quinta-feira, 1 de julho de 2010

É assim:


“(...) O pai falava e a mãe me olhava. E depois dali nunca mais os vimos. Voltamos para o Rio e desde então me absorvo lentamente num ensaio imaginário chamado Conversações de amor, ao mesmo tempo que o nosso filho cresce e dá os primeiros movimentos na minha barriga; Conversações de amor relata a solidão do encontro amoroso e aquela noite em que o Amor se insurge e participa de toda a solidão do mundo e se faz presente como o infinito que sonhamos. Pedro toca o seu celo na varanda e está tão imerso na música que nesse momento não se dá conta de que é minha essa energia e que é dele essa energia. Não se dá conta de que a lua apareceu e que o nosso filho amadurece. Não se dá conta de que em Conversações de amor existe uma cena em que sua bunda é descrita com todas as minúcias, e como sua bunda é desprovida de minúcias eu a descrevo com uma palavra. Escrevo como quem brinca com fogo, as mãos ordenhando uma seiva imprevisível que a qualquer momento pode queimar soletrando uma carência: a carência desse amor que vive em Pedro e que sem querer eu atiço neste livro que escrevo, amor que nenhum dos dois sabe de onde veio e que no entanto cresce, cresce com este filho que trago aqui e com este livro. E que no entanto carece. E é com esta carência que inicio o livro porque sem ela o livro não seria escrito. É nesta carência que sinto a vontade de prosseguir. E escrever Conversações de amor é uma forma de prosseguir. O que não sei é se a minha voz será ouvida, porque o mundo sofre e o amor é uma possibilidade remota. Então não sei se devo. Mas será possível continuar amando com essa culpa? E não é Pedro quem diz que a vontade de amar está na luta de todos os elementos?”


In Conversações de amor, João Gilberto Noll – Romances e contos Reunidos, Companhia das Letras, 1997.

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