quarta-feira, 1 de setembro de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

(imagem do filme 8 1/2, de Federico Fellini)


20.

Move-se o impávido colosso e esse movimento me traz o desejo de conversar com a calça jeans. Era disso que me esquecia: eu sou aquela que gosta de conversa. Quero falar. Quero ouvir. Tenta-se, mas só consigo murmurar incompreensíveis murmúrios. E ouço: “cala”, e compreendo: “existem duas vozes”.
Dentro de uma de minhas cabeças temo novo som sufocante, e me aquieto. Obediente. E me lembro do Wolf que tem o corpo quente e então começo a chorar pela primeira vez desde - desde quando? – choro lágrimas que ao escorrerem cortam o tal colosso de bronze em tiras, abrindo em mim profundas brechas. Que ardem. Choro pela primeira vez desde que vi um carro parado na esquina da minha casa e... A polícia vai saber. É. A polícia. Não importa, eu preciso ler... Está escuro aqui, eu preciso chamar um poeta. “Não pergunto quem és, para mim isso não é importante, Não podes fazer nada, não podes ser mais do que aquilo que te dou”... Ah... “Segure a minha mão, Walt Withman”... Segure a minha mão... Assim está bem. É Verdade, “esse desfile de maravilhas! Essas vistas e sons! Esses elos unidos infinitos, cada qual enganchado no seguinte, Cada qual respondendo aos outros todos, Cada um com todos partilhando a terra...” Faça com que eu adormeça, Walt Withman.
Outra de minhas cabeças repensa: que bronze??!!! Fico vendo os claros olhos castanhos do Wolf e me alimento dessa clareza, e agora penso que nada estanca uma vontade que é uma vontade de amor, essa loucura, e a mulher macérrima me estende uma maçã que eu não quero, e ainda outra cabeça responde ‘jamais gostei de maçã’ e todas - quantas? – as minhas cabeças reencontram meu bom humor, e sinto saudade de mim, sinto o sabor do Wolf, vinho tinto seco e bom, sentido também a vontade absoluta de me calar para sempre. Volta a angústia, o que Wolf fará por mim? Eu não sei. Não se sabe. O poeta de agora, que segura a minha mão, é o Withman. Minha cabeça mais calma começa a se lembrar: ”Conheço perfeitamente o meu egoísmo, Sei que os meus versos são vorazes e assim continuarão a ser, E sejas quem fores irei buscar-te e velozmente voarás comigo . Este canto de mim mesmo não se faz com palavras rotineiras, Interroga abruptamente, para de mais longe trazer para perto; Eis aqui este livro impresso e encadernado... mas onde estão o tipógrafo e o ajudante?”;
Outra cabeça se levanta: Ridícula!! VOCÊ FOI CALADA! Fui? Reajo, não ainda, não me calei. Recupero-me e lembro que Wolf me ama. Eu não sinto medo. É melhor não ficar repetindo isso mas de fato eu não sinto nada que não seja uma dor absurda e que... não sinto mais!, Ela se foi, ela está agora naquele compacto de bronze, bronze que descobri existir no começo de um corpo que eu carregava, e não era meu. Dor estrangeira que me invadiu, colonizou-me, submeteu-me. Eis que se levanta outra cabeça, suave, safada e satisfeita, me parece que se parece com Wolf. Quase rio. Sobreviveremos. Bailaremos nas cordas bambas que são as veredas do mundo, onde mora a dor, dor que agora não sinto, expeli, corpo estranho. Revejo lindo o meu circo. É. Perspectivas. Nunca se notou, é pena, mas fui trapezista. Sou, isto é, agora serei para sempre trapezista.
Então Wolf suspirou. Está cansado. Vejo-o impactado.
- Vamos dormir?
Magda Maria Campos Pinto

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