quarta-feira, 29 de setembro de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ



(tela de Zélia Evangelista )

23.

Wolf é lindo. Desta vez, enlouqueci. Portanto, não me calarei. Sinto-me calma, de repente é possível uma meditação, e chega a minha filha, e então dou de chorar novamente, desta vez choro sem lágrimas, aparecem filmes e livros que amamos, ela me sorri linda, sapeca e digo: “mas Diadorim é minha neblina...”. Então ela balança a cabeça censurando-me e de imediato eu me recupero, vivo o amor que nos redime e, como quem se lembra de que está com sede, me lembro de que quero morrer logo. Puxo para mais perto de mim este cobertor que não me aquece, dói, mas agora tudo está melhor porque me lembrei de que vou morrer. Pensa-se que quando se está morrendo, a primeira coisa a se perder é o tempo; acho graça do óbvio e acho graça também de já ter rido do óbvio antes, e que se, todavia há um antes, eu ainda tenho certo tempo comigo. Revejo Wolf sorrindo a dizer: “quando chegará a próxima carta?”. Comigo Wolf aprendeu a gostar de cartas e de bromélias. Escrevia-lhe diariamente. Com ele, aprendi a gostar de gostar. Tenho um bosque de bromélias. Tenho? Continuo a me lembrar de gostos e desgostos e ouço certa voz que insiste dentro de mim: “pare com isso antes que eu enlouqueça”, mas definitivamente não me importo nada com isso, pois finalmente o passado é uma lua bonita que se distende, e retorna apenas o Wolf, de olhos claros e de corpo quente, e de mania de beijar sugando a gente, que cisma de não dizer palavra, dizendo tudo com os olhos. E então eu rio baixinho para não incomodar a calça jeans, coitada, provavelmente já cansada de ficar aqui, calada e quieta, tão séria, coitada, começo a pensar que basta a cada dia o seu mal, estou adormecendo..., e ainda se pensa que o real é o racional e que São João deve gostado muito de ter-se deitado no seio de Jesus. Estou presente. Sou agora. Sou, e me lembro da noite no restaurante italiano, lembro que eu prometi ler para Wolf a tristeza do Raskólnikov, e não li, e era importante, mas passou, ou não? Não passa, posso dizer agora mesmo, ahhhh, “cala-te, Sônia, cala-te! – repetiu, sóbria e teimosamente. – Eu sei tudo. Já pensei nisso tudo, e a mim próprio o disse quando estava estendido, ali, no escuro... Tudo isso discutia eu comigo mesmo, até os seus mínimos pormenores, e sei tudo, tudo. E como me aborrecia, como me aborrecia a mim, então, todo esse palavreado! Eu queria esquecer tudo e começar de novo, Sônia, e deixar de pensar disparates. Julgas tu que eu cheguei até onde cheguei como um imbecil, como quem vai bater com a cabeça numa parede? Eu cheguei até lá pelo raciocínio e foi isso que me perdeu. Imaginas tu, por acaso, que eu não sabia que, por exemplo, se começasse a perguntar a mim próprio e a examinar ‘tenho ou não o direito de possuir o poder?’, era porque então, provavelmente, não tinha esse direito? Ou que, se fizesse a pergunta: ‘é um piolho ou um ser humano?’, então, com certeza que o ser humano já não seria para mim um piolho, mas só para aquele quem isso não tivesse passado pela imaginação e que fosse direto até lá sem fazer essas perguntas? Quando eu levei tantos dias neste tormento: “Napoleão faria isto ou não?” já eu compreendia claramente que não era um Napoleão.... todo, todo o suplício desse palavreado o sofri eu, Sônia, e foi tudo isso que eu quis sacudir de cima dos ombros. Sônia, eu queria matar sem casuística, matar para mim, para mim só. Não queria mentir nisto, nem a mim próprio! Não foi para ajudar a minha mãe que eu matei..... que absurdo! Matei, simplesmente. Matei só para mim, para mim apenas, e, se em conseqüência disso eu tivesse podido me tornar um benfeitor, ou tivesse passado toda a vida, como a aranha, apanhando presas na teia e alimentando-me dos seus sucos vitais, para mim tudo isso teria sido indiferente.... e também não precisava de dinheiro, nem isso era o principal, Sônia; quando matei, precisava mais de outra coisa do que de dinheiro... tudo isso o sei eu agora.... vê se me compreendes. Pode ser que , se tivesse de percorrer as mesmas pegadas, já não tornasse a repetir o crime. Eu precisava conhecer outra coisa, outra coisa me puxava pelo braço: então, eu precisava saber, e de saber o mais depressa possível, se eu também era um piolho, como todos, ou um homem. Estava capacitado para transgredir a lei ou não estava? Tinha ousadia para ultrapassar os limites, para tomar este poder, ou não? Era eu uma criatura trêmula ou tinha o direito?” oh, pobre Rodka, encarcerar-se para se libertar, ahhh, feliz Rodka, ele chegou lá, no amor, ahhhh, agora posso adormecer, Wolf já conhece a dor de Rodka...
De repente percebo, percebo que há um homem em pé bem junto dessa cama alta e é quase imaginação porque ver não o vejo, só pressinto.. É homem, eu o cheiro homem, cheiro de ave, ele está vestindo roupas escuras. Ou não? Estamos aqui na sombra, e começo a adivinhar coisas terríveis nesse homem que é uma sombra entre sombras. Prevejo um ser que confunde vida e força, e agora agarrada em meu bom humor, estou distante daqui cantando a canção que rima amor e dor, mas... de repente, o homem berra, e urra quebrando o silêncio externo e quebrando também a minha canção interna.
- Querem te matar, a culpa não é minha, eu avisei, era só pagar e eu deixava você viver, mas não querem pagar, não posso fazer nada, vou te matar...
É uma voz grasnada de pato faminto, sinto nojo desse ‘a culpa não é minha’, tenho náusea desse ‘não posso fazer nada’, mas apesar do nojo de agora minha memória traz aquele homem belo como um deus grego, quase perfeito, exatamente quase, porque perfeitamente humano, que nos momentos difíceis gostava de dizer: ‘mas a culpa não é minha!’, e logo em seguida, rapidamente, como quem se lembra de que é tão somente um perfeito quase, desculpava-se e dizia ‘ta, ta bem, eu vou tentar, a culpa é minha... ’ e me alimentava, sugando-me de leve,... Mas o desprezível pato grasnante continua a berrar que eu vou falar aquilo que ele mandar eu falar; ora, rio-me, creiam-me, ele diz que posso falar o que ele mandar. Ele ri rouco e eu rio mudamente dos vícios verbais que me constituíram, e que continuam insistindo, tipo ‘meus direitos’, vício daquelas mulheres, daqueles homens, vício meu, rio. Aquelas mulheres, não há mais isso. Não há direitos meus. Direito não admite pronome possessivo. Será que o Wolf pensaria nisso? Agora entendo o bronze da palavra gravada no corpo, é preciso mudar de corpo para libertar a palavra. Vou dizer isso ao Wolf agora mesmo. Aquelas mulheres, nós, eles, falamos tanto, tanto, tanto. Xiiiii... Estou delirando aqui, aqui dentro de mim e o grasnante está resmungando inquieto, pobre inquieto, e imbecil aflito, ridiculamente ansioso, esdrúxulo ser carente. Que palavras estarão gravadas no corpo dele? Então leio: ‘eu tenho a força!’, oohhh, que pato! E digo:
- Calma!
Eu não tremo, minha voz é tranqüila, e penso, me repetindo, eu sou mesmo uma intratável. Meu velho corpo se foi, e eis ainda a minha voz. Ele grasna desesperado:
- Querem que eu te mate! Pensa que não mato? Vai morrer de medo, vai sofrer, vou matar devagarzinho... Mando um dedo por dia, quero ver...
Ele treme. Eu sou um ser intratável, já mo disse meu amor de sangue quente. Então eu atiro:
- Quero ir ao banheiro...
Ouço um soluço, interrompo a leitura. Wolf está chorando. Sussurra que Dostoievski era um canalha. Fecho o livro, começo a beijá-lo, com força, com fome, ele desperta. Entre lágrimas, sussurra um pedido de trégua. E sem medo a gente se ama.

Magda Maria Campos Pinto

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