terça-feira, 10 de agosto de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


19.


- Pode continuar.
- Que bom.
Comecei preparar minha mudança e logo senti que isso me custaria mais do que eu podia imaginar. Arrancar-se dói. E eu estou inconsolável. E na verdade sei que nenhuma raiz, por mais enraizada que seja, vai me segurar agora. Sei que vou descer a montanha. Não sei do quê sei, mas sei que existe algo definitivo ao meu redor. Na noite anterior à minha viagem, ou seja, na última noite, eu voltava para casa pela última vez pensando em apegos e desapegos. Admirava os horizontes da cidade que eu estava abandonando e senti imensa a minha ignorância sobre a vida. Vi um carro estacionado diante do portão da minha casa, vi o painel do meu carro (vinte e duas horas e vinte e cinco minutos) vi o carro acendendo faróis, meu carro cercado por pessoas, pessoas?, eu cansada, meus horizontes, minha cidade, uma voz estúpida, ‘quieta’, ‘um assalto?’, ‘não’, ‘quieta’, ‘um revolver!’, ‘não!’, e despenca um peso imenso sobre a minha cabeça, ouço um silêncio absoluto, um sussurro comprido, e tudo desaparece em negro.
Depois – quando? – agora. Eu sinto um aperto que estrangula minhas tripas, uma opressão que faz força para respirar aqui, e vejo lá minha cabeça explodida em mil pedaços pequeninos, todos pululando como num desenho animado, e eu? Eu, eu mesma, inteira, lugar não localizável, sinto-me onde? Quem sente? Como um expectante e rígido colosso de bronze. Esquisito isso, mas eu me sinto como se eu fosse um perfeito colosso de bronze. O que é um colosso? Ah, uma coisa grande, ou grandiosa... Mas que perfeição? Por que perfeito? Hein? De onde? Ora, do bronze; esta lá na enciclopédia, bronze – antiga liga metálica de cobre e estanho, bronze estátua, bronze frio, durável, inquebrável, insensível, antigo, antigo... Pensaram tudo isso, pensaram? É, eles, os meus pedacinhos pululantes ao redor... Redor?... Redor de uma dor que não se sente mas se vê, e é um buraco negro. Entre os pedacinhos da minha cabeça que continuam pulando feito sapinhos que emanam estrelinhas azuis – azuis? Quem diria! Sim, azuis dentro de uma névoa, e dentro da névoa vislumbro pernas de uma cadeira de aço e pés calçando tênis sujos. No mais, tudo é negro. Há também aroma de pudim queimado. Colosso, rígido, parado, melado, frio, pudim, doídos cerebrozinhos saltitantes. E nenhuma vontade. Não há medo, há estranheza. Há uma percepção de definitivo. O redor é sem sentido, e algo – não localizável – pensa. E se pensa no passado.
Só se pode pensar no passado? Não há presente pensável? Não se pode dizer o que se passa, pois se passa... Bobagens, eu devo ter enlouquecido de vez. Pior, se eu tivesse enlouquecido eu não estaria pensando que estava enlouquecendo. Não sei, eu queria dizer que eu sei que vou morrer daqui a pouco e que eu gostaria de contar o que está se passando agora, eu me esforço. O colosso, que está onde está o meu corpo, respira com dificuldade. Tento mover-me, mas não se consegue. Consigo perceber garganta e costas, ou melhor, reconhecer dentro do colosso uma garganta, fora do colosso um chão frio e áspero, não sei por onde se vê, está quase escuro neste lugar, agora. Agora. Revê-se: há uma névoa, um alguém vestido de calça jeans, sentado numa cadeira pequena de pernas magras, há cerebrozinhos brilhantes, mas transparentes, parecem água, viva, água viva... Interessante isso, água viva pulando, lembra-se muito de água nessa, isto é, naquela vida... E há por fim também um colosso de bronze, que não se sabe onde está exatamente e que se parece com alguém que se conhece. Bom, isso, alguém que se conhece deve ser eu. É. Deveria ser.
Não consigo saber a raiz do colosso, isto é, a origem deste colosso e deste bronze; o tal colosso escapa-me. E novamente há um embaraço porque penso no passado e falo do presente, droga! Eu estou me sentido agora mesmo como um colosso de bronze, e isso é inimaginável! Desisto de continuar pensando porque para além do colosso há uma dor que o comprime, uma dor que quer reduzir o colosso a alguma coisa menor. Um absurdo isso. Os cerebrosinhos, possíveis restos de provável explosão da minha cabeça, brilham por si, saltam ao redor e embora estejam ao redor, eu sei que são todos meus porque os vejo doer a mesma dor que existe dentro desse colosso. Vou pedir água, pede-se água enquanto lado, ao lado?, sim, ao lado, eu penso: esquisito pedir água, e ao mesmo tempo, do outro lado, ouve-se um ‘cala!’ abafado, um abafado bruto que faz saltar mais cerebrozinhos do colosso, e até se pensa ‘quantos eu terei?’. Ou melhor, ‘o colosso terá?’
Agora se sente um cheiro de gatos, e penso que alguém chegou, um alguém mulher, sei lá porque se pensa assim, vê-se calça jeans e o tal colosso é alçado violentamente e logo em seguida é jogado sobre um banco, é, deve ser um banco, é duro, e o escuro é feito de ondas de baixa freqüência e grande amplitude, caramba, de onde saiu isso? Ahhh, aulas de física, já se sabe, oohhh, de onde vem isso? Ah, meu fundo, a dor invade, evade, e a figura em jeans se alonga, se estica, tem uma espécie de tique nervoso que a endurece como endureceu aquele soldado nazista que se viu, e a quem gritaram não se sabe o quê, as ondas de dor que se vê dão à mulher encapuchada uma dobradura na rigidez de sua continência, e ela é como uma figura de desenho animado. Não é bem assim, ela é como uma dobradura de papel, desanimado. Então reconheço um humor, que é um bom humor que ri da mulher que de repente endurece numa continência e que parece ter uma única dimensão, e é a dimensão plana.
Um cerebrozinho pede um cobertor, hein?, ouve-se, sinto frio, sinto sede, percebe-se então: volta-se ao normal – ao normal? – é, norma: cabeça, tronco e membros. Sou cabeça tronco e membros sentados num banco duro dentro de uma névoa sombria e dolorosa sentindo frio. Agora sou arrastada até um colchão sem lençóis, um colchão sobre uma cama que me parece muito alta e houve aquele dia em que a cama pernalta quebrou e nos amamos debaixo da cama, e tudo voltando ao normal, é, ao normal, eu sou ela, um corpo doído na penumbra, e uma lembrança de calor. Chega um cobertor, permanece tudo frio, e quero apenas respirar. Me aquieto. Mas me lembrei: no tempo da ditadura. Não. Não. Estas coisas estão fora do tempo.
Silenciei-me. Wolf revirou-se na poltrona e se voltou para mim. Comecei a chorar. Ele perguntou:

- Quando foi isso?
- Antes de você.
- Descanse.


Magda Maria Campos Pinto

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