quarta-feira, 21 de julho de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


18.

- Wolf?
- Humm...
- Posso ler o romance?
- Pode tentar.
- Humm...
Daquela viagem voltei muda, seca e impaciente. Doente. O antigo mal recidivara recrudescendo meu rancor para com a vida. Tomei a ridícula decisão de não revê-lo até a próxima estação. Contrariado ele aquiesceu, deixando claro que era mera condescendência com as inexplicáveis inconveniências femininas. Verdade. Pura verdade. Senti-me mais irritada, isto é, mais doente. Ser incongruente é desconcertante, e eu estava mais que desconcertada, recaíra no horror feminino de sentir-se um ser necessitado de irrelevante necessidade. Irrelevante, e..., imprescindível.
Apenas uma mulher sabe o que é isso. Àquele tempo restara-me uma certeza: eu era mulher. E gostava. Isso era irrelevante. Caí. Foram dois dias sem sentido e duas noites sem dormir. Na terceira noite retomei o pé rendendo-me à meditação. Minha doença era culpa, minha culpa era dúvida: eu havia machucado um homem? Profundamente? Na rendição meditativa resolveu-se a pseudofalha de memória: eu não machucara a ninguém. E o ataque histérico cedeu.
Voltei a caminhar livre pelas ruas da cidade, mas em círculos porque dei de pensar que se render é pouco. Eu queria confissão. Foi então que, num súbito, o vi naquele bar. Eu passando, carregando livros, como sempre, e dúvidas, e amigas, como sempre, e então eu o vi, tantos anos depois, e parei; minhas amigas também pararam, eu caminhei, três passos, elas também. Volto?
Voltei. Olhei direto nos olhos grandes: absorvi um susto verdadeiro. E entrei pupilas adentro. Múltiplos véus verde-azuis eu atravessei.
- Com licença. Boa noite. Des-cul-pe-me.
Gostei de mim. Apesar do desconcerto senti ambigüidades se esgotando. Eu estava me tornando uma pessoa feliz. E estava dentro do mar verde-azul dos olhos dele...
Ele sustentou um desconhecimento e derramava desdém. E eu ali, parada, e minha amiga, a despojada, começou a examinar o teto. E eu ali me banhando no rancor que ele destilava. Decidi sustentar a cena da reparação.
- Está bem. Você não me reconhece, tem razão, afinal são mais de oito anos e eu nem me despedi. Desculpe-me agora...
E voltei um passo à trás. Uma conhecida mão segurou-me pelo braço.
- Não foi legal.
- Eu não fui legal.
Ele apertava meu braço e doía, mas não me queixei. Mandou que eu me sentasse. Obedeci. Minha amiga sumiu olhando o teto.
- E então?
- Fugi da universidade, aprendi a escrever, a chorar sem escândalos, a não me esconder, quase sei dançar e não sei o que digo.
Falei num único fôlego, e me descobri na frase. Então ele sorriu sorrindo tipo para sempre e eu senti aqueles cílios assombradamente grandes, que varrem o rosto da gente quando ele fecha devagar sorrindo as pálpebras, como quem fecha uma janela e se recolhe para descansar um pouco, e logo as abre vagarosamente, abrindo profundas cortinas verde-azuis, libertando uma infinita bondade. Revi o ser encantado que era ele, e vi meu fascínio. Ele estava feliz e eu fiquei feliz. A humanidade chega quando se descobre beleza no passado.
- Humm...
-Que?
- Foi bom este.
- Foi?


Magda Maria Campos Pinto

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