quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DE VOLTA AO PRESENTE... COMEÇAMOS ONTEM:


“O que se deu durante a década de 60 foi alguma coisa que mudou em profundidade muitos dos conceitos com que tínhamos lidado, embora se continue a chamá-los pelos mesmos nomes. Ainda não sabemos o que significará tudo isso em termos de efeitos últimos sobre o futuro de nossa sociedade, mas já sabemos que houve uma revolução da mente, uma virada intelectual. Se tivéssemos que dar uma definição sintética desse processo, poderíamos dizer que a idéia de homem como sujeito da história acabou, e que o antagonista que destronou o homem ainda tem que se chamar homem, mas um homem bem diferente do homem de antes: isso significa o gênero humano dos ‘grandes números’ em aumento exponencial em todo o planeta, a explosão das metrópoles, a ingovernabilidade da sociedade e da economia, seja qual for o sistema a que elas pertençam, o fim do eurocentrismo econômico e ideológico, a reivindicação de todos os direitos por parte dos excluídos, dos reprimidos, dos esquecidos, dos não articulados. Todos os parâmetros, as categorias, as antíteses que usávamos para definir, classificar, projetar o mundo são questionados. Não só aqueles ligados a valores históricos, mas também os que pareciam ser categorias antropológicas estáveis: razão e mito, trabalho e existência, homem e mulher, e até mesmo as polaridades das topologias mais elementares: afirmação e negação, acima e baixo, sujeito e objeto.
Nos últimos anos minhas preocupações sobre a política e sobre a literatura dizem respeito à sua insuficiência com relação às tarefas que essas mudanças de nossa mente impõem. (...)
A literatura é necessária à política em primeiro lugar quando ela dá voz àquilo que não tem voz, quando dá um nome àquilo que ainda não tem um nome, e especialmente àquilo que a linguagem política exclui ou tenta excluir. Quero dizer, os aspectos, situações, linguagens tanto do mundo exterior como do mundo interior; as tendências reprimidas no indivíduo e na sociedade. A literatura é como um ouvido que pode escutar além daquela linguagem que a política entende; é como um olho que pode ver além da escala cromática que a política percebe. Ao escritor, precisamente por causa do individualismo solitário de seu trabalho, pode acontecer explorar regiões que ninguém explorou antes, dentro de si ou fora; fazer descobertas que cedo ou tarde resultarão em campos essenciais para a consciência coletiva.”


In Ítalo Calvino. Assunto encerrado – Discursos sobre literatura e sociedade. Companhia das Letras, 2009.

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