terça-feira, 21 de setembro de 2010

E quanto àquilo:


(...) “Alguns filósofos contemporâneos que se dedicaram ao tema da pós-modernidade, como Jean-François Lyotard, também estabelecem uma relação entre o fim das grandes narrativas e a hegemonia dos saberes ligados às atuais exigências de eficácia da técnica. Para Lyotard, a desvalorização das narrativas, como meio de legitimação do saber, é uma das características marcantes da pós-modernidade. Embora eu me alinhe neste ponto a Susan Sontag, para quem não faz sentido se estabelecer a idéia de uma pós-modernidade sem que nenhuma das contradições características da modernidade tenha sido superada e poucas de suas promessas tenham sido cumpridas, considero importantes as condições de Lyotard sobre a presente crise de confiabilidade nas formas de transmissão. Uma das evidências dessa crise, escreve o autor, é que , no mínimo desde as décadas de 1930 e 1940, “as ciências e as técnicas ditas de vanguarda versam sobre a linguagem”. Se a modernidade se caracteriza pela perda definitiva da suposta harmonia entre as palavras e as coisas, como pensou Michel Foucault, a pós-modernidade de Lyotard e de outros pensadores em voga nos anos 1980 estaria marcada pela absoluta desconfiança em relação a todos os procedimentos de transmissão de saber. A pretensão da ciência de recobrir todo o campo do saber revela-se vã; a ciência não é o Conhecimento, é apenas um sub-conjunto dele que exclui, por exemplo, ‘o saber-viver, o saber-fazer, o saber-escutar, etc.’ . Esses saberes remetem ao que Walter Benjamin chama de experiência, cuja transmissão depende das formas narrativas.
Entre as características do saber narrativo, Lyotard destaca sua incidência sobre o tempo: “A forma narrativa obedece a um ritmo, é a síntese de um metro que marca o tempo em períodos regulares e com um acento que modifica o comprimento ou a amplitude de algumas dentre elas’. A partir dos relatos de Lévi-Strauss sobre a transmissão dos mitos, Lyotard pensa que as narrativas também transmitem formas rítmicas de marcação do tempo. Independentemente do sentido das palavras que contam a história, uma narrativa é uma forma linear e ritmada que se desenrola ao longo de um determinado tempo. Este é muito diferente das temporalidades simultâneas que caracterizam os procedimentos técnicos para os quais a vida contemporânea exige competência, e cujo paradigma são as diversas ações comunicativas simultâneas permitidas pela estrutura de rede da internet, por exemplo.
Mas é importante lembrar que as narrativas não são uma forma de memorização do passado: são a própria atualização do passado no presente. Ao narrar, ‘é o ato presente que desdobra, a cada vez, a temporalidade efêmera que se estende entre o Eu ouvi e o Vocês vão ouvir’. (...)

In O tempo e o cão – a atualidade das depressões – Maria Rita Kehl, Boitempo Editorial, SP, 2009.

“Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa sozinhos, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso”. (Charlie Chaplin)

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