quarta-feira, 23 de junho de 2010

Reverenciamos:


“(...) e depois soube que o pastor se entretém a trocar os números das campas antes de serem colocadas as pedras tumulares, Porquê, É difícil de explicar, anda tudo à volta de saber onde se encontram realmente as pessoas que procuramos, ele acha que nunca saberemos, como aquela a quem tem chamado a mulher desconhecida, Sim senhor, Que fez hoje, Fui ao colégio onde ela tinha sido professora, fui à casa onde viveu, Descobriu alguma coisa, Não senhor, e achei que não queria descobrir. O conservador abriu o processo, tirou o verbete que viera pegado aos das cinco últimas pessoas famosas de quem o Sr. José se tinha ocupado, Sabe o que eu faria se estivesse no seu lugar, perguntou. Não senhor, Sabe qual é a única conclusão lógica de tudo o que sucedeu até este momento, Não senhor, Fazer para esta mulher um verbete novo, igual ao antigo, com todos os dados certos, mas sem a data do falecimento, E depois, Depois colocá-lo no ficheiro dos vivos, como se ela não tivesse morrido, Seria uma fraude, Sim, seria uma fraude, mas nada do que temos feito e dito, o senhor e eu, teria sentido se não a cometêssemos. Não consigo compreender. O conservador recostou-se na cadeira, passou lentamente as mãos pela cara, depois perguntou, Lembra-se do que eu disse ali dentro na sexta-feira, quando se apresentou ao serviço com a barba por fazer. Sim senhor, De tudo, De tudo, Portanto lembra-se de eu me ter referido a certos factos sem os quais nunca teria chegado a compreender a absurdidade que é separar os mortos dos vivos, Sim senhor, Precisarei de dizer-lhe que factos me referia, Não senhor.(...)”


In TODOS OS NOMES, José Saramago, Companhia das Letras, SP, 1997. Prêmio Nobel de Literatura 1998. Reverenciamos.

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