quinta-feira, 24 de junho de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

17.
O dia deu em cinza... E eu continuo copiando Pessoa, mas de repente fiquei saudosa do Saramago e eu nem me afinava com a dor que era a dor dele, mas sei que escrever é uma... uma coisa de gente que tem alguma coisa das minhas coisas, e então, eu? Digo, escrevo para conversar comigo, e nem tive opção, escolhi a conversa, e digo: ter que escolher é pior que não ter escolha... Escolhi a língua da escrita, você entende? Pensei: fazer nada é uma atitude metafísica, fazer nada é um fazer, entende? Fazer nada bem feito, bonito, alegre, leve... Alguém me disse, eu gostei: “ser feliz por preguiça...” Achei isso muito profundo, sabe? Ser feliz porque a vida é um espanto, só isso... Saudade é um estado de espírito, este estado, saudade porque o tempo passa, o tempo passa, e porque o tempo passa a gente escreve... Então pensei, saudade será exprimível em outra língua? Pensei que não, pensei que saudade é a língua escrita... é um sen-ti-men-to pausado.... um outro tempo, tempo da música... in-do-len-te, in-dul-gen-te, do-ce-men-te, se-men-te... É assim para gostar de escrever é preciso não escrever primeiro, é preciso primeiro ouvir a música da palavra, e então tudo fica solene, sagrado, tem espírito de saudade, e a gente tem que escrever, é obrigado a escrever... É um dever da liberdade, uma viagem na viagem, ser tão, não é território, é caminho, me lembro, minhas veredas, minhas gretas, minhas águas. Escrevo: muito sonho, pouco mundo, outro tempo. Aquela tem-po-ra-li-da-de...


Wolf dormiu?

Não.

Sorriu.

- Eu te amo.

- Ah!! Me lembrei.... ainda tem aquele medo de dançar e não voltar a si...

Wolf sorriu mais.
Eu senti mais saudade.
Magda Maria Campos Pinto

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