segunda-feira, 31 de maio de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

(foto de Asas do Desejo, Win Wenders)

14.


Mas de repente tudo ficou novamente escuro; perdi as luzes, errei a porta, caí no poço. E lembrei outras lembranças: as flores sumiram, não as encontro e me despedaço. E me lembro de quando comecei a desenhar meu nome. Eu lembro o quanto tudo era estranho e que, uma desconfiança de pavor, o desconhecimento e a dor não fingida nem sabida, ainda menos percebida, aparecia nas linhas tremidas, escuras cinzas redondas, incertas, trêmulas, redondas e imensas, imensidão que tentava esconder o medo que eu sentia, medo pavor de tanto nada.


Tamanho imenso da aprovação que se buscava e da ignorância de minha estranheza e que assim, desta, da estranheza, eu fiquei sabendo somente que era uma coisa minha, e que talvez assim tenha sido muito tempo a única coisa minha que eu tive. Eu por muito tempo fui a estranheza. Num tempo antes das flores de amaranto descobertas.


E agora me lembro também de uma coragem repentina que me veio e que soltou minha língua e eu disse: ‘merda, que ninguém me vê’, e veio a bofetada dizendo que me calasse para sempre. Dito que se gravou no corpo que nunca mais foi meu, era o corpo esbofeteado, uma dor durando uma noite eterna que nunca mais deixou de doer, de um sol que nunca mais nasceu. Agora me lembro da mãe que nunca tive; da doença que não cura e vejo minha invisibilidade no desejo que têm de não me verem. E me lembro do amor que meu pai tentou me dar, amor que me obrigou a lutar pela vida a que jamais tive direito; mas que lutei, pois que ele me amava. Amava-me, só não me fazia esquecer a mãe que eu não tinha. E me lembro da filha que busquei, que criei, que tentei amar para que não conhecesse a estranheza que era eu, e para que conhecesse a vida que me foi tirada.


Eu me lembro do NÃO eterno que minha filha disse pra mim, fechando assim o círculo do desconhecimento que definiu bem o território da não vida eterna que me foi concedida. O NÃO dito pela filha confirma o silêncio que me foi concedido e ASSIM se esclarece minha viabilidade imprevista: inviável és, foste e serás. Então: cala-te. Teu reino é a noite. E o silêncio. Não insista. A morte não virá nunca mais. Ela chegou primeiro. E não vistes. É a tua vida. Silencia. No silêncio está minha viabilidade.

Bendito NÃO dito por minha filha. Agora poderei falar de flores.

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