terça-feira, 31 de agosto de 2010

Claro enigma, Caro Drummond, sou moderno, oh céus... agora serei eterno:


‘O trabalho hercúleo de Baudelaire teria sido o de, a partir dos restos e fragmentos das formas de vidas obsoletas, catados no lixo das ruas, “dar forma à modernidade”, de modo que ela viesse, por fim, a se tornar antigüidade. Teria o poeta, encarnação moderna do herói, pago com a melancolia o preço de sua escolha? Ou a solução poética encontrada por Baudelaire, a invenção de uma lírica “fundamentada em uma experiência para a qual o choque se tornou norma”, poderia ser entendia como tentativa de cura para a melancolia?”

In O tempo e o cão – a atualidade das depressões, Maria Rita Kehl, Boitempo Editorial, 2009.

Foi então que...

"Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres." (Clarice Lispector)


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

E ainda,


"Já que você não merece,
Devolva minhas preces,
Meu canto, meu amor,
Meu tempo, por favor,
E minha alegria que,
Naquele dia,
Só te emprestei por uns dias. "

(Alice Ruiz)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Assim...


“O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros, acho que nem não misturam.”

“Todas as minhas lembranças eu queria comigo. Os dias passados vão indo em fila para o sertão”.

in Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa.

Veja...

Uma noite em 67
Direção: Renato Terra e Ricardo Calil
Documentário - 85 min.
Lembre
Pense
Reflita...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Por exemplo:



“Se ao lado da biblioteca houver um jardim, nada faltará.” (Cícero)



“Admirado mesmo é quem não se dobra por dinheiro algum. Quando isso se constata em referência a determinada pessoa, ela é vista como que tendo superado a tal prova de fogo”.

“Maximeque admirantur eum qui pecunia non movetur, quod in quo viro perspectum sit, hunc igni spectatum arbitrantur”.

In Os Deveres – Cícero , Grandes Obras do Pensamento Universal, Editora Escala, 2008.

Marco Túlio Cícero nasceu em 3 de janeiro do ano 106 aC. Filósofo, orador, pedra angular do que se costuma chamar Direito Romano. Conheceu o poder, a fama, a perseguição e por fim, foi assassinado. Cícero é sinônimo de ‘Oratória’. Nas tramas políticas que se seguiram à morte de César e a disputa entre Otávio e Antônio, foi condenado por este. Teve chance de fugir mas acabou por ficar afirmando «Moriar in patria soepe servata» (Morra eu na pátria que tantas vezes salvei).Cortaram-lhe a cabeça e as mãos e, por ordem de Antônio, pregaram-nas na Rostra.

Rostra, no Fórum Romano, local da execução do filósofo Cícero

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Temos encontrado...



“Seria uma excentricidade chegar à conclusão de que a importância de Freud para a história das mulheres no século XX reside no fato de ter sido ele o primeiro empregador a oferecer oportunidades iguais. Como este livro, mostrou, há mais coisas em jogo na proeminência das mulheres analistas – e das pacientes – na história da psicanálise do que um liberalismo equitativo meio fora de época que dá acesso à nova profissão. O desenvolvimento da teoria psicanalítica foi inseparável do papel distinto e importante que as mulheres pacientes, e depois analistas, desempenharam na sua criação. O pensamento contemporâneo sobre o que é a mulher é tão permeado pelo discurso inventado por Freud e suas mulheres que é impossível conceber uma linguagem futura da sexualidade que não remeta ao nome de Freud. O caso de amor do século XX com Freud pode ter seguido os padrões de idealização e depreciação que ele próprio descreveu tão bem, mas continua a ser, apesar de tudo, um caso de amor.”


In As mulheres de Freud, Lisa Appignanesi e John Forrester, Record, RJ, 2010.
Belo trabalho! Objetivo, esclarecedor, bem humorado, bem escrito, coerente. Em tempos de excessos supérfluos e indigestos, é uma ótima refeição. Reflexão contemporânea.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Temos pensado...


“Não vai acabar nunca; porque Blank é um de nós agora, e, por mais que se debata, tentando entender sua sorte, estará sempre no escuro. Creio que falo por todos os seus pupilos quando digo que ele está tendo o que merece – nem mais nem menos. Não como forma de punição, e sim como um ato de suprema justiça e compaixão. Sem ele, não somos nada, mas o paradoxo é que nós, fantasias de outra mente, sobreviveremos à mente que nos fez, porque, uma vez atirados no mundo, continuamos a existir para sempre, e nossas histórias prosseguem sendo contadas, mesmo depois que morremos.”


In Viagens no Scriptorium, Paul Auster, Companhia das Letras, RJ, 2007.
Paul Auster nasceu em 1947 em Nova Jersey, onde vive. Estudou e fez literatura toda sua vida. Publicou ensaios, memórias, poesia e ficção, além de roteirizar e dirigir filmes. Dele já se publicou no Brasil: A invenção da solidão, Leviatã, O livro das ilusões, a Trilogia de Nova York, entre outros. Viagens no Scriptorium é antes de tudo uma intuição perspicaz do embaraço da existência humana com a linguagem. Da linguagem escrita com a história. Do indivíduo com todos. Da mente com os sentimentos. Viagens imperdíveis. Anote aí.

sábado, 14 de agosto de 2010

Agora...


SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO


Paulo Leminski

Escrevia no espaço.
Hoje grafo no tempo,
Na pele, na palma, na pétala,
Luz do momento
Soo na dúvida que separa
O silêncio de quem grita
Do escândalo que cala,
No tempo, distância, praça,
Que a pausa, asa, leva
Para ir do percalço ao espasmo.


Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
Eis que a luz se acendeu na casa
E não cabe mais na sala.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

QUANTO AO AMANHÃ


“A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem”. (Hb, 11,1-2)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DE VOLTA AO PRESENTE... COMEÇAMOS ONTEM:


“O que se deu durante a década de 60 foi alguma coisa que mudou em profundidade muitos dos conceitos com que tínhamos lidado, embora se continue a chamá-los pelos mesmos nomes. Ainda não sabemos o que significará tudo isso em termos de efeitos últimos sobre o futuro de nossa sociedade, mas já sabemos que houve uma revolução da mente, uma virada intelectual. Se tivéssemos que dar uma definição sintética desse processo, poderíamos dizer que a idéia de homem como sujeito da história acabou, e que o antagonista que destronou o homem ainda tem que se chamar homem, mas um homem bem diferente do homem de antes: isso significa o gênero humano dos ‘grandes números’ em aumento exponencial em todo o planeta, a explosão das metrópoles, a ingovernabilidade da sociedade e da economia, seja qual for o sistema a que elas pertençam, o fim do eurocentrismo econômico e ideológico, a reivindicação de todos os direitos por parte dos excluídos, dos reprimidos, dos esquecidos, dos não articulados. Todos os parâmetros, as categorias, as antíteses que usávamos para definir, classificar, projetar o mundo são questionados. Não só aqueles ligados a valores históricos, mas também os que pareciam ser categorias antropológicas estáveis: razão e mito, trabalho e existência, homem e mulher, e até mesmo as polaridades das topologias mais elementares: afirmação e negação, acima e baixo, sujeito e objeto.
Nos últimos anos minhas preocupações sobre a política e sobre a literatura dizem respeito à sua insuficiência com relação às tarefas que essas mudanças de nossa mente impõem. (...)
A literatura é necessária à política em primeiro lugar quando ela dá voz àquilo que não tem voz, quando dá um nome àquilo que ainda não tem um nome, e especialmente àquilo que a linguagem política exclui ou tenta excluir. Quero dizer, os aspectos, situações, linguagens tanto do mundo exterior como do mundo interior; as tendências reprimidas no indivíduo e na sociedade. A literatura é como um ouvido que pode escutar além daquela linguagem que a política entende; é como um olho que pode ver além da escala cromática que a política percebe. Ao escritor, precisamente por causa do individualismo solitário de seu trabalho, pode acontecer explorar regiões que ninguém explorou antes, dentro de si ou fora; fazer descobertas que cedo ou tarde resultarão em campos essenciais para a consciência coletiva.”


In Ítalo Calvino. Assunto encerrado – Discursos sobre literatura e sociedade. Companhia das Letras, 2009.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


19.


- Pode continuar.
- Que bom.
Comecei preparar minha mudança e logo senti que isso me custaria mais do que eu podia imaginar. Arrancar-se dói. E eu estou inconsolável. E na verdade sei que nenhuma raiz, por mais enraizada que seja, vai me segurar agora. Sei que vou descer a montanha. Não sei do quê sei, mas sei que existe algo definitivo ao meu redor. Na noite anterior à minha viagem, ou seja, na última noite, eu voltava para casa pela última vez pensando em apegos e desapegos. Admirava os horizontes da cidade que eu estava abandonando e senti imensa a minha ignorância sobre a vida. Vi um carro estacionado diante do portão da minha casa, vi o painel do meu carro (vinte e duas horas e vinte e cinco minutos) vi o carro acendendo faróis, meu carro cercado por pessoas, pessoas?, eu cansada, meus horizontes, minha cidade, uma voz estúpida, ‘quieta’, ‘um assalto?’, ‘não’, ‘quieta’, ‘um revolver!’, ‘não!’, e despenca um peso imenso sobre a minha cabeça, ouço um silêncio absoluto, um sussurro comprido, e tudo desaparece em negro.
Depois – quando? – agora. Eu sinto um aperto que estrangula minhas tripas, uma opressão que faz força para respirar aqui, e vejo lá minha cabeça explodida em mil pedaços pequeninos, todos pululando como num desenho animado, e eu? Eu, eu mesma, inteira, lugar não localizável, sinto-me onde? Quem sente? Como um expectante e rígido colosso de bronze. Esquisito isso, mas eu me sinto como se eu fosse um perfeito colosso de bronze. O que é um colosso? Ah, uma coisa grande, ou grandiosa... Mas que perfeição? Por que perfeito? Hein? De onde? Ora, do bronze; esta lá na enciclopédia, bronze – antiga liga metálica de cobre e estanho, bronze estátua, bronze frio, durável, inquebrável, insensível, antigo, antigo... Pensaram tudo isso, pensaram? É, eles, os meus pedacinhos pululantes ao redor... Redor?... Redor de uma dor que não se sente mas se vê, e é um buraco negro. Entre os pedacinhos da minha cabeça que continuam pulando feito sapinhos que emanam estrelinhas azuis – azuis? Quem diria! Sim, azuis dentro de uma névoa, e dentro da névoa vislumbro pernas de uma cadeira de aço e pés calçando tênis sujos. No mais, tudo é negro. Há também aroma de pudim queimado. Colosso, rígido, parado, melado, frio, pudim, doídos cerebrozinhos saltitantes. E nenhuma vontade. Não há medo, há estranheza. Há uma percepção de definitivo. O redor é sem sentido, e algo – não localizável – pensa. E se pensa no passado.
Só se pode pensar no passado? Não há presente pensável? Não se pode dizer o que se passa, pois se passa... Bobagens, eu devo ter enlouquecido de vez. Pior, se eu tivesse enlouquecido eu não estaria pensando que estava enlouquecendo. Não sei, eu queria dizer que eu sei que vou morrer daqui a pouco e que eu gostaria de contar o que está se passando agora, eu me esforço. O colosso, que está onde está o meu corpo, respira com dificuldade. Tento mover-me, mas não se consegue. Consigo perceber garganta e costas, ou melhor, reconhecer dentro do colosso uma garganta, fora do colosso um chão frio e áspero, não sei por onde se vê, está quase escuro neste lugar, agora. Agora. Revê-se: há uma névoa, um alguém vestido de calça jeans, sentado numa cadeira pequena de pernas magras, há cerebrozinhos brilhantes, mas transparentes, parecem água, viva, água viva... Interessante isso, água viva pulando, lembra-se muito de água nessa, isto é, naquela vida... E há por fim também um colosso de bronze, que não se sabe onde está exatamente e que se parece com alguém que se conhece. Bom, isso, alguém que se conhece deve ser eu. É. Deveria ser.
Não consigo saber a raiz do colosso, isto é, a origem deste colosso e deste bronze; o tal colosso escapa-me. E novamente há um embaraço porque penso no passado e falo do presente, droga! Eu estou me sentido agora mesmo como um colosso de bronze, e isso é inimaginável! Desisto de continuar pensando porque para além do colosso há uma dor que o comprime, uma dor que quer reduzir o colosso a alguma coisa menor. Um absurdo isso. Os cerebrosinhos, possíveis restos de provável explosão da minha cabeça, brilham por si, saltam ao redor e embora estejam ao redor, eu sei que são todos meus porque os vejo doer a mesma dor que existe dentro desse colosso. Vou pedir água, pede-se água enquanto lado, ao lado?, sim, ao lado, eu penso: esquisito pedir água, e ao mesmo tempo, do outro lado, ouve-se um ‘cala!’ abafado, um abafado bruto que faz saltar mais cerebrozinhos do colosso, e até se pensa ‘quantos eu terei?’. Ou melhor, ‘o colosso terá?’
Agora se sente um cheiro de gatos, e penso que alguém chegou, um alguém mulher, sei lá porque se pensa assim, vê-se calça jeans e o tal colosso é alçado violentamente e logo em seguida é jogado sobre um banco, é, deve ser um banco, é duro, e o escuro é feito de ondas de baixa freqüência e grande amplitude, caramba, de onde saiu isso? Ahhh, aulas de física, já se sabe, oohhh, de onde vem isso? Ah, meu fundo, a dor invade, evade, e a figura em jeans se alonga, se estica, tem uma espécie de tique nervoso que a endurece como endureceu aquele soldado nazista que se viu, e a quem gritaram não se sabe o quê, as ondas de dor que se vê dão à mulher encapuchada uma dobradura na rigidez de sua continência, e ela é como uma figura de desenho animado. Não é bem assim, ela é como uma dobradura de papel, desanimado. Então reconheço um humor, que é um bom humor que ri da mulher que de repente endurece numa continência e que parece ter uma única dimensão, e é a dimensão plana.
Um cerebrozinho pede um cobertor, hein?, ouve-se, sinto frio, sinto sede, percebe-se então: volta-se ao normal – ao normal? – é, norma: cabeça, tronco e membros. Sou cabeça tronco e membros sentados num banco duro dentro de uma névoa sombria e dolorosa sentindo frio. Agora sou arrastada até um colchão sem lençóis, um colchão sobre uma cama que me parece muito alta e houve aquele dia em que a cama pernalta quebrou e nos amamos debaixo da cama, e tudo voltando ao normal, é, ao normal, eu sou ela, um corpo doído na penumbra, e uma lembrança de calor. Chega um cobertor, permanece tudo frio, e quero apenas respirar. Me aquieto. Mas me lembrei: no tempo da ditadura. Não. Não. Estas coisas estão fora do tempo.
Silenciei-me. Wolf revirou-se na poltrona e se voltou para mim. Comecei a chorar. Ele perguntou:

- Quando foi isso?
- Antes de você.
- Descanse.


Magda Maria Campos Pinto

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Recomeçaremos..... tipo assim: delicados.


O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.

A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e nos tem feito marchar a passo de ganso para a miséria e genocídios.

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina que produz abundância, nos tem deixado em penúria.

Nossos conhecimentos nos tornaram céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia, e sentimos bem pouco.

Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade.

Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

(Charlie Chaplin, no filme 'O Grande Ditador')

segunda-feira, 2 de agosto de 2010


Agosto chegou mas seja por birra ou preguiça, continua minha quintaneação’ julina. Afinal os tempos são outros, tantos, e ao que se consta, estão loucos. E nem estou mais interessada na salvação, e mais ainda, necessitada de conformação com a repetição. Enfadada mesmo só com a falta de educação. Totalmente cansada do cansaço. Uma chateação tanta poluição. Daí talvez a insistência do anjo Quintana querendo mostrar aonde é que ainda tem ar puro:


Fantasia & realidade

As crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade. Assim as fantasias do poeta, que não o são no sentido que lhe atribuem os burgueses e os intelectuais materialistas. Um dia numa dessas pesquisas que às vezes elas fazem, me perguntou uma pequena colegial se os Anjos existiam. Respondi-lhe que, em vista da frequência com que costumavam aparecer em meus poemas, deviam mesmo existir. Depois fiquei a pensar se a minha resposta não seria mais profunda do que parecia... Pois nisto de criação literária cumpre não esquecer- guardada a infinita distância – que o mundo também foi criado por palavras.


AMÉM.