quarta-feira, 2 de junho de 2010

Falaremos do corpo.... Murilo Mendes

CORTE TRANSVERSAL DO POEMA



Murilo Mendes

A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça,
Fica com um braço de fora.
Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
Em torno da lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
O ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.
Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
Um olho andando, com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem.
A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
Me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou.


(Jacinto e Apolo)


CODA: Murilo Mendes é poeta mineiro de Juiz de Fora. Com Drummond, Mário e Oswald de Andrade pertence ao núcleo chamado pelo crítico José Guilherme Merquior de ‘anarcovanguardista’, dentro da poética ‘Antropofágica’; ou seja, mais simplesmente, o núcleo do modernismo brasileiro. Murilo Mendes se deixa banhar no surrealismo, convicto e coerente. Sempre.

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