terça-feira, 22 de junho de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


16.
Descanso minha cabeça no peito de Wolf, ainda estou ofegante. Ele se entrega a um cochilo, mas ao mesmo tempo brinca de colar e descolar nossa pele suada. De repente segreda ruminações:

- Talvez chegue a ser um romance... Mas às vezes parece filosofia e outras vezes é uma catarse de mulher histérica.

Estou indolente; sinto-me vencida e gosto. Estou de ótimo humor.

- Eu queria escrever uma declaração de amor aos homens.

- Então você vai continuar?

- A vida ou o romance?

Ele ri solto, não se importa mais com minhas ambivalências e confusões; cuidadoso, brinca:

- Você não é capaz de distingui-los.

Rio, satisfeita e grata.

- Eu vou continuar.

- Quer sucumbir novamente.

- Quero.

- Tudo bem. Em frente... Eu ouço.

- No começo tudo é mágico, tudo é história. As coisas começam e terminam subitamente, não duram, as coisas são assim, sem antes nem depois. Como relâmpagos dentro de sombras. De repente, assim, do nada, tudo fica brilhante e lindo, e a cada minuto, uma luz nova. Uma alegria. A cada relâmpago, uma história. Começo, meio e fim. No começo tudo é, e tudo acaba, acaba bem. Por exemplo: a chuva cai e então é preciso contar uma história, pois a chuva cai. A história seria: o sol sente dor e fica com raiva, e começa a rugir. Caça briga com as nuvens e com os outros astros do céu, que são mais fracos mas são muitos e acabam vencendo o sol, que, na luta, perde alguns pedacinhos. Os pedacinhos do sol riscam o céu de dourado. São relâmpagos. As nuvens ficam assustadas e começam a chorar. A lua também sente medo, fica com pena das nuvens e também chora. O céu todo se encolhe assustado com a confusão que a raiva do sol causa. O sol tem medo de dor porque se imagina sempre forte e poderoso, e por isso uma coisinha de nada, assim tipo, se a terra esquecer-se de lhe dar ‘bom dia!’, pronto! Já se sente todo dolorido... E dor de sol, lá vem chuva. Formam-se enxurradas verticais, do céu até a terra. É assim, no começo, toda chuva é lágrima da gente do céu. O sol é muito ligado a terra, sabe que seu destino é viver junto dela, a terra é manhosa e provoca a ira do sol com desdém. Acontece que a terra gosta das lágrimas da gente do céu, ela recebe esta chuva de lágrimas e se engravida delas. A terra gosta de ser mãe, por isso vez em quando provoca a ira do sol; só pra que ele chore. E chova, e ela se engravide. Logo que passa a tempestade, a terra floresce e tudo fica lindo. O sol se apaixona, esquece que chorou e brinca com os frutos da terra.
Desconfiada me calo e levantando a cabeça olho pra ele. Está sossegado; com delicadeza, reacomoda minha cabeça no seu peito e com a ponta do dedo começa a acompanhar uma gota de suor que escorrega pela minha nuca. Sorri entre lábios e diz que eu continue. Digo que antes de continuar preciso fazer uma confissão. Ele me concede, e então espreguiço com vagar, me estendo como um felino, e digo:

- Se as amizades vacilam, qualquer bleatlesong me consola. Não me sinto só, entende? Depois que existem as canções nada mais se pode pedir.

- The dream is over... E o que é que isto tem a ver com seu romance?

- Tudo. Me ensinam a sonhar. O John tava blefando quando falou isso, era uma provocação, como só ele sabia fazer.

- Ah... Continue.


Magda Maria Campos Pinto

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