segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Amanhã?

Fragmentos,
erupções da alma,
coágulos do século vinte –
cicatrizes – circulação defeituosa da criação matutina,
as religiões históricas de cinco séculos arrasadas,
a ciência: fendas no Parthenon,
Planck correu com sua teoria de quantas
para Kepler e Kierkegaard novamente juntos em desgraça –
noites houve porém, que se mostravam nas cores
paternas, o desprendido, vasto
azul escorrido,
incontestável em seu silêncio,
cor dos introvertidos,
a gente se reunia
as mãos nos joelhos,
campestre, simples, entregue à bebida solitária
ao som da harmônica dos servos –

e outros
acossados por convolutas internas,
anseios de abóbada,
compressões de estrutura estilística
ou caça ao amor.
Crises de expressão e ataques de erótica:
é isto o homem de hoje,
por dentro um vácuo,
a continuidade da personalidade
é assegurada pelos ternos
que feitos com tecido bom, podem durar dez anos.

O resto são fragmentos,
meios tons,
tentativas de melodias na casa vizinha,
spirituals de negros
ou Ave Marias.


"Ocorreu-me um pensamento de que talvez seja muito mais radical, muito mais revolucionário, muito mais corajoso para um homem que seja de fato duro, dizer à humanidade: 'Vocês são assim mesmo e jamais serão diferentes; vocês vivem assim, sempre viveram assim e assim sempre viverão. Quando vocês têm dinheiro, têm saúde; quando têm força, não precisam desdizer-se; quando têm poder, estão com o direito. Essa é a história... Ecce historia!... Quem não suportar essa idéia será um mentiroso entre os vermes, mentirá aos que a terra úmida já cobriu. Quem se jacta, fitando os olhos das crianças e dizendo-lhes que ainda possui esperança, está querendo prender a luz com as mãos, mas não conseguirá salvar-se da noite que lhe vai arrebatando seu país, sua cidade... Todas essas catástrofes nascem do destino e da liberdade: flores inúteis, fogos impotentes e, por trás deles, o impenetrável, com seu ilimitado NÃO.'"

Gottfried Benn (1886 – 1953) – Médico, poeta, ensaísta, Benn presenciou o sofrimento humano nas suas formas mais terríveis durante sua longa atuação na Santa Casa em Berlim. Bebeu nas fontes de Nietzsche e influenciou Bertolt Brecht.

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