terça-feira, 28 de setembro de 2010

GOETHE, OHH, GOETHE...


(...) “Entretanto, o que mais nos dividia era que, no meu modo de ver, não havia necessidade de erigir a filosofia em disciplina à parte, já que toda ela estava compreendida na poesia e na religião. Era o que ele não queria admitir. Procurava, ao contrário, demonstrar-me que a poesia e a religião devem basear-se inicialmente na filosofia. Eu negava obstinadamente que fosse assim e, no seguimento de nossas palestras, encontrei a cada passo argumentos em favor de minha opinião. Com efeito, como a poesia pressupõe uma certa fé no impossível, e a religião uma fé igual no imponderável, os filósofos, que pretendiam demonstrar uma e outra dentro de seu domínio, me pareciam encontrar-se numa posição muito difícil, e não tardei também a verificar, pela história da filosofia, que cada um buscava sempre uma base nova e diferente das de seus predecessores, e finalmente surgia o cético para declarar tudo sem base e sem fundo. (...) O que sobretudo me agradava nas escolas e nos filósofos mais antigos era que poesia, religião e filosofia formavam um todo só, e eu sustentava com tanto mais vivacidade a minha primeira opinião quanto o Livro de Jó, o Cântico dos Cânticos e os Provérbios de Salomão, assim como as poesias de Orfeu e de Hesíodo, me pareciam testemunhar em favor dela. (...) Teria sido suficiente dizer-me que o essencial na vida é agir e que o prazer e a dor vêm de si mesmos. De resto, basta deixar agir a mocidade, que não se apega por muito tempo às máximas falsas: a vida, pela força ou pela sedução, não tarda a fazê-la voltar desses caminhos extraviados. (...) O que então senti me está sempre presente à lembrança. O que eu disse, não saberia mais reproduzi-lo; mas o certo é que só os vagos sentimentos, as aspirações imensas da juventude convêm ao sublime, que, a fim de ser despertado em nós pelos objetos exteriores, deve apresentar-se sem forma ou sob uma forma indefinível e cercar-nos de uma grandeza que sejamos incapazes de atingir. Essa disposição da alma, todos os homens a sentem mais ou menos, assim como buscam satisfazer de diversas maneiras essa nobre necessidade. Do mesmo modo, porém, que o sublime é facilmente produzido pelo crepúsculo e pela noite, onde as formas se confundem, é, pelo contrário, dissipado pelo dia que a tudo extingue e separa, e deve também desaparecer à medida que avançar a civilização, se não tiver sorte de refugiar-se no belo e entrar com ele numa íntima união que a ambos torne imortais e indestrutíveis.” (...)


In Memórias: Poesia e Verdade, Goethe, Editora Universidade de Brasília/Hucitec, 1990.

Nenhum comentário:

Postar um comentário