sexta-feira, 23 de abril de 2010

Dia de São Jorge: Sugestão: São Jorge - Arquétipo, Santo e Orixá


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É impossível a captação das múltiplas vertentes que estruturaram, e continuam a estruturar a personalidade mítica de São Jorge, sem a percepção da dinâmica dos sincretismos. A análise comparada das mitologias permite rastreamentos que estabelecem a intensidade e a ocorrência de trocas culturais. Mitologias desativadas que subsistem através dos seus monumentos artísticos e peças museológicas, passíveis de serem reinterpretadas. Mitologias, aparentemente desativadas, subsistem em sincretismos formais com religiões atuais e no ‘substratus’ da cultura popular. Tomando como pontos referenciais as religiões que atuaram direta e indiretamente na história mítica de São Jorge, obtêm-se dados que permitem identificar os elementos que convergiram na imagem compósita de um jovem guerreiro cristão, dotado de extrema coragem, que desafiou a estrutura religioso-estatal do Império Romano, e se tornou o símbolo da resistência militar cristã à opressão do paganismo.

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Durante as Cruzadas, novos sincretismos se processam. O Cavaleiro cristão, personificado em São Jorge, o Guerreiro Santo, encontra-se com muitas vertentes orientais que se formaram em torno do Mártir da Capadócia. Neste encontro, entre o Cavaleiro dos cristãos ocidentais e o Médico dos cristãos do Oriente, abrem-se novas perspectivas no complexo mundo dos sincretismos. Ressurge, de forma cristianizada, a lenda de Perseu e Andrômeda, que será leva para a Europa Ocidental, na esteira das Cruzadas,tornado-se o principal suporte da história mítica de São Jorge.

No Brasil, aonde veio por via estatal, e na qualidade de defensor militar do reino de Portugal e dos seus territórios ultramarinos, o culto a São Jorge cedo se confrontou com o de Ogum, orixá iorubano, cujas raízes mergulham no denominador comum do Mediterrâneo Antigo. Estabelece-se, em torno do arquétipo comum, o sincretismo, que se deforma com o escravagismo. De Herói civilizador, deus da Agricultura e da Metalurgia, ogum se transforma no Herói Vingador, que somente reassumirá as suas características básicas com a explosão liberatória dos cultos africanos.

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Raízes das mitologias célticas e germânicas penetraram profundamente na história de São Jorge, que passou para a Inglaterra, vinda das Gálias. Em torno da figura do guerreiro Jorge, martirizado durante a perseguição decretada por Diocleciano para o Oriente Próximo e África, sincretizaram-se componentes lendários do episódio clássico de Perseu e Andrômeda e elementos das mitologias bárbaras. Irradiação do culto estatal, prestado a São Jorge, penetrou em Portugal através de acordos lusobritânicos. Daí, em novas trajetórias, chegou aos domínios portugueses.


In São Jorge – Arquétipo, Santo e Orixá – Maria Augusta Machado, Ibis Libris, RJ, 2008.

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