terça-feira, 4 de maio de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ



13.


- Humm. A noite vem, sempre vem. A cor de um começo de noite apavora, pois àquela cor tudo parece volátil. As coisas se mostram mais inconsistentes e de repente irrompem gritos para o sol. Uma espécie de apelo; apesar das súplicas o sol despenca, esconde-se, e os gritos se cansam. E se não se cansam, você pode silenciá-los com bolinhas coloridas, como se fossem pedacinhos de sol, que fazem esquecer a noite, e então se adormece. Até amanhã. Mas pode acontecer um crepúsculo silente, e neste, a queda do sol é insuportavelmente intocável. Silêncio premonitório de noite longa; quase infinita, e resistente a pílulas. Os corredores se alongam mais e a iluminação, quando existe, é branca e fria. Por exemplo, um pálido neon focaliza um corpo dobrado. Alguém que se deixa restar como um resíduo. Ou será um resistente? É difícil decidir. Sabe-se apenas que é um imóvel que mobiliza você, e o faz querer falar e então, você insistirá. Insistirá. Insiste até demais porque não quer aceitar que alguém não queira dormir, não queira se mover, comer nem ouvir, muito menos falar, assim, sua obstinação em querer conversa poderá lhe custar um: “quem você pensa que é?”, assim sem cerimônia, e você ainda estará pensando nisso e o um, contrariado, já retornou à mudez paralítica. Você estará sozinho outra vez, e agora já considera que tudo pode ser mesmo um disparate... mas... com certeza a noite é longa, ainda há portas a abrir e a próxima que você abre lhe traz, numa luz pálida e trêmula, outra onda do mesmo odor nauseabundo. Luz mínima. Estão todos nus, famintos, e amontoados. Agora você é puro horror, se pergunta pra que abriu esta porta, se sente, não, não se sente. Tem medo, medo de cair naquele monte. Entra em pânico. Não sabe se já caiu no amontoado, se já perdeu a própria pele.

- Isso dói.

- Eu lhe peço: preste atenção na linha do corpo. É a corda bamba da humanidade.

- A pele é o limite.

- O fio da navalha. Um frio cortante. Toda nudez é paradoxal, uma inocência culpada, e como você é covarde se afasta, foge perguntando-se porque o sol demora a voltar. Não está pensando sozinho porque de repente esbarra em outro que ri, ri muito, ri só com a boca, sem os olhos, pois estes ele já apagou. Riso só de boca, sem olhos e sem por quê. Porque você é um obstinado resiste à tentação de amordaçar aquele riso sem por que, que lhe mostra o que é perder tudo, e neste momento você oferece um cigarro que a espasmódica contração facial humildemente aceita. Enfim, você corre para a terceira porta e lá se tranca. É isso, enfim, você se tranca. Aqui há uma pequena janela com grades. Privilégio de quem é obediente. Ou covarde. Como você.

Começo a me culpar e quero me amordaçar. Ele continua calmo, tranqüilizador. Confiante, fecha lentamente os olhos, descai os ombros e expõe novamente o anjo, com asas e tudo mais que a gente sabe que anjo tem; ele me conforta, e sinaliza que eu posso prosseguir.

- Finalmente o sol acena e com o primeiro brilho você se anima pois é um teimoso e já pensa em tentar novamente. Outro dia, começa a sonhar com novas saídas, novos encontros. Apesar disso quer sair logo daquele lugar e se apronta mas as portas estão trancadas... com um sorriso amarelo você aguarda o porteiro; conta com a simpatia dele, lhe abre um sorriso, um bom dia! (você o detesta pois reconhece o olhar irônico, besta, idiota... mas as chaves estão com ele, você ameaça pensar no salário mínimo que ele recebe pra guardar estas chaves mas... as portas.... e você quer sair correndo) Bom dia!! Lentamente, preguiçosamente ele enfim abre a porta e você sai. E então começa a ruminação: por que saiu? Não corre, se arrasta... caminha devagar, observa as pedras da calçada, vê o velho acabrunhado entrando na padaria, desce o morro passo a passo... acabou a pressa, sente o sol, se aquece, respira fundo, sente o aroma doce da roseira vermelha deste jardim, limpo, e a empregada num uniforme impecável varrendo a varanda, impecável varanda, respira novamente.... o ar é puro, o céu é azul, e você caminha vagarosamente e rumina: por que você? Por que só você sai? Volta? Não sabe se volta, diz que não volta, sabe que é um covarde, mas não diz... E vive de indulgências. The end.

Wolf não riu. Fiquei sem graça e falei:

- Estou cansada. Ou... Sem saída.

- Isto é cruel. Ninguém precisa sofrer assim.

Fiquei surpresa; ele parecia a própria compaixão. Ele reagiu.

- Chega de se surpreender. Não se trata de indulgência com você. Estou arrasado comigo mesmo. Estou farto de sofrer.

- Pensei um dia que a doença mental podia me conter.

- Como assim con---ter?
- Sim, estou convencida que tudo depende de alguma espécie de contenção... mas me enganei, não há contenção aqui, só há crueldade, brutalidade pura, não é nada disso....
- Entendo, você tem razão.... há que se buscar uma contenção....

- Uauuuu... Lembrei-me das flores de amaranto!!!! Você conhece? Foi minha primeira contenção... Posso rever isso!

- Pode.
Magda Maria Campos Pinto

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