quinta-feira, 24 de junho de 2010

Reverenciamos:


“(...) Maria levantou-se e ninguém reparou nela. A noite fechara-se por completo, a luz das estrelas, no céu limpo e sem lua, parecia produzir uma espécie de ressonância, um zumbido que raiava as fronteiras do inaudível, mas que a mulher de José podia sentir na pele, e também nos ossos, de um modo que não saberia explicar, como uma suave e voluptuosa convulsão que não acabasse de resolver-se. Maria atravessou o pátio e foi olhar para fora. Não viu ninguém. A cancela da sua casa, ao lado, estava cerrada, tal qual a tinha deixado, mas o ar movia-se como se alguém tivesse acabado de passar por ali, a correr, ou voando, para não deixar da sua passagem mais do que um fugaz sinal, que outros não saberiam entender.”



In O evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago, Companhia das Letras, SP, 1993. Romancista, dramaturgo, poeta português. Nobel de Literatura 1998. Nós reverenciamos.

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