sábado, 31 de julho de 2010

Reler, rever, reviver...



(...) Quanto ao mundo espiritual, a metade superior do ser humano, eles o rejeitam, o banem alegremente, mesmo com ódio. O mundo proclamou a liberdade, sobretudo nestes últimos anos, e o que ela representa? Nada além da escravidão e o suicídio. Porque o mundo diz: “Você tem necessidades, satisfaça-as, porque tem os mesmos direitos que os grandes e os ricos. Não tema satisfazê-las, aumente-as mesmo”. É o que se ensina atualmente. Esta é a concepção deles de liberdade. E o que resulta desse direito de aumentar as necessidades? Entre os ricos, a solidão e o suicídio espiritual; entre os pobres, a inveja e o crime, porque conferiram-se direitos, mas ainda não se indicaram meios de satisfazer as necessidades. Assegura-se que o mundo, abreviando as distâncias, transmitindo o pensamento pelos ares, irá unir-se cada vez mais, que a fraternidade reinará. Ai! Não acreditem nessa união dos homens. Concebendo a liberdade como o aumento das necessidades e sua pronta satisfação, alteram-lhes a natureza, porque fazem nascer neles uma multidão de desejos insensatos, de hábitos e imaginações absurdos. Não vivem senão para invejar-se mutuamente, para a sensualidade e a ostentação. Dar jantares, viajar, possuir carruagens, cargos , lacaios, passa tudo como uma necessidade à qual se sacrifica até sua vida, sua honra e o amor à humanidade, irão até matar-se na impossibilidade de satisfazê-la. O mesmo ocorre entre aqueles que são ricos; quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são no momento afogadas na embriaguez. Mas em breve, em lugar de vinho, irão embriagar-se de sangue, é o fim para o qual os conduzem. Digam-me se esse homem livre” (...)


Dostoievski, in Os irmãos Karamázov, o escreveu há mais de um século. E eu aqui, pensando...

terça-feira, 27 de julho de 2010

Quintana


A poesia


Encomendaram-me os editores uma ‘suma' de minha poesia, o que me enche de perplexidade. Pois não foi aereamente e sim muito de propósito que dei a um dos meus livros (que por sinal é o predileto de Manuel Bandeira, Augusto Meyer e Carlos Drummond) o título de O aprendiz de feiticeiro, tirado de uma lenda alemã. Esse incuto aprendiz, na ausência do seu Mestre, pôs-se a lidar com forças desconhecidas, e o eu aconteceu foi uma incontrolável multiplicação de vassouras, no meu caso uma multiplicação de poemas.
Saberá mesmo um poeta em que consiste essa espécie de força oculta que o faz poetar? Ele não tem culpa de ser poeta; portanto, não tem do que se desculpar ou explicar.
Se eu conheço algum segredo é o da sinceridade, não escrevo uma vírgula que não seja confessional. Esse desejo insopitável de expressar o que tem dentro de si é o mesmo que leva o crente ao confessionário e o incréu ao divã do analista. O poeta prescinde de ambas as coisas, e os que não são poetas, mas gostam de poesia, desafogam a si mesmos através dos poemas que lêem. Porque na verdade vos digo que não é o leitor que descobre o seu poeta, mas o poeta que descobre o seu leitor.


in Porta giratoria, Mário Quintana, Editora GloboSP, 2007.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Humanização


Mário Quintana nasceu em julho de 1906 no Rio Grande do Sul. Mário fez muitas coisas, viveu muitos anos (oitenta e sete), traduziu obras importantes para o português (Proust, por exemplo). Mas antes de tudo mais, ele foi poeta... assim único, como todo grande poeta. Dentre tantas virtudes e singularidades é difícil destacar o que brilhava mais em Mário. Decido pela ternura. Eu penso que se a gente provasse um pedacinho do Mário, sentiria o gosto de açúcar. Ele foi um forte.


Poeminha do Contra


“Todos esses que aí estão,
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho”.

Convite

Vale vida, vale alegria.... bolsa vida, bolsa arte, bolsa criatividade. Vamos lá?

https://mail.google.com/mail/?ui=2&ik=fa7836cf53&view=att&th=129fae2f0027b3bc&attid=0.1.1&disp=emb&zw

quarta-feira, 21 de julho de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


18.

- Wolf?
- Humm...
- Posso ler o romance?
- Pode tentar.
- Humm...
Daquela viagem voltei muda, seca e impaciente. Doente. O antigo mal recidivara recrudescendo meu rancor para com a vida. Tomei a ridícula decisão de não revê-lo até a próxima estação. Contrariado ele aquiesceu, deixando claro que era mera condescendência com as inexplicáveis inconveniências femininas. Verdade. Pura verdade. Senti-me mais irritada, isto é, mais doente. Ser incongruente é desconcertante, e eu estava mais que desconcertada, recaíra no horror feminino de sentir-se um ser necessitado de irrelevante necessidade. Irrelevante, e..., imprescindível.
Apenas uma mulher sabe o que é isso. Àquele tempo restara-me uma certeza: eu era mulher. E gostava. Isso era irrelevante. Caí. Foram dois dias sem sentido e duas noites sem dormir. Na terceira noite retomei o pé rendendo-me à meditação. Minha doença era culpa, minha culpa era dúvida: eu havia machucado um homem? Profundamente? Na rendição meditativa resolveu-se a pseudofalha de memória: eu não machucara a ninguém. E o ataque histérico cedeu.
Voltei a caminhar livre pelas ruas da cidade, mas em círculos porque dei de pensar que se render é pouco. Eu queria confissão. Foi então que, num súbito, o vi naquele bar. Eu passando, carregando livros, como sempre, e dúvidas, e amigas, como sempre, e então eu o vi, tantos anos depois, e parei; minhas amigas também pararam, eu caminhei, três passos, elas também. Volto?
Voltei. Olhei direto nos olhos grandes: absorvi um susto verdadeiro. E entrei pupilas adentro. Múltiplos véus verde-azuis eu atravessei.
- Com licença. Boa noite. Des-cul-pe-me.
Gostei de mim. Apesar do desconcerto senti ambigüidades se esgotando. Eu estava me tornando uma pessoa feliz. E estava dentro do mar verde-azul dos olhos dele...
Ele sustentou um desconhecimento e derramava desdém. E eu ali, parada, e minha amiga, a despojada, começou a examinar o teto. E eu ali me banhando no rancor que ele destilava. Decidi sustentar a cena da reparação.
- Está bem. Você não me reconhece, tem razão, afinal são mais de oito anos e eu nem me despedi. Desculpe-me agora...
E voltei um passo à trás. Uma conhecida mão segurou-me pelo braço.
- Não foi legal.
- Eu não fui legal.
Ele apertava meu braço e doía, mas não me queixei. Mandou que eu me sentasse. Obedeci. Minha amiga sumiu olhando o teto.
- E então?
- Fugi da universidade, aprendi a escrever, a chorar sem escândalos, a não me esconder, quase sei dançar e não sei o que digo.
Falei num único fôlego, e me descobri na frase. Então ele sorriu sorrindo tipo para sempre e eu senti aqueles cílios assombradamente grandes, que varrem o rosto da gente quando ele fecha devagar sorrindo as pálpebras, como quem fecha uma janela e se recolhe para descansar um pouco, e logo as abre vagarosamente, abrindo profundas cortinas verde-azuis, libertando uma infinita bondade. Revi o ser encantado que era ele, e vi meu fascínio. Ele estava feliz e eu fiquei feliz. A humanidade chega quando se descobre beleza no passado.
- Humm...
-Que?
- Foi bom este.
- Foi?


Magda Maria Campos Pinto

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ou não...


"lembra o tempo

que você sentia

e sentir

era a forma mais sábia

de saber

e você nem sabia?" (Alice Ruiz)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ainda pensando...


“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.”

Carlos Drummond de Andrade

Volto ou não volto?

Verbo Ser

Carlos Drummond de Andrade


Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas!
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.


domingo, 11 de julho de 2010

Óia aí, gente... Cristina Borges tá chamano....


Quintal junino – o retorno

(ops, julino)

Devido ao imenso sucesso, vamos fazer a segunda versão da festa de São João no quintal da minha casa. O esquema é o mesmo, cada um traz uma coisinha: comidas, bebidas ou diversão. Alguém aí é bom puxador de quadrilha?

DIA: 11 de julho, domingo. Lá pras 16h.

Motivo da festa: o quintal agora tem flor.

Quem tá dando a festa? todos nós que queremos festa.

O quintal é de quem? da Cristina (na verdade é da Fafá).

E fica adonde? Rua Lunardi, 212 – Caiçara.

Que que tem pra fazer? Que que tem pra fazer? Que que tem pra fazer?

Colaborar com alguma coisinha da lista anexa. Ou não...

Pode levar alguém? Só se for gente boa. Lembrete: gostamos muito de criança!

Traje: bolinhas, florinhas e xadrezinhos são bem vindos, mas não obrigatórios. Muié é de saia, pra balançar.

Obs: Sobre as comidinhas, pode fazer lá em casa, chegar mais cedo, levar os trem (inclusive panela) e pronto.

Sobre os refri, levar gelado ou me entregar com antecedência de gelo.

A maioria das coisas pode ser feita por mais de uma pessoa! Então não tem problema se já tiver um nome na função que vc queria desempenhar.

Vai ter Bazar do real, quem quiser pode trazer roupas para vender e $$$ para comprar.

Estou esquecendo alguma coisa (de beber, de comer, de enfeitar...)? Ajudem, ajudem, ajudem! Deem idéias.

Beijos. E anarriê!

(meus tels: 3267 7022 e 8466 7022).

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Humanizar-te

Relembrar. Educar. Nós pretendemos ser um Clube de Arte. Porque amamos a arte e porque acreditamos nela como método de educação. Se pudermos dizer melhor, temos a arte como manifestação da civilização por excelência. Ou ainda: como índice de humanização. Pretendemos ser educadores, ou seja, queremos aprender o tempo todo. E porque somos aprendizes, elegemos mestres. Musas. Exemplos. Referências. Pois só nos interessamos pelo verbo HUMANIZAR. Em março/2010, mês que guarda o ‘dia internacional da mulher’, numa brincadeira – nosso método mais sério é brincar – a cada dia postamos uma mulher no nosso blog que, por um motivo ou outro, em algum momento nos comoveu. Em direção à civilização. Uma delas volta hoje ao nosso blog, porque nos comove outra vez. Marina Silva.

Eis o texto dedicado “Ao amado dom Moacyr”:

“Li na Folha (22/5) sua afirmação de que sou frágil e não tenho perfil para a Presidência da República. No início, fiquei triste. Já tinha ouvido algo parecido do senhor, de forma carinhosa, mas ler assim como está no jornal tem outro peso. Refletindo mais, reconciliei-me com sua mensagem. Quando ando por aí, muitos me dizem que minha luta é de Davi contra Golias. Então vamos conversar sobre passagens bíblicas, que conhecemos bem. Elas se completam e iluminam o que quero dizer. Quando Saul terminava seu reinado, Deus mandou o sacerdote e profeta Samuel ungir novo rei entre os muitos filhos de Jessé. O profeta procurou entre os mais belos, os mais fortes e os mais habilidosos, mas Deus descartou todos. Jessé lembrou então de Davi, o seu filho mais novo, que pastoreava ovelhas. O profeta o achou muito fraquinho, meio esquisito. Mas Deus ordenou que o ungisse rei dos israelitas, porque olhava para o seu coração, e não para a sua aparência. Foi assim que Davi foi escolhido para ser rei. E logo provou seu valor ao enfrentar Golias, o gigante filisteu, guerreiro acostumado a usar escudo, capacete e armadura e a manejar a espada. O jovem Davi, aparentemente fraco e sem muito preparo para aquele tipo de duelo, ganhou a luta porque não tentou usar a armadura de Saul, que lhe fora ofertada e nem lhe cabia direito. Usou sua própria arma, a funda, e ali colocou a pedra para jogá-la no lugar certo, na testa do gigante. Assim como o senhor, dom Moacyr, Samuel era homem corajoso, temente a Deus, preparado para o sacerdócio desde um ano de idade. O senhor é muito importante na minha vida, da mesma forma que Samuel foi na vida de Davi. E está me vendo com olhos cuidadosos, preocupados com circunstâncias que talvez me causem sofrimento. Mas, como sabe por experiência própria, não podemos ficar presos às circunstâncias. Quando o senhor chegou ao Acre, aos 36, enfrentou os poderosos e ficou do lado de Chico Mendes e de todos os que eram aparentemente fracos e despreparados para enfrentar os gigantes das motosserras. Como me ensinou, não me intimido com as circunstâncias e procuro me encontrar com o que está no coração de homens e mulheres sinceros, que, como o senhor, buscam fazer o melhor, apesar das dificuldades e riscos.
Aprendi com o senhor boa parte dos valores que me guiam, entre eles não vergar a coluna às pressões dos interesses espúrios. Por favor, meu amado irmão, não me diga agora que esses valores não servem para governar o Brasil e me fragilizam. Tranquilize-se: eles são e continuarão sendo a minha força e a minha funda diante dos desafios, qualquer que seja o tamanho deles”.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

É assim:


“(...) O pai falava e a mãe me olhava. E depois dali nunca mais os vimos. Voltamos para o Rio e desde então me absorvo lentamente num ensaio imaginário chamado Conversações de amor, ao mesmo tempo que o nosso filho cresce e dá os primeiros movimentos na minha barriga; Conversações de amor relata a solidão do encontro amoroso e aquela noite em que o Amor se insurge e participa de toda a solidão do mundo e se faz presente como o infinito que sonhamos. Pedro toca o seu celo na varanda e está tão imerso na música que nesse momento não se dá conta de que é minha essa energia e que é dele essa energia. Não se dá conta de que a lua apareceu e que o nosso filho amadurece. Não se dá conta de que em Conversações de amor existe uma cena em que sua bunda é descrita com todas as minúcias, e como sua bunda é desprovida de minúcias eu a descrevo com uma palavra. Escrevo como quem brinca com fogo, as mãos ordenhando uma seiva imprevisível que a qualquer momento pode queimar soletrando uma carência: a carência desse amor que vive em Pedro e que sem querer eu atiço neste livro que escrevo, amor que nenhum dos dois sabe de onde veio e que no entanto cresce, cresce com este filho que trago aqui e com este livro. E que no entanto carece. E é com esta carência que inicio o livro porque sem ela o livro não seria escrito. É nesta carência que sinto a vontade de prosseguir. E escrever Conversações de amor é uma forma de prosseguir. O que não sei é se a minha voz será ouvida, porque o mundo sofre e o amor é uma possibilidade remota. Então não sei se devo. Mas será possível continuar amando com essa culpa? E não é Pedro quem diz que a vontade de amar está na luta de todos os elementos?”


In Conversações de amor, João Gilberto Noll – Romances e contos Reunidos, Companhia das Letras, 1997.