domingo, 2 de maio de 2010

Poesia

Remissão


Carlos Drummond de Andrade


Tua memória, pasto de poesia,

Tua poesia, pasto dos vulgares,

Vão se engastando numa coisa fria

A que tu chamas: vida, e seus pesares.


Mas, pesares de que? Perguntaria,

Se esse travo de angústia nos cantares,

Se o que dorme na base da elegia

Vai correndo e secando pelos ares,


E nada resta, mesmo, do que escreves

E te forçou ao exílio das palavras,

Senão contentamento de escrever,


Enquanto o tempo, em suas formas breves

Ou longas, que sutil interpretavas,

Se evapora no fundo de teu ser?

(Claro Enigma – 1948-1951)



Nenhum comentário:

Postar um comentário