domingo, 6 de junho de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


15.

Wolf chegou triste e nada disse. Quase sempre nada diz. Eu sei quando está triste mesmo assim. Nada muda em Wolf, só muda o cheiro. Quando Wolf está triste ele fica sem cheiro, mas continua bonito e foi assim que descobri os amarantos, as tais flores imarcescíveis. Lindas. Naturalmente secas. Ele não sabe disso. Só não sei se desconfia.

- Fala da história da terra e do sol.

- Não sei se isso vai para o romance.

- Não importa. Conta.

Tive certeza de sua tristeza e de minha profunda necessidade de confortá-lo.

- A verdade, no fundo é que a fome da terra dá vida ao sol, ele gosta de vê-la sugando, ávida, e algumas vezes até se derrete mansamente, sem estardalhaço, entrega-se ao que já sabe inexorável, isto é, despedaçar-se por causa da terra. Mas só algumas vezes ele se rende ao próprio destino, no mais das vezes apronta o maior escândalo, dor de medroso, coisa muito própria dos machos, assim em geral...

Rio entre - dentes, pueril, tentando fazer graça, imitando o Rabugento do Dick Vigarista. Ele se deixa relaxar contaminando-se com minha infantilidade:

- Você bem que gosta.

- Tanto gosta, o sol, não eu, que logo logo, depois da tempestade, ele se recompõe, reaparece bonito e calmo, renovado e feliz. Em meio às tempestades, entre relâmpagos e trovoadas, o meu pai, sábio que sempre foi, dizia: “O sol de depois vai ser bom. Quer ver? Escuta”.

- Tá bom, e depois do começo?

- Bom, depois do começo as coisas se complicam, aquele que, no começo de tudo – no meio da multidão amorfa, lembra? - gritava por liberdade diz que na verdade todo mundo só acorda depois do começo mágico. No tempo da magia, isto é, do começo, não há desejo a desejar porque tudo já aparece aí, pronto e acabado como a chuva. Ele ensina: tudo perfeito e inteiro como a nossa mãe. O mágico é a nossa mãe. O mágico do começo. Conta ele que mãe é assim: ninguém a conhece, ela faz tudo em silêncio, no momento que a gente a descobre, o feitiço se quebra, e ela se torna uma pessoa comum. Fim do tempo da magia; quando o mago vai embora termina o começo, e agora nos resta refazer tudo sozinho, sem magia. Aquilo que o mago fez, ou seja, a mãe, se torna sagrado. Ele diz que sagrado é tudo aquilo que não é da gente. O sagrado é o trabalho da mãe, sabia? Imagina que dificuldade quando a gente acorda! Já pensou como é complicado tratar com o sagrado? Um inferno! O problema maior é que quando acaba a magia da mãe, você tem um nome, mas terá que fazer dele um nome próprio, entende? E vai ter que fazer sozinho, sem magia, e com saudades!. Não é o inferno? O paraíso é assim, você sabe que existe porque o perdeu – quem disse isso? Ahhh... O Proust? É uma lembrança sem imagem, um sabor, ou seja, sabor puro. Agora só o milagre do amor pode sustentar o trabalho insano de viver. O amor não é magia, é trabalho duro. Esta é a história de quem clamava por liberdade. Não sei se vai para o romance.

- Espera: milagre não é sagrado?

- Claro que não! Sagrado é magia, acontece, chega pronto. Milagre é diferente, é trabalho, exige esforço, suor. Milagre é vontade amar, puro trabalho. Não tem nada a ver com a magia da mãe. Por exemplo, escrever é amar, é esforço suado sobre a palavra, à procura de milagre. Dói porque todo esforço esbarra com o sagrado; nosso trabalho é debruçar-se sobre o que não foi feito por nós, e refazer. A nossa raiz escapa sempre; é a tal magia do começo. Entende porque o amor da gente nunca se satisfaz?

- O que é amar???

- É o esforço para viver sem magia, as custas do próprio trabalho.

- Amar dói?

- Claro. Todo esforço dói.

- Mãe não ama?

- Mãe é mãe, ou seja, não é gente, é gênio, é doutra espécie. Quando deixa de ser gênio, - não é coisa fácil, é preciso ter coragem -, e vira gente comum, ela pode amar, ou não. Também irá trabalhar duro se quiser amar seus filhos. Escute: o pior é que nenhum trabalho, por maior que seja, faz tanto quanto fez o materno silêncio mágico criando um mundo sagrado. Significa que por mais milagres que se consiga sobra um resto do sagrado. Por isso, escrever – e outros esforços para se viver do próprio trabalho, é absurdamente interminável, como qualquer maneira de amar. Amar é um esforço eterno de resistência ao sagrado, que nos atrai sempre como um buraco negro.

- Você não ia falar de flores?

- Vou.

Magda Maria Campos Pinto


Um comentário:

  1. Meu mundo ora segundo você, ora seguindo você. Ele vai se construindo assim interminavelmente na dor de crescer no libertador espaço de ser gente comun.

    Valéria

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