domingo, 25 de abril de 2010

"Uma escrita que sustenta a vivência frágil do indivíduo contra a arbitrariedade bárbara da história"

“Mas, se nossa postura ante a história não for existencial, ou seja, se não tiver uma natureza criativa, existe razão para duvidarmos das afirmativas segundo as quais os capítulos mais negros do século, como, por exemplo, o nacional socialismo, não podem se repetir. E por que não poderiam? Tudo o que hoje em dia na Europa – e no mundo – vivemos, nossa civilização, nosso modo de vida, nossos conceitos, o melhor, a falta deles; a ruptura entre o mundo individual e o histórico-social: em meio à funcionalidade, à produtividade, à engrenagem da empresa da civilização, a divisão entre a ‘alma’ e o ‘interesse’, entre a esfera pessoal e as condições de sustentação dessa esfera pessoal empurram o indivíduo e a sociedade para uma situação cada vez mais esquizofrênica;e a impotência dos intelectuais, a para da fome insaciável de ideologia da intelectualidade do nosso tempo, mais mortífera que a AIDS ou os narcóticos – tudo isso, e as manifestações de pobreza de imaginação, e a miséria espiritual do nosso século demonstram que essa repetição é mais que provável. Quem não vê que a democracia não consegue – ou não deseja – corresponder à ordem de valores erigida por ela mesma, que em lugar nenhum se entalham na pedra as leis que não podem ser transgredidas, que ninguém desenha os ideais pelos quais vale a pena viver?
(...)
É fato que neste século tudo se desvelou, ao menos uma vez tudo mostrou a verdadeira face, tudo se tornou mais real. O soldado converteu-se em assassino por vocação; a política em atividade criminosa, o exterminador aparelhado com fornalhas para queimar cadáveres numa grande empresa, o jogo sujo da lei numa norma, a liberdade universal na prisão dos povos, a anti-semitismo em Auschwitz, o sentimento nacionalista em genocídio. Em todo lugar transparece a intenção verdadeira, a realidade nua; a força e a destrutividade ensangüentaram alguns dos ideais do nosso século. Talvez estejamos na situação que o maior conhecedor da alma da nossa época, Franz Kafka, assim formulou: nossa tarefa é acabar com a negatividade; o que era positivo já se rendeu.
Essa frase curta abre uma perspectiva extraordinária, leva até a criação, aos primórdios míticos do destino da humanidade. Mas por que não poderíamos traduzir essas palavras também do ponto de vista da história? Passou certo tempo, uma certa postura humana parece irrecuperável, como a idade, a juventude. Que postura era essa? O espanto do homem com a criação; a admiração embevecida ante a vida, a alma, a matéria que se decompõe – o corpo humano; desapareceu o espanto com a existência e, com ele – na realidade - respeito pela vida.
(...)
Talvez o mundo nunca tenha se visto ante uma necessidade tão grande de uma parada, de um descanso deliberado no sentido espiritual, como hoje em dia. Parada para avaliar a situação e reformular os valores – na medida em que ainda se dê algum valor à vida; e na realidade essa é a principal pergunta a fazer.
(...) O que é o bem? O que é o mal? Como se deve viver? As palavras de Tchekhov, o grande escritor, ecoam em meus ouvidos, de um século de distância: “Não sei, juro pela minha alma, pela minha honra, eu não sei”. Mas como um eco à palavra do grande artista russo, ou talvez como um coroamento, permitam-me encerrar com a frase de Camus, a qual cabe tão bem aqui: “E eu ainda não falei da figura mais absurda, do homem que cria”.



CODA: Com a frase título desta postagem, a Academia Sueca apresentou a obra de Imre Kertész ao anunciar o ganhador do Nobel de Literatura de 2002. In A língua exilada Imre Kertész, Companhia das Letras, tradução de Paulo Schiller, SP, 2004. Os fragmentos acima foram retirados do discurso proferido no recebimento do Prêmio Nobel de Literatura em 2002, intitulado HEURECA. Imre Kertész nasceu em Budapeste, em 1929; foi deportado para Auschwitz aos 15 anos de idade, e depois para Buchenwald, de onde foi libertado em 1945. De volta à Hungria, trabalhou como jornalista e traduziu obras de Nietzsche, Wittgenstein, Canetti e Freud, entre outros. A partir de 1955 escreveu ensaios e romances autobiográficos, sempre acertos de contas com a vida aprisionada pelos dois grandes totalitarismos do século XX.

Como afirmou Nelson Ascher, na "Folha de S. Paulo", no ano em que um laureado anterior (José Saramago) comparou a situação em Ramallah a Auschwitz, o Nobel de Literatura concedido a Kertész constituiu um corretivo absolutamente necessário: o autor premiado é alguém que lá esteve, não num lugar comum metafórico, mas no verdadeiro campo de extermínio.
Algumas Obras de Imre Kertész:
Sem destino, 1975; O rastreador, 1977; O Fiasco, 1988; Kadish por uma criança não nascida, 1990; A bandeira inglesa, 1991; Diário Gallery, 1992; O Holocausto como cultura; Eu - Outro; Momentos de silêncio; A língua exilada.

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