causa da rede, buscamos varandas. Agora temos duas. Uma em cada casa. Ele mandou buscar outra rede, igualzinha. Quando aprendemos a dormir na rede, o amor aprendeu a durar muito mais.
Wolf espreguiçou devagar. Beijou minha orelha.
- Amanhã voltamos para o romance, ok?
- Ok.

Magda Maria Campos Pinto

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