domingo, 12 de setembro de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ


22.

Se libertássemos o tempo... Oooh! Direi ao Wolf que no fundo, ou melhor, o fundo é a estética. Nem morte, nem loucura, apenas estética. Não me calarei. E repenso: enlouqueci, enfim. Relaxo. Não será preciso dizer ao Wolf, ele já sabe. Ahhh! Minha mãe é a poesia, estou me lembrando, tal como disse Cecília: “De que maneira chegaremos às brancas portas da Via - Láctea? Será com asas ou com remos? Será com os músculos com que saltas? Leva-me agarrada aos teus ombros como um cendal para agasalhar-te! Seremos pássaros ou anjos atravessando a sombra da tarde! Deixaremos a terra juntos e justapostos como metades, sem o triste pó dos defuntos, sem qualquer bruma que enlute os ares! Sem nada de humanos assuntos: muito mais puros, muito mais graves!”
Pois então, o corpo de bronze desfez-se definitivamente, e retomo braços e pernas de que gosto muito, e costas, ora ora, sempre tão doídas, retomo seios de descobertas dessa feminina existência, e estou assim, refeita... E agora como fiapos de algodão voando numa brisa adocicada, a minha vontade brilha pontilhada dentro da flecha de sol que entra por pequeno furo naquela vedada janela, risca a penumbra desse lugar, e então, vendo minha vontade assim brilhante, me digo: ‘ you must remember this, a Kiss is still a Kiss, e laiálaiálaiá, as time goes bye’. Então são as felicidades da vida inteira, ‘a case of do or die’.
Eu estou feliz porque finalmente enlouqueço; calma e sem pudor. Demorou porque o meu corpo era tão duro, puro bronze. Era... Mas as minhas lágrimas de fogo que chorei por sentir a falta do Wolf romperam-no indelevelmente. Nunca mais bronze, eu saí dessa. Não me calarei. Eu não sou bronze. Quero rir, mas não devo, algo me diz que não é conveniente rir num momento desses, afinal, nem todo mundo é louco, e por isso, alguns são violentos. A violência não me calará. “Outros desesperem de ti, Liberdade: eu de ti não desespero”. Isso!!! Não solte minha mão, Withman.
Agora estou brincando com os olhos do Wolf e temos uma conversa sobre a estupidez das penas de morte. Acho que vou adormecer. Durmo. Sonhos devem ter me traído porque me ouço gritando ‘quero falar’ e ainda me ouço pensando ‘ahhh inconsciente insistência’ e ouve-se o som abafado do metal chocando-se novamente num dos meus crânios, e tudo desaparece outra vez, desta vez, em negro. Volto, não se sabe quando, e ainda menos se sabe de onde se volta, e não há nem cerebrozinhos nem manchas marrons, apenas o tal bronze, de novo! Inferno da repetição... Que agora não é colosso, mas um amontoado estúpido. Bronze é uma antiga liga metálica, de fato são muitas ligas. A maioria resiste à corrosão e é a mais antiga liga conhecida pelo homem, ora, como é insistente o inconsciente, e tão resistente, será bronze? E assim fez-me meu corpo? Eu, ou melhor, corpo de bronze é o inconsciente no corpo?
Reaparece uma alegria estranha de vencedor vencido, mas nesse momento, a memória mistura Jesus e Hegel e eu penso que sou a mais teimosa das criaturas e que minha loucura continua deixando-me muito só e então, a ausência do louco do Wolf é um punhal fininho que faz gotejar meu sangue e colore essa penumbra. Aqui, avermelhado, um cabaré, aquela vida. Eu não me calarei. Que coisa enfadonha é um cabaré. Mas agora o Wolf me diz que sobrevivemos, eu e ele, afinal ele possui todas as minhas lembranças, e portanto estamos os dois no mesmo sonho e aqui ele sorri safado, e me lembra de que temos ainda uns probleminhas a resolver e me pede ‘não desista’, afinal, sabe o Julien Sorel?, aquele danado, nem tratamos ainda da questão dele... É absurda a convulsão que o amor de Wolf em mim me causa. Então eu penso, de volta para ele, que o que estamos fazendo é muito sério, e que, se as pessoas nos entenderem – isto é, que a loucura é a razão da nossa sobrevivência – muitas coisas ficariam melhores e que ele, o Wolf, iria ficar mais feliz descobrindo um outro tempo, o tempo da delicadeza, e quase começo a cantar, me lembro da voz perfeita do Chico Buarque, que canta o amor da gente no tempo da delicadeza. Delicada é o...
Respiro mais profundamente, levanto os olhos do papel e encontro os olhos de Wolf. E ele está chorando; peço desculpas. Ele me pede um abraço e sussurra que recomeçaremos depois....

Nenhum comentário:

Postar um comentário