sábado, 31 de julho de 2010

Reler, rever, reviver...



(...) Quanto ao mundo espiritual, a metade superior do ser humano, eles o rejeitam, o banem alegremente, mesmo com ódio. O mundo proclamou a liberdade, sobretudo nestes últimos anos, e o que ela representa? Nada além da escravidão e o suicídio. Porque o mundo diz: “Você tem necessidades, satisfaça-as, porque tem os mesmos direitos que os grandes e os ricos. Não tema satisfazê-las, aumente-as mesmo”. É o que se ensina atualmente. Esta é a concepção deles de liberdade. E o que resulta desse direito de aumentar as necessidades? Entre os ricos, a solidão e o suicídio espiritual; entre os pobres, a inveja e o crime, porque conferiram-se direitos, mas ainda não se indicaram meios de satisfazer as necessidades. Assegura-se que o mundo, abreviando as distâncias, transmitindo o pensamento pelos ares, irá unir-se cada vez mais, que a fraternidade reinará. Ai! Não acreditem nessa união dos homens. Concebendo a liberdade como o aumento das necessidades e sua pronta satisfação, alteram-lhes a natureza, porque fazem nascer neles uma multidão de desejos insensatos, de hábitos e imaginações absurdos. Não vivem senão para invejar-se mutuamente, para a sensualidade e a ostentação. Dar jantares, viajar, possuir carruagens, cargos , lacaios, passa tudo como uma necessidade à qual se sacrifica até sua vida, sua honra e o amor à humanidade, irão até matar-se na impossibilidade de satisfazê-la. O mesmo ocorre entre aqueles que são ricos; quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são no momento afogadas na embriaguez. Mas em breve, em lugar de vinho, irão embriagar-se de sangue, é o fim para o qual os conduzem. Digam-me se esse homem livre” (...)


Dostoievski, in Os irmãos Karamázov, o escreveu há mais de um século. E eu aqui, pensando...

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