quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um pouco mais de primavera e históra. E arte.


Alessandro di Mariano Filipepi, conhecido como Sandro Botticelli, nasceu em Florença em 1445. Pouco se sabe dos primeiros anos de sua vida. Por volta de 1465 entrou para o ateliê de Filippo Lippi, cujo estilo elegante marcou claramente suas primeiras obras. Aos 25 anos, Botticelli já possuía ateliê próprio. Por volta de 1477 pintou uma de suas obras mais conhecidas, "A primavera", em que apresentou Vênus, diante de uma paisagem arborizada, em companhia das Três Graças, Mercúrio e Flora, entre outras personagens mitológicas. O quadro era uma alegoria do reino de Vênus e a deusa representava a ‘humanitas’, isto é, a cultura florentina da época.
Em 1481 Botticelli foi chamado a Roma pelo papa Sisto IV para trabalhar, junto com Ghirlandaio, Luca Signorelli, Cosimo Rosselli e Perugino, na decoração da capela Sistina, onde realizou "A tentação de Cristo" e dois episódios da vida de Moisés, obras que lhe deram fama. De regresso a Florença, trabalhou principalmente para a família Medici e participou ativamente do círculo neoplatônico impulsionado por Lourenço, o Magnífico.
Botticelli morreu em Florença em 17 de maio de 1510, quando triunfava na Itália a estética do alto Renascimento, a que suas últimas obras não foram alheias, pois várias delas mostram um alargamento de escala e uma imponência típicos da nova fase

A Primavera (c. 1478) é uma obra de temática mitológica clássica que nos apresenta a alegoria da chegada dessa estação. Ao centro está Vênus, à direita da obra encontramos três figuras. O primeiro, um ser esverdeado, Zéfiro, personificação do vento oeste, abraça a bela ninfa Cloris. Botticelli a representa em sua metamorfose, quando se transformava em Flora. Sobre a cabeça de Vênus está Cupido, seu filho, de olhos vendados, apontando a seta do amor em direção às três figuras que representam as Graças (Aglaia, Talia e Eufrósina), símbolos da sensualidade, da beleza e da castidade. Mais à esquerda encontra-se Hermes dissipando as nuvens, fechando esse ciclo mitológico. Para a filosofia platônica, esse ciclo é a ligação ininterrupta entre o mundo e Deus, e vice-versa.
Pietro Maria Bardi assim escreve sobre Botticelli e “A Primavera”: (…) “Este pintor é uma expressão típica do ambiente em que viveu: católico e pagão ao mesmo tempo, ocioso e asceta, gozador da fantástica mesa dos Médici e chorão da humilde seita de Savonarola, apreciador de disputas teológicas e pintor de Vênus muito nuas e, ao mesmo tempo, das mais castas madonas, Botticelli carrega no seu íntimo a crise de seu século. Pensai que Botticelli teria podido pintar “A Primavera” e a “Adoração dos Reis Magos” fora de Florença, fora da cidade em que as orgias principescas formavam um todo com a alegria popular, a luta religiosa acirrada, a poesia no seu auge, o espírito da renascença borbulhante? Cada um dos florentinos do século XV ofereceu a Botticelli, pelos caminhos milagrosos ao longo dos quais o espírito se manifesta nos seus tecidos misteriosos, algo de imperceptível: as recordações evanescentes estranhas da tonalidade duma cor, o sentido duma forma, de uma atmosfera, de uma atitude, de uma fisionomia, de uma melodia, percepção dos limites que na natureza separam o necessário do supérfluo”.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ



(tela de Zélia Evangelista )

23.

Wolf é lindo. Desta vez, enlouqueci. Portanto, não me calarei. Sinto-me calma, de repente é possível uma meditação, e chega a minha filha, e então dou de chorar novamente, desta vez choro sem lágrimas, aparecem filmes e livros que amamos, ela me sorri linda, sapeca e digo: “mas Diadorim é minha neblina...”. Então ela balança a cabeça censurando-me e de imediato eu me recupero, vivo o amor que nos redime e, como quem se lembra de que está com sede, me lembro de que quero morrer logo. Puxo para mais perto de mim este cobertor que não me aquece, dói, mas agora tudo está melhor porque me lembrei de que vou morrer. Pensa-se que quando se está morrendo, a primeira coisa a se perder é o tempo; acho graça do óbvio e acho graça também de já ter rido do óbvio antes, e que se, todavia há um antes, eu ainda tenho certo tempo comigo. Revejo Wolf sorrindo a dizer: “quando chegará a próxima carta?”. Comigo Wolf aprendeu a gostar de cartas e de bromélias. Escrevia-lhe diariamente. Com ele, aprendi a gostar de gostar. Tenho um bosque de bromélias. Tenho? Continuo a me lembrar de gostos e desgostos e ouço certa voz que insiste dentro de mim: “pare com isso antes que eu enlouqueça”, mas definitivamente não me importo nada com isso, pois finalmente o passado é uma lua bonita que se distende, e retorna apenas o Wolf, de olhos claros e de corpo quente, e de mania de beijar sugando a gente, que cisma de não dizer palavra, dizendo tudo com os olhos. E então eu rio baixinho para não incomodar a calça jeans, coitada, provavelmente já cansada de ficar aqui, calada e quieta, tão séria, coitada, começo a pensar que basta a cada dia o seu mal, estou adormecendo..., e ainda se pensa que o real é o racional e que São João deve gostado muito de ter-se deitado no seio de Jesus. Estou presente. Sou agora. Sou, e me lembro da noite no restaurante italiano, lembro que eu prometi ler para Wolf a tristeza do Raskólnikov, e não li, e era importante, mas passou, ou não? Não passa, posso dizer agora mesmo, ahhhh, “cala-te, Sônia, cala-te! – repetiu, sóbria e teimosamente. – Eu sei tudo. Já pensei nisso tudo, e a mim próprio o disse quando estava estendido, ali, no escuro... Tudo isso discutia eu comigo mesmo, até os seus mínimos pormenores, e sei tudo, tudo. E como me aborrecia, como me aborrecia a mim, então, todo esse palavreado! Eu queria esquecer tudo e começar de novo, Sônia, e deixar de pensar disparates. Julgas tu que eu cheguei até onde cheguei como um imbecil, como quem vai bater com a cabeça numa parede? Eu cheguei até lá pelo raciocínio e foi isso que me perdeu. Imaginas tu, por acaso, que eu não sabia que, por exemplo, se começasse a perguntar a mim próprio e a examinar ‘tenho ou não o direito de possuir o poder?’, era porque então, provavelmente, não tinha esse direito? Ou que, se fizesse a pergunta: ‘é um piolho ou um ser humano?’, então, com certeza que o ser humano já não seria para mim um piolho, mas só para aquele quem isso não tivesse passado pela imaginação e que fosse direto até lá sem fazer essas perguntas? Quando eu levei tantos dias neste tormento: “Napoleão faria isto ou não?” já eu compreendia claramente que não era um Napoleão.... todo, todo o suplício desse palavreado o sofri eu, Sônia, e foi tudo isso que eu quis sacudir de cima dos ombros. Sônia, eu queria matar sem casuística, matar para mim, para mim só. Não queria mentir nisto, nem a mim próprio! Não foi para ajudar a minha mãe que eu matei..... que absurdo! Matei, simplesmente. Matei só para mim, para mim apenas, e, se em conseqüência disso eu tivesse podido me tornar um benfeitor, ou tivesse passado toda a vida, como a aranha, apanhando presas na teia e alimentando-me dos seus sucos vitais, para mim tudo isso teria sido indiferente.... e também não precisava de dinheiro, nem isso era o principal, Sônia; quando matei, precisava mais de outra coisa do que de dinheiro... tudo isso o sei eu agora.... vê se me compreendes. Pode ser que , se tivesse de percorrer as mesmas pegadas, já não tornasse a repetir o crime. Eu precisava conhecer outra coisa, outra coisa me puxava pelo braço: então, eu precisava saber, e de saber o mais depressa possível, se eu também era um piolho, como todos, ou um homem. Estava capacitado para transgredir a lei ou não estava? Tinha ousadia para ultrapassar os limites, para tomar este poder, ou não? Era eu uma criatura trêmula ou tinha o direito?” oh, pobre Rodka, encarcerar-se para se libertar, ahhh, feliz Rodka, ele chegou lá, no amor, ahhhh, agora posso adormecer, Wolf já conhece a dor de Rodka...
De repente percebo, percebo que há um homem em pé bem junto dessa cama alta e é quase imaginação porque ver não o vejo, só pressinto.. É homem, eu o cheiro homem, cheiro de ave, ele está vestindo roupas escuras. Ou não? Estamos aqui na sombra, e começo a adivinhar coisas terríveis nesse homem que é uma sombra entre sombras. Prevejo um ser que confunde vida e força, e agora agarrada em meu bom humor, estou distante daqui cantando a canção que rima amor e dor, mas... de repente, o homem berra, e urra quebrando o silêncio externo e quebrando também a minha canção interna.
- Querem te matar, a culpa não é minha, eu avisei, era só pagar e eu deixava você viver, mas não querem pagar, não posso fazer nada, vou te matar...
É uma voz grasnada de pato faminto, sinto nojo desse ‘a culpa não é minha’, tenho náusea desse ‘não posso fazer nada’, mas apesar do nojo de agora minha memória traz aquele homem belo como um deus grego, quase perfeito, exatamente quase, porque perfeitamente humano, que nos momentos difíceis gostava de dizer: ‘mas a culpa não é minha!’, e logo em seguida, rapidamente, como quem se lembra de que é tão somente um perfeito quase, desculpava-se e dizia ‘ta, ta bem, eu vou tentar, a culpa é minha... ’ e me alimentava, sugando-me de leve,... Mas o desprezível pato grasnante continua a berrar que eu vou falar aquilo que ele mandar eu falar; ora, rio-me, creiam-me, ele diz que posso falar o que ele mandar. Ele ri rouco e eu rio mudamente dos vícios verbais que me constituíram, e que continuam insistindo, tipo ‘meus direitos’, vício daquelas mulheres, daqueles homens, vício meu, rio. Aquelas mulheres, não há mais isso. Não há direitos meus. Direito não admite pronome possessivo. Será que o Wolf pensaria nisso? Agora entendo o bronze da palavra gravada no corpo, é preciso mudar de corpo para libertar a palavra. Vou dizer isso ao Wolf agora mesmo. Aquelas mulheres, nós, eles, falamos tanto, tanto, tanto. Xiiiii... Estou delirando aqui, aqui dentro de mim e o grasnante está resmungando inquieto, pobre inquieto, e imbecil aflito, ridiculamente ansioso, esdrúxulo ser carente. Que palavras estarão gravadas no corpo dele? Então leio: ‘eu tenho a força!’, oohhh, que pato! E digo:
- Calma!
Eu não tremo, minha voz é tranqüila, e penso, me repetindo, eu sou mesmo uma intratável. Meu velho corpo se foi, e eis ainda a minha voz. Ele grasna desesperado:
- Querem que eu te mate! Pensa que não mato? Vai morrer de medo, vai sofrer, vou matar devagarzinho... Mando um dedo por dia, quero ver...
Ele treme. Eu sou um ser intratável, já mo disse meu amor de sangue quente. Então eu atiro:
- Quero ir ao banheiro...
Ouço um soluço, interrompo a leitura. Wolf está chorando. Sussurra que Dostoievski era um canalha. Fecho o livro, começo a beijá-lo, com força, com fome, ele desperta. Entre lágrimas, sussurra um pedido de trégua. E sem medo a gente se ama.

Magda Maria Campos Pinto

terça-feira, 28 de setembro de 2010

GOETHE, OHH, GOETHE...


(...) “Entretanto, o que mais nos dividia era que, no meu modo de ver, não havia necessidade de erigir a filosofia em disciplina à parte, já que toda ela estava compreendida na poesia e na religião. Era o que ele não queria admitir. Procurava, ao contrário, demonstrar-me que a poesia e a religião devem basear-se inicialmente na filosofia. Eu negava obstinadamente que fosse assim e, no seguimento de nossas palestras, encontrei a cada passo argumentos em favor de minha opinião. Com efeito, como a poesia pressupõe uma certa fé no impossível, e a religião uma fé igual no imponderável, os filósofos, que pretendiam demonstrar uma e outra dentro de seu domínio, me pareciam encontrar-se numa posição muito difícil, e não tardei também a verificar, pela história da filosofia, que cada um buscava sempre uma base nova e diferente das de seus predecessores, e finalmente surgia o cético para declarar tudo sem base e sem fundo. (...) O que sobretudo me agradava nas escolas e nos filósofos mais antigos era que poesia, religião e filosofia formavam um todo só, e eu sustentava com tanto mais vivacidade a minha primeira opinião quanto o Livro de Jó, o Cântico dos Cânticos e os Provérbios de Salomão, assim como as poesias de Orfeu e de Hesíodo, me pareciam testemunhar em favor dela. (...) Teria sido suficiente dizer-me que o essencial na vida é agir e que o prazer e a dor vêm de si mesmos. De resto, basta deixar agir a mocidade, que não se apega por muito tempo às máximas falsas: a vida, pela força ou pela sedução, não tarda a fazê-la voltar desses caminhos extraviados. (...) O que então senti me está sempre presente à lembrança. O que eu disse, não saberia mais reproduzi-lo; mas o certo é que só os vagos sentimentos, as aspirações imensas da juventude convêm ao sublime, que, a fim de ser despertado em nós pelos objetos exteriores, deve apresentar-se sem forma ou sob uma forma indefinível e cercar-nos de uma grandeza que sejamos incapazes de atingir. Essa disposição da alma, todos os homens a sentem mais ou menos, assim como buscam satisfazer de diversas maneiras essa nobre necessidade. Do mesmo modo, porém, que o sublime é facilmente produzido pelo crepúsculo e pela noite, onde as formas se confundem, é, pelo contrário, dissipado pelo dia que a tudo extingue e separa, e deve também desaparecer à medida que avançar a civilização, se não tiver sorte de refugiar-se no belo e entrar com ele numa íntima união que a ambos torne imortais e indestrutíveis.” (...)


In Memórias: Poesia e Verdade, Goethe, Editora Universidade de Brasília/Hucitec, 1990.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pois:



(...) “Aqui, não resisto à tentação de relembrar a oposição freudiana entre o direito público e seu supereu obsceno: da mesma forma, não seriam as ‘organizações terroristas internacionais’ o lado obsceno de uma grande empresa multinacional – a máquina rizomática definitiva, onipresente, mas sem base territorial definida? Não são elas a forma em que os ‘fundamentalismos nacionalistas e/ou religiosos’ se acomodaram ao capitalismo global? Não corporificam a contradição última, com seu conteúdo particular ou exclusivo e funcionamento dinâmico global?”.

In 'Bem vindo ao deserto do real', Slavoj Zizek, Boitempo Editorial, SP, 2005.


Nascido em 1949 na Eslovênia. Bacharel em letras; estudou filosofia na Universidade de Liubliana (sua cidade natal), e tornou-se doutor em 1981. Quatro anos mais tarde tornou-se doutor em psicanálise na Universidade Paris VIII. É professor convidado em várias universidades americanas e européias. Tem vasta e eclética publicação, debruçando-se sobre a vida contemporânea É seguidor de Lacan, e apresenta uma consistente formação filosófica, sociológica e histórica. Foi militante dos movimentos democráticos dos anos 80. Muito valiosa a colaboração de Slavoj Zizek à nossa ‘estúpida, brilhante e explosiva’ vida contemporânea.

domingo, 26 de setembro de 2010

Então, de repente, uma saudade de mim....


SUGESTÃO

Sede assim – qualquer coisa
Serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
Sem pergunta.

Onda que se esforça,
Por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
Os noivos abraçados
E os soldados já frios.

Também como este ar de noite:
Sussurrante de silêncios,
Cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
Sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
Vivendo e nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
Ao camelo que mastiga sua longa solidão,
Ao pássaro que procura o fim do mundo,
Ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
Serena, isenta,fiel.

Não como o resto dos homens.
(Cecília Meirelles)

sábado, 25 de setembro de 2010

Sugestão:


Delicadeza
Profundidade
Beleza
Responsabilidade
Competência
Firmeza
Dor
Certeza
Lucidez:

A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS
de Isabel Coixet.

Tim Robbins, Sarah Polley.
Espanha, 2007.

La vida.
Secreta.
De las palabras.
Vale!


De nostalgia


XXXIII
QUANDO?!

Não era belo, Maria,
Aquele tempo de amores,
Quando o mundo nos sorria,
Quando a terra era só flores
Da vida na primavera?
- Era!

Não tinha o prado mais rosas,
O sabiá mais gorjeios,
O céu mais nuvens formosas,
E mais puros devaneios
A tua alma inocentinha?
- Tinha!

E como achavas, Maria,
Aqueles doces instantes
De poética harmonia
Em que as brisas doudejantes
Folgavam nos teus cabelos?
- Belos!

Como tremias, ó vida,
Se em mim os olhos fitavas!
Como eras linda, querida,
Quando d’amor suspiravas
Naquela encantadora aurora!
- Ora!

E diz-me: não te recordas
-Debaixo do cajueiro –
Lá da lagoa nas bordas
Aquele beijo primeiro?
Ia o dia já findando...
- Quando?



in Primaveras, Casimiro de Abreu, L&PM Pocket, Porto Alegre, 2004.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Primavera


“A primavera é a estação dos risos etc. etc. Mal treme a brisa e mal palpita o lago. Mas de que brisa me hablas, Casemiro? É vento, é chuva – é isto! Ah, pelo que vocês dizem, e pelo que se vê, a primavera é apenas uma licença poética...”.

(Mário Quintana, Porta Giratória, Globo,SP, 1994)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

É PRIMAVERA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

MEU NOME É SOFIA.
CHEGUEI DIA 01 DE SETEMBRO DE 2010,
E TUDO JÁ ME ESPANTA!
HOJE É MEU PRIMEIRO DIA DE PRIMAVERA....

E TENHO UM PRESENTE PARA VOCÊS . QUERO QUE SEJA SEMPRE PRIMAVERA...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

OOPss.. não perca tempo:


CAMPANHA ARTE SOLIDARIEDADE: Hospital André Luiz
Leve arte para sua vida e bondade para seu coração.
Pedimos sua ajuda em divulgar e participar de nossas campanhas e eventos
Você pode comprar também pela internet.
www.lojanovosrumos.com.br

E quanto àquilo:


(...) “Alguns filósofos contemporâneos que se dedicaram ao tema da pós-modernidade, como Jean-François Lyotard, também estabelecem uma relação entre o fim das grandes narrativas e a hegemonia dos saberes ligados às atuais exigências de eficácia da técnica. Para Lyotard, a desvalorização das narrativas, como meio de legitimação do saber, é uma das características marcantes da pós-modernidade. Embora eu me alinhe neste ponto a Susan Sontag, para quem não faz sentido se estabelecer a idéia de uma pós-modernidade sem que nenhuma das contradições características da modernidade tenha sido superada e poucas de suas promessas tenham sido cumpridas, considero importantes as condições de Lyotard sobre a presente crise de confiabilidade nas formas de transmissão. Uma das evidências dessa crise, escreve o autor, é que , no mínimo desde as décadas de 1930 e 1940, “as ciências e as técnicas ditas de vanguarda versam sobre a linguagem”. Se a modernidade se caracteriza pela perda definitiva da suposta harmonia entre as palavras e as coisas, como pensou Michel Foucault, a pós-modernidade de Lyotard e de outros pensadores em voga nos anos 1980 estaria marcada pela absoluta desconfiança em relação a todos os procedimentos de transmissão de saber. A pretensão da ciência de recobrir todo o campo do saber revela-se vã; a ciência não é o Conhecimento, é apenas um sub-conjunto dele que exclui, por exemplo, ‘o saber-viver, o saber-fazer, o saber-escutar, etc.’ . Esses saberes remetem ao que Walter Benjamin chama de experiência, cuja transmissão depende das formas narrativas.
Entre as características do saber narrativo, Lyotard destaca sua incidência sobre o tempo: “A forma narrativa obedece a um ritmo, é a síntese de um metro que marca o tempo em períodos regulares e com um acento que modifica o comprimento ou a amplitude de algumas dentre elas’. A partir dos relatos de Lévi-Strauss sobre a transmissão dos mitos, Lyotard pensa que as narrativas também transmitem formas rítmicas de marcação do tempo. Independentemente do sentido das palavras que contam a história, uma narrativa é uma forma linear e ritmada que se desenrola ao longo de um determinado tempo. Este é muito diferente das temporalidades simultâneas que caracterizam os procedimentos técnicos para os quais a vida contemporânea exige competência, e cujo paradigma são as diversas ações comunicativas simultâneas permitidas pela estrutura de rede da internet, por exemplo.
Mas é importante lembrar que as narrativas não são uma forma de memorização do passado: são a própria atualização do passado no presente. Ao narrar, ‘é o ato presente que desdobra, a cada vez, a temporalidade efêmera que se estende entre o Eu ouvi e o Vocês vão ouvir’. (...)

In O tempo e o cão – a atualidade das depressões – Maria Rita Kehl, Boitempo Editorial, SP, 2009.

“Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa sozinhos, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso”. (Charlie Chaplin)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Notícia...

Então... Gabriel, Ricardo, Rodrigo, Raquel: recebemos os recados e os presentes; é verdade, a oficina literária está atrasada, isso é mesmo chato. Acontece que os ventos de agosto estavam muito fortes, e viraram tudo de cabeça pra baixo. Mas é certo que na primavera teremos nossos encontros, ela chega dia 22, se preparem, ok? E obrigado, adorei.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

CONVITE


Amigos,

Aguardo vocês amanhã, dia 16 de setembro, às 19h, no Museu Inimá de Paula para o lançamento do livro André Burian em Belo Horizonte.

Teremos bate-papo com o autor - André Burian,
Luiz Flávio (prof. de História da Arte da PUC Minas),
Guilherme Massara Rocha (prof. do departamento de Psicologia da UFMG e autor de Olho Clínico - Ensaios e Estudos sobre Arte e Psicanálise) e Júlio Martins (curador do Museu inimá de Paula).

Um grande abraço,

André Burian.

Há tempo:


(...)
Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo! Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

Aproveitar o tempo!...
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilado por brisas,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da terra,
E estremece, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

In Apostila, poesias de Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa, Obra Completa,
Nova Aguilar, RJ, 1986.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Enquanto isso:


Eu não tuito
Tu não tuitas
Ele não tuita
Nós não tuitamos
Vós não tuitais
Eles não tuitam....

Aprendi agora.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Aprendendo:

(foto Gregory Colbert)

“Que proveito tira o trabalhador do seu esforço? Observei a tarefa que Deus impôs aos humanos, para que nela se ocupassem. As coisas que ele fez são todas boas a seu tempo. Além disso, entregou o mundo ao coração deles. No entanto, o ser humano jamais chega a conhecer o princípio e o fim da ação que Deus realiza. Compreendi, então, que nada de bom existe senão alegrar-se e fazer o bem durante a vida. Pois todo aquele que come e bebe, e vê o fruto do seu trabalho, isso é dom de Deus. Aprendi que tudo o que Deus faz é para sempre. A isso nada podemos acrescentar, nem disso podemos tirar, do que Deus fez para que o temam. O que já foi, é o que está sendo; o que existirá, já foi, pois Deus vai em busca do que passou.” (Ecl 3,9-15)

domingo, 12 de setembro de 2010

Ponto:

“ ‘Estamos hoje tão apartados das culturas que foram nossas raízes quanto das culturas que sempre nos foram estranhas’, escreveu Paul Ricoeur ao comentar os diferentes modos de percepção do tempo, da Antiguidade até os nossos dias, quando o tempo em que estamos mergulhados é determinado pela ‘primazia da mediação tecnológica sobre todas as outras relações do homem com a natureza’. (...) São escassas as ocasiões que nos permitem outras formas de vivenciar os ritmos do corpo e os estados da mente que não os das sensações fugazes, das percepções e das decisões instantâneas. Em tais condições, sofre-se a falta do “tempo de compreender”, a partir do qual o sujeito do desejo pode emergir como sujeito de um saber sobre si mesmo. O dispositivo psicanalítico oferece àqueles que o procuram, entre outras coisas, uma possibilidade de experimentar outra temporalidade, diferente daquela marcada pelos relógios e regulada pela urgência das demandas da vida prática. Uma temporalidade mais próxima da temporalidade da pulsação do sujeito do inconsciente”.
in O tempo e o cão - a atualidade das depressões, Maria Rita Kehl, Boitempo Editorial,SP,2009


(foto por Gregory Colbert)

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


22.

Se libertássemos o tempo... Oooh! Direi ao Wolf que no fundo, ou melhor, o fundo é a estética. Nem morte, nem loucura, apenas estética. Não me calarei. E repenso: enlouqueci, enfim. Relaxo. Não será preciso dizer ao Wolf, ele já sabe. Ahhh! Minha mãe é a poesia, estou me lembrando, tal como disse Cecília: “De que maneira chegaremos às brancas portas da Via - Láctea? Será com asas ou com remos? Será com os músculos com que saltas? Leva-me agarrada aos teus ombros como um cendal para agasalhar-te! Seremos pássaros ou anjos atravessando a sombra da tarde! Deixaremos a terra juntos e justapostos como metades, sem o triste pó dos defuntos, sem qualquer bruma que enlute os ares! Sem nada de humanos assuntos: muito mais puros, muito mais graves!”
Pois então, o corpo de bronze desfez-se definitivamente, e retomo braços e pernas de que gosto muito, e costas, ora ora, sempre tão doídas, retomo seios de descobertas dessa feminina existência, e estou assim, refeita... E agora como fiapos de algodão voando numa brisa adocicada, a minha vontade brilha pontilhada dentro da flecha de sol que entra por pequeno furo naquela vedada janela, risca a penumbra desse lugar, e então, vendo minha vontade assim brilhante, me digo: ‘ you must remember this, a Kiss is still a Kiss, e laiálaiálaiá, as time goes bye’. Então são as felicidades da vida inteira, ‘a case of do or die’.
Eu estou feliz porque finalmente enlouqueço; calma e sem pudor. Demorou porque o meu corpo era tão duro, puro bronze. Era... Mas as minhas lágrimas de fogo que chorei por sentir a falta do Wolf romperam-no indelevelmente. Nunca mais bronze, eu saí dessa. Não me calarei. Eu não sou bronze. Quero rir, mas não devo, algo me diz que não é conveniente rir num momento desses, afinal, nem todo mundo é louco, e por isso, alguns são violentos. A violência não me calará. “Outros desesperem de ti, Liberdade: eu de ti não desespero”. Isso!!! Não solte minha mão, Withman.
Agora estou brincando com os olhos do Wolf e temos uma conversa sobre a estupidez das penas de morte. Acho que vou adormecer. Durmo. Sonhos devem ter me traído porque me ouço gritando ‘quero falar’ e ainda me ouço pensando ‘ahhh inconsciente insistência’ e ouve-se o som abafado do metal chocando-se novamente num dos meus crânios, e tudo desaparece outra vez, desta vez, em negro. Volto, não se sabe quando, e ainda menos se sabe de onde se volta, e não há nem cerebrozinhos nem manchas marrons, apenas o tal bronze, de novo! Inferno da repetição... Que agora não é colosso, mas um amontoado estúpido. Bronze é uma antiga liga metálica, de fato são muitas ligas. A maioria resiste à corrosão e é a mais antiga liga conhecida pelo homem, ora, como é insistente o inconsciente, e tão resistente, será bronze? E assim fez-me meu corpo? Eu, ou melhor, corpo de bronze é o inconsciente no corpo?
Reaparece uma alegria estranha de vencedor vencido, mas nesse momento, a memória mistura Jesus e Hegel e eu penso que sou a mais teimosa das criaturas e que minha loucura continua deixando-me muito só e então, a ausência do louco do Wolf é um punhal fininho que faz gotejar meu sangue e colore essa penumbra. Aqui, avermelhado, um cabaré, aquela vida. Eu não me calarei. Que coisa enfadonha é um cabaré. Mas agora o Wolf me diz que sobrevivemos, eu e ele, afinal ele possui todas as minhas lembranças, e portanto estamos os dois no mesmo sonho e aqui ele sorri safado, e me lembra de que temos ainda uns probleminhas a resolver e me pede ‘não desista’, afinal, sabe o Julien Sorel?, aquele danado, nem tratamos ainda da questão dele... É absurda a convulsão que o amor de Wolf em mim me causa. Então eu penso, de volta para ele, que o que estamos fazendo é muito sério, e que, se as pessoas nos entenderem – isto é, que a loucura é a razão da nossa sobrevivência – muitas coisas ficariam melhores e que ele, o Wolf, iria ficar mais feliz descobrindo um outro tempo, o tempo da delicadeza, e quase começo a cantar, me lembro da voz perfeita do Chico Buarque, que canta o amor da gente no tempo da delicadeza. Delicada é o...
Respiro mais profundamente, levanto os olhos do papel e encontro os olhos de Wolf. E ele está chorando; peço desculpas. Ele me pede um abraço e sussurra que recomeçaremos depois....

sábado, 11 de setembro de 2010

11 de setembro: em busca da sabedoria...

(foto:Gregory Colbert)

“Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que um homem generoso. Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que Ele revela seus mistérios. Pois grande é o poder do Senhor, mas Ele é glorificado pelos humildes. Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende. O homem inteligente reflete sobre as palavras dos sábios, e com ouvido atento deseja a sabedoria.” (Eclo 3,19-21,30-31)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Entonces:



Preciso tiempo,
necesito ese tiempo que otros dejan abandonado
porque les sobra o ya no saben qué hacer con él
Tiempo en blanco, en rojo, en verde
hasta en castaño oscuro
no me importa el color
cándido tiempo
que yo no puedo abrir
y cerrar como una puerta
Tiempo para mirar un árbol, un farol,
para andar por el filo del descanso
para pensar qué bien hoy es invierno
para morir un poco y nacer enseguida
y para darme cuenta, y para darme cuerda

Preciso tiempo el necesario
para chapotear unas horas en la vida
y para investigar por qué estoy triste
y acostumbrarme a mi esqueleto antiguo

Tiempo para esconderme en el canto de un gallo
y para reaparecer en un relincho
y para estar al día, para estar a la noche
tiempo sin recato y sin reloj


Vale decir preciso, o sea necesito
digamos me hace falta
tiempo sin tiempo


Mário Benedetti

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

DIZER A VERDADE E TODA A VERDADE:


“A coisa mais difícil, quando se começa escrever, é ser sincero. É preciso sacudir esta idéia e definir o que é a sinceridade artística. Eu penso isto, provisoriamente: que a palavra jamais precede a idéia. Ou melhor: que a palavra seja sempre uma necessidade para ela; é preciso que ela seja irresistível, insuprimível, e o mesmo é válido para a frase, para a obra toda. E para a vida inteira do artista, é preciso que sua vocação seja irresistível, que ele não possa não escrever”. (Gide)

(citado em O escritor e seus fantasmas, Ernesto Sábato, Francisco Alves, RJ, 1982)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ.


21.

- E a história da mulher?
- A história da mulher é a historia da descoberta de que a única reconstrução legítima do mundo é a reconstrução da palavra, isto é, o contrário do isolamento...
- Puta que pariu!
- Se conseguirmos contar isso, pode se tornar uma história de formação..
- Gostei do ‘se conseguirmos’...
- É sempre o problema dele, o problema da educação.
- Tudo pelo social.
- Merda...
- Uhhh, isto dá tese.
- Estou obcecada pelas partes, é uma droga, não me importa mais o inteiro.
- Hummm. Então não escreva, desista!
- Por quê?
- Cacete... parte não é legível!
- É. Parte é tudo.
- Eu não concordo.
- Não convence, não é plausível, questão de inteligência.
- Ficção é sempre delirantemente verdadeira, não é questão de inteligência...
- Todo princípio é absurdo.
- Adorei isso.
- Cínico!
- Só existe o relato da coisa. “Meus gritos afro-latidos, implodem, rasgam, esganam, e nos meus dedos dormidos, a lua das unhas gane... e daí?”. Amo o Milton Nascimento.
- Odeio o Milton Nascimento.
- História que não é contada não existe?
- Uhhhhh.
- A palavra é o umbigo da mulher.
- Espera, está confundindo.
- Não é confusão, é isso mesmo, história é um relato.
- É o prefácio.
- É esse o meu querer.
- Dignidade ao prefácio.
- Grande novidade!
- Eu sei.
- A mulher tem mais de cinqüenta anos.
- Tou cheio da juventude.
- Cínica.
- E começa a se desintegrar.
- Por quê?
- Falta uma palavra para a morte.
- É idiotice dizer que a fantasia não existe porque é secreta.
- Essa é a idéia.
- Ninguém disse isso.
- Eu disse que o não compartilhado não existe.
- Quero entender. É preciso uma palavra para a morte existir, morte que não existe elimina a vida, isto é, o prefácio. Logo, quem salva o prefácio é o ponto final.
- Uma autodelimitação! Ah, me poupe.
- Simples.
- Então, ela procura um homem para compartilhar sua inocência. E como toda histérica enlouquece por isso. Um homem que possa morrer por ela.
- Não banaliza!
- Pode-se buscar alguém para morrer. Talvez seja a causa do amor, a morte. Amor e morte pedem testemunhas.
- Wolffffff!!!!!!!
- A música acabou. O que você quer ouvir?

Magda Maria Campos Pinto

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Mais exatamente, agora...



“O escritor e as viagens: Bem ou mal, o escritor verdadeiro escreveu sobre a realidade que sofreu e mamou, isto é, sobre a pátria; embora, às vezes, pareça fazê-lo sobre histórias distantes no tempo e no espaço. Creio que Baudelaire disse que pátria é a infância. E me parece difícil escrever algo profundo que não esteja unido de uma maneira aberta ou emaranhada à infância. Por isso, mesmo os grandes expatriados, como Ibsen ou Joyce, continuaram tecendo ou destecendo esta mesma e misteriosa trama. Viajar é sempre um pouco superficial. O escritor de nosso tempo deve afundar na realidade. E, se viaja, deve ser para afundar, paradoxalmente, no lugar e nos seres de seu próprio rincão. O principal problema do escritor: Talvez seja o de evitar a tentação de juntar palavras para fazer uma obra. Disse Claudel que não foram as palavras que fizeram A ODISSÉIA, mas o contrário”.


In O escritor e seus fantasmas, Ernesto Sábato, Francisco Alves, RJ, 1982.

Sim, hoje.



“Da sabedoria é esta a conclusão final:
A vida e a liberdade só merece
Quem dia após dia as conquista.
E assim cercados por perigos
Passam seu dia os jovens, os adultos e os anciãos.
Queria eu ver esta multidão
Pisar em solo livre como homens livres.
E se pudesse, a este instante eu diria:
‘És tão belo, fica: ’
O rastro de meus dias nesta terra
Nem em milênios deve desaparecer.”

(in Faust, Der Tragodie Erster Teil)

Johann Wolfgang Goethe (1749 – 1832) – Goethe, o grande. Ou melhor, talvez, o maior.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Amanhã?

Fragmentos,
erupções da alma,
coágulos do século vinte –
cicatrizes – circulação defeituosa da criação matutina,
as religiões históricas de cinco séculos arrasadas,
a ciência: fendas no Parthenon,
Planck correu com sua teoria de quantas
para Kepler e Kierkegaard novamente juntos em desgraça –
noites houve porém, que se mostravam nas cores
paternas, o desprendido, vasto
azul escorrido,
incontestável em seu silêncio,
cor dos introvertidos,
a gente se reunia
as mãos nos joelhos,
campestre, simples, entregue à bebida solitária
ao som da harmônica dos servos –

e outros
acossados por convolutas internas,
anseios de abóbada,
compressões de estrutura estilística
ou caça ao amor.
Crises de expressão e ataques de erótica:
é isto o homem de hoje,
por dentro um vácuo,
a continuidade da personalidade
é assegurada pelos ternos
que feitos com tecido bom, podem durar dez anos.

O resto são fragmentos,
meios tons,
tentativas de melodias na casa vizinha,
spirituals de negros
ou Ave Marias.


"Ocorreu-me um pensamento de que talvez seja muito mais radical, muito mais revolucionário, muito mais corajoso para um homem que seja de fato duro, dizer à humanidade: 'Vocês são assim mesmo e jamais serão diferentes; vocês vivem assim, sempre viveram assim e assim sempre viverão. Quando vocês têm dinheiro, têm saúde; quando têm força, não precisam desdizer-se; quando têm poder, estão com o direito. Essa é a história... Ecce historia!... Quem não suportar essa idéia será um mentiroso entre os vermes, mentirá aos que a terra úmida já cobriu. Quem se jacta, fitando os olhos das crianças e dizendo-lhes que ainda possui esperança, está querendo prender a luz com as mãos, mas não conseguirá salvar-se da noite que lhe vai arrebatando seu país, sua cidade... Todas essas catástrofes nascem do destino e da liberdade: flores inúteis, fogos impotentes e, por trás deles, o impenetrável, com seu ilimitado NÃO.'"

Gottfried Benn (1886 – 1953) – Médico, poeta, ensaísta, Benn presenciou o sofrimento humano nas suas formas mais terríveis durante sua longa atuação na Santa Casa em Berlim. Bebeu nas fontes de Nietzsche e influenciou Bertolt Brecht.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

(imagem do filme 8 1/2, de Federico Fellini)


20.

Move-se o impávido colosso e esse movimento me traz o desejo de conversar com a calça jeans. Era disso que me esquecia: eu sou aquela que gosta de conversa. Quero falar. Quero ouvir. Tenta-se, mas só consigo murmurar incompreensíveis murmúrios. E ouço: “cala”, e compreendo: “existem duas vozes”.
Dentro de uma de minhas cabeças temo novo som sufocante, e me aquieto. Obediente. E me lembro do Wolf que tem o corpo quente e então começo a chorar pela primeira vez desde - desde quando? – choro lágrimas que ao escorrerem cortam o tal colosso de bronze em tiras, abrindo em mim profundas brechas. Que ardem. Choro pela primeira vez desde que vi um carro parado na esquina da minha casa e... A polícia vai saber. É. A polícia. Não importa, eu preciso ler... Está escuro aqui, eu preciso chamar um poeta. “Não pergunto quem és, para mim isso não é importante, Não podes fazer nada, não podes ser mais do que aquilo que te dou”... Ah... “Segure a minha mão, Walt Withman”... Segure a minha mão... Assim está bem. É Verdade, “esse desfile de maravilhas! Essas vistas e sons! Esses elos unidos infinitos, cada qual enganchado no seguinte, Cada qual respondendo aos outros todos, Cada um com todos partilhando a terra...” Faça com que eu adormeça, Walt Withman.
Outra de minhas cabeças repensa: que bronze??!!! Fico vendo os claros olhos castanhos do Wolf e me alimento dessa clareza, e agora penso que nada estanca uma vontade que é uma vontade de amor, essa loucura, e a mulher macérrima me estende uma maçã que eu não quero, e ainda outra cabeça responde ‘jamais gostei de maçã’ e todas - quantas? – as minhas cabeças reencontram meu bom humor, e sinto saudade de mim, sinto o sabor do Wolf, vinho tinto seco e bom, sentido também a vontade absoluta de me calar para sempre. Volta a angústia, o que Wolf fará por mim? Eu não sei. Não se sabe. O poeta de agora, que segura a minha mão, é o Withman. Minha cabeça mais calma começa a se lembrar: ”Conheço perfeitamente o meu egoísmo, Sei que os meus versos são vorazes e assim continuarão a ser, E sejas quem fores irei buscar-te e velozmente voarás comigo . Este canto de mim mesmo não se faz com palavras rotineiras, Interroga abruptamente, para de mais longe trazer para perto; Eis aqui este livro impresso e encadernado... mas onde estão o tipógrafo e o ajudante?”;
Outra cabeça se levanta: Ridícula!! VOCÊ FOI CALADA! Fui? Reajo, não ainda, não me calei. Recupero-me e lembro que Wolf me ama. Eu não sinto medo. É melhor não ficar repetindo isso mas de fato eu não sinto nada que não seja uma dor absurda e que... não sinto mais!, Ela se foi, ela está agora naquele compacto de bronze, bronze que descobri existir no começo de um corpo que eu carregava, e não era meu. Dor estrangeira que me invadiu, colonizou-me, submeteu-me. Eis que se levanta outra cabeça, suave, safada e satisfeita, me parece que se parece com Wolf. Quase rio. Sobreviveremos. Bailaremos nas cordas bambas que são as veredas do mundo, onde mora a dor, dor que agora não sinto, expeli, corpo estranho. Revejo lindo o meu circo. É. Perspectivas. Nunca se notou, é pena, mas fui trapezista. Sou, isto é, agora serei para sempre trapezista.
Então Wolf suspirou. Está cansado. Vejo-o impactado.
- Vamos dormir?
Magda Maria Campos Pinto