quarta-feira, 28 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

12.

Quero encolher-me mais, mas não é possível. Perdi a compostura. Estou dobrada, meus braços abraçam as pernas e o pescoço pende sobre os joelhos. Relanceio o redor. Imagino um porto. Ele está aqui de volta, o anjo, inteiro, suavemente pousado, silencioso diante de mim. Eu olho com ternura, e ele é uma bela ave, em cores azuis. Múltiplos azuis. Diante deste pássaro, sinto uma súbita saudade de Proust, como se eu tivesse algo urgente para dizer a Proust. Assim vivendo uma vez mais a derrota nossa de cada dia, eu e a memória olhamos de novo para ele. Uma camisa jeans o envolve como um pelo azul que parece não aquecer suficientemente. Tenta dissimular o tremor. Tenta dissimular um temor. De repente, quer reagir, quer soltar a dissimulação. Mas não consegue; se esquece e se solta. As lágrimas rolam. Ele diz:
- Você acredita que se alçarmos à condição de anjos, à condição de puro olhar, ouvir, tocar...
- Anjo é assim, não é? Pura sensação, sensação pura.
- Nada mais tem importância? Só sentir? Sentir faz tudo acontecer? Tudo se resolve com o puro sentir?
- Com o sentir puro.
Wolf não está ouvindo. Ele fala, pergunta e chora. Não quer ouvir, quer apenas clamar. Nunca o vi assim, tão perfeitamente humano. Nunca vi me assim diante dele: calmamente lúcida. Ele clama:
- Não mais violência? Seríamos animais felizes? Se o estético bastasse? Mandasse?
- Animais mortais e pacíficos. Justos. Ocupados com o sentir.
- É ridículo.
Ele quase berrou; foi um escape, eu sei. Ele está transtornado, mas fiquei puta assim mesmo. Senti ódio; por que me chama de ridícula? Sempre foi assim, se começa a se sentir, me ataca. E agora que chegou ao cúmulo da emoção, berra comigo. Que ódio; vou-me embora, pronto! Fui, sumi pra dentro de mim, baixei a cabeça, escondi meus olhos, comecei a recitar pensando “todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas; também escrevi em meu tempo cartas de amor. Como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia em dar por isso. Cartas de amor ridículas...”
Sinto o pouso suave de sua mão sobre minha cabeça, um hálito ardente me bafeja. Vacila, desiste do carinho, estremece novamente, soluça e leva as mãos à cabeça como quem vai arrancar os cabelos. Mas apenas toca o crânio quase raspado. Espero por uma explosão vulcânica; quero uma explosão vulcânica! Quero que Wolf exploda! Por mim, por ele.
A explosão não vem, ele já se acalmou. Abre largamente o peito, respira fundo e alonga os braços disfarçadamente. Dobra o pescoço para trás e estica lentamente as pernas. Respira com vagar. E se volta pra mim. Seu olhar brilha outra vez, não há mais lágrima nem medo. Há uma coisa nova: ele está grato, sem se sentir pequeno. Pelo contrário, ele cresceu mais e diz isso com os olhos. Começa a se exibir, silente.
Como eu gosto! Bebo inteira essa beleza, me afogo, cada sentido solta o seu sentir inteiro. São ondas que me tomam, ou melhor, são ondas em que me transformo; experiência única e múltipla; o belo em si diante de mim, em mim; assisto; vejo o anjo do Wim Wenders, a câmara do Wim Wenders, girando tão leve como a gente pensa que gira um olhar de anjo, e sinto a dor que ele sente agora, como a dor que a gente imagina que anjo sente, absurdo, tudo absurdo como sentimento de anjo... Ouço um sussurro:
- Nesse caso pode-se morrer.
- Nesse caso, sim. Sem escândalo.
Ele retoma o silêncio, e está imerso em indizível tristeza. O estético princípio. O estético fim. Substantivo: encontro. Agora ele é a palavra, a letra, o porto, a saída, o anjo, o filme, a câmara, o Wenders, a dor, a beleza e a alegria. Tudo meu. Ele é a resistência. Ele é eu. Somos. Alguém falou:
- A beleza contra a violência.
- Devemos ir à exaustão. Pessoas que chegaram lá, no exaurir-se, encontraram a morte ou a loucura, e agora, eu a pensar que uma e outra podem ser outra coisa: a liberdade.
- Digo que podem ser.
Nos assustamos de repente. Como se acordássemos. Recolocamos a máscara. Reaparece o professor de literatura.
-É exageradamente pessoal. Você precisa de algo mais universal, mais inteligível. Pense: e o Estado?
Eu me esforço para seguir o tom, mas não consigo. Me perco.
- Pára com isso! Que importa o exagero? Sair do círculo do pessoal, é isso? Pela responsabilidade que lhe é própria! Pronto! Pela ousadia da conversa, quando se diz: ‘ eu digo’, ‘eu quero’... Por que você recua?
Sou eu, boba novamente. Ele tolera, perdoa. Me suporta.
- Volte para o romance. Vá, eu escuto.
Obedeço. Mas peço:
- Amanhã?
Magda Maria Campos Pinto

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