segunda-feira, 26 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

11.

- Então você dizia que queria escrever sobre uma mulher contemplativa que desemboca numa viagem sobre a loucura e que vai dizer que loucura é a desistência da conversa; disse que quer saber sobre o que faz as pessoas conversarem ou desconversarem, certo? E que a mulher contemplativa, nesse caso, virou você, isto é, eu, ele, qualquer um...
- Você já escreveu meu romance?
- Eu não, estou pacientemente te ouvindo.
- Pacientemente...
- Esquece. Estou adorando te ouvir.
Eu ri. Ele também.
- Não seja tão séria, Lóri! Não temos o que fazer, e você faz melhor. É mais bondosa. Leia. Depois a gente briga outra vez.
Quase não resisti e comecei logo uma discussão mas me contive, e enfrentei o romance:
- No princípio, o ‘entre nós’, o ‘intervalo’ é só estranheza, quero dizer, é familiar e desconfortável ao mesmo tempo, compreende? É ameaçador porque a intimidade é sentida e não dita, não falada. Não é falada porque no começo a intimidade é quase sempre desconfortável. Talvez a primeira intimidade, o primeiro ‘entre nós’ seja necessariamente incômodo; temos de trabalhar muito para que o ‘entre nós’ fique bom, para que seja um ‘entre nós’ amoroso. Eu quero tratar disso no meu romance. Penso que a doença mental é a caricatura da estranheza, do mal estar que a presença do outro – tão parecido comigo! – me causa. Talvez eu não consiga escrever nada, talvez nada disso tenha sentido.
- Você disse que não existe razão num romance, vá em frente. Leia. Não quero explicações. Sem birra, por enquanto.
E ele riu. Ri também. Retomei a leitura.
- No terceiro dia você vai trabalhar no fim da tarde e chega junto com as visitas. Todo mundo está falando ao mesmo tempo. Você se sente mínimo, miniaturado, abre passagem sem querer ver por onde passa, não sabe o que vê, não vê quem você vê. Todos estão falando a mesma ladainha – ‘eu não posso fazer nada’ – e você não quer repetir isso. Mas é difícil não sucumbir a uma ladainha, você ouve, ouve, ouve. Ninguém quer saber de alguém capaz de dizer: ‘a intimidade com você é desagradável’, ‘você é minha família e isso é horrível’. Só um louco diria isso, então, ele é tirado de perto da gente. Ele é louco, eu não posso fazer nada. E você... Você sente náuseas. Ninguém faz nada, ninguém tenta interromper a ladainha, nem você, que fica mudo.
- Hummm. Um desconforto familiar.
- Bem conhecido, conhecido até demais. Mas não reconhecido. Fica nauseado mas mudo, pois é o âmago para o qual você não tem palavras. Então, como ninguém diz nada de novo, a encenação tem que recomeçar: alguém agradece um cigarro e repete o absurdo ‘Deus lhe pague’, e você que ouve a ironia no absurdo, fica mais mudo e mais perplexo; de repente gritos rompem sua paralisia: ‘como é que você quer que eu viva sem liberdade?’A frase ecoa quase infinitamente porque todos que não tinham nada a dizer começam a gritá-la tal como se gritava ‘abaixo a ditadura’, então uma urgência que você não sabe nomear surge dentro de você, mas você é lento, os gritos se tornam ‘o povo unido jamais será vencido’ e agora você não sabe mais se ouve ou alucina. Ou apenas se lembra.
- Indizível incômodo.
- E nenhum romance.
- É um romance. Você terá que se tornar um eu.
Wolf falou sem fôlego e estava completamente triste. Olhou para mim como se nunca me tivesse visto. Havia surpresa, e também misericórdia. É. Era misericórdia; e era tristeza. Uma tristeza que eu nunca vira. Ele adivinhou.
- Sinto piedade de mim mesmo, e nenhuma de você. Sossegue. Sinto também vergonha da auto-piedade. Sei o que acontece quando um você se torna um eu. E não tenho coragem de escrever sobre isso; sei que você também sabe como é, e que não sossegará enquanto não escrever. Você não sabe fingir a verdade; só finge a mentira. Eu, pelo contrário. Você me entende, não é?
Jamais ouvira tanta doçura de Wolf, embora eu soubesse sempre da sua doçura, que ele sempre negou. E continuará negando, eu sei. Comecei a tremer. Sabia por quê. Tive de dizer:
- Tenho medo. Não sei se suporto tanta intimidade. Você sabe de mim. Eu sei de você. Neste momento, é bom, mas tenho medo do depois. Você é diferente. Sabe ficar no agora.
- Eu tenho medo. Ser humano é um escândalo... desculpe-me mas faz algum tempo me apoio em você para não me afogar.
Wolf parou de falar e de sorrir. E chorou.
Magda Maria Campos Pinto

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