domingo, 31 de outubro de 2010

REPITO: Eu amo Drummond


Drummond, Carlos, o gauche, nosso amigo, nosso guru, nosso mestre, nosso cúmplice, nasceu a 31 de outubro de 1902, em Itabira, aqui pertim. Amante, companheiro, funcionário público, socialista, comunista, intimista, pessimista, mas nem tanto, sério, mas irônico, racional, mas sensual. É tão bom ser mineiro, é melhor ser mineiro da lavra Drummond. Seu primeiro livro ‘Alguma poesia’ foi lido na FLIP/2010 por Antonio Cícero, Chacal, Ferreira Gulllar e Eucanaã Ferraz. Pura sensação.
CONFISSÃO

Carlos Drummond de Andrade

Não amei bastante meu semelhante,
Não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
Melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
Tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
E tudo que ele implica de suave,
De concordâncias vegetais, murmúrios
De riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
Contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
Que se esfacelou na asa do avião.


(Claro Enigma – 1948-1951)

sábado, 30 de outubro de 2010

Aprendendo:

UMA DIDÁTICA DA INVENÇÃO

I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
Etc.
Etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.


III

Repetir repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.


In Manoel de Barros, O livro das Ignorãças, Civilização Brasileira, RJ,1993.
(continuamos ao longo da semana)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

PERSONA


3. Quarta-feira


Ele diz que não sabe como nem onde se perdeu. Dizer isso já é muito difícil, mas deve admitir que se perdeu, é verdade, não tem jeito de negar, e agora que já falou, quer dizer o resto: ‘decidi, não quero mais essa vida miserável’, cansou-se, não sabe ainda o quê fazer, mas quer fazer, seja lá o que for, fará! Cansou-se de ser infeliz. Ao mesmo tempo, acha tudo um absurdo extremado, uma loucura, afinal sua vida não é tão ruim assim, é bem razoável, já disse isso, disse mil vezes, pensando melhor nem deveria se queixar de coisa alguma. Mas o fato é que se sente miserável, parece que alguma coisa ficou não sabe onde, não sabe o quê, mas alguma coisa ficou fora, ou melhor, quer dizer, lá atrás, atrás? É, parece. ‘Em mim, mas fora de meu alcance’, ele acha isso, assim ele o diz. O pior é que também se acha muito bonzinho, muito certinho, muito sincero, enfim, é muito tudo, mas também é muito ‘inho’. Fica vermelho. Ligeiramente trêmulo, olha para um lado, para outro, para cima, para baixo; não está procurando nada, está se escondendo. E de repente: ‘Eu queria não ser tão correto’. Fica mais vermelho. ‘Acabei de dizer uma asneira’. Precisa ser forte, corajoso, mas é difícil, não tem ajuda, ninguém ajuda, aliás, a verdade é que ninguém o vê, repete que já disse isso também, e que todos são idiotas, babacas, mas não quer sentir pena, nem de si nem dos outros, pena não, mas são tiranos, não têm noção, o obrigam, só dizem asneiras, só repetem a mesma porcaria. E por que as coisas não dão certo só pra ele? Onde é que ele erra? Por que tudo é tão complicado? Bom, acha que as pessoas é que são complicadas, que gostam de complicar. Será mesmo verdade que falta coragem pra ser feliz? Ah, não. Isso não. Coragem ele tem, ele quer, mas não o deixam em paz e ele sente bobo, se preocupa com todo mundo, e se esquece de si. É sempre assim. Talvez ele seja uma pessoa chata, é, muitas vezes ‘eu me sinto muito chato’. Mas não é sempre, claro que não, e depois, ele é de carne e osso, tem dia que é mesmo uma merda. Uma grande merda. O dia. Ou ele, sabe-se lá. Tá cansado, já falou, cansado de tentar entender, de tentar fazer dar certo. Queria gostar de viver sozinho, numa boa, não ligar pra nada, nem pra ninguém, assim como a maioria faz. 'Este é meu problema', é que ele diz entre lágrimas, ele diz que queria chutar o balde, como todo mundo, mas não chuta. Mas que queria isso, ah, queria. Mas diz que é só da boca pra fora, que na hora H, hãã, que nada, faz nada, aceita tudo do mesmo jeito. Estranho, né? Não dizem que basta desejar? Que o desejo é a mola da vida? Com ele não funciona assim. Tem alguma coisa errada porque desejar, ele deseja. Oh, se deseja... quanta coisa! Só que não adianta. Nada acontece como ele deseja, quer dizer, mais ou menos, porque de fato, o seu desejo...


- E o quê você deseja?

Magda Maria Campos Pinto

Feliz aniversário, Isabella!


“Outra vaidade ainda descobri debaixo do sol: há quem viva só e não tem companheiro, nem filho nem irmão, e contudo não pára de trabalhar, nem se saciam os seus olhos de riquezas. Contudo, não reflete, dizendo: “Para quem eu trabalho e me privo de bens?”Nisso também há vaidade e péssima ocupação. É melhor estarem dois juntos do que um sozinho, porque tiram vantagem do seu trabalho: se um cair, será apoiado pelo outro. Ai do que está sozinho: quando cair, não terá quem o ajude a levantar-se. Além disso, ao dormirem dois juntos, vão aquecer-se mutuamente; quem está sozinho, como se aquecerá? Se alguém prevalecer contra um que está sozinho, dois juntos resistirão ao agressor. A corda tripla não se arrebenta facilmente. (Sab 4, 7-12)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Lembrança:


A sabedoria é algo distinto da lógica. A sabedoria é saber e prudência que nascem do coração. (...) A lógica é a prudência convertida em ciência; por isso não serve para nada. Deixa de lado componentes importantes, pois, quer se queira quer não, o homem não é composto apenas de cérebro. (...) espero uma literatura tão ilógica como a minha, que transforme o cosmo num sertão no qual a única realidade seja o inacreditável. A lógica, prezado amigo, é a faca com a qual o homem algum dia haverá de se matar.” (Rosa, 1983, p.92)

Citado em Veredas de Rosa II, Editora PucMinas, 2003, pag. 411

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Não demitimos:

“Minha paixão provoca delicadezas insuportáveis
uma palavra inexata ao telefone
pode ser fatal”. (Maria Rita Kehl)

PERSONA

(Rembrandt - São Paulo na prisão, 1647)
2. Terça-feira

Ele sorri amarelo, vira a cabeça, pisca os olhos, diz que não sabe o que está dizendo, mas sabe que não tem paciência, se sente enganado, traído, sabe que é desconfiado, desconfia de tudo, de todos, e tem boas razões pra isso, mas ao mesmo tempo tem medo de ser injusto, de imaginar coisas; a verdade é que sempre acaba se arrependendo de tudo, tudo, tudo, tudo mesmo. Não tem paz. E só quer a paz. Diz: eu sempre me calei, sabia de tudo que acontecia, mas calava pra não arrumar confusão, queria sossego, queria paz na família, e o jeito era calar. Deixar que falasse o que bem quisesse, mas agora acho que não agüento mais. Deve ser isso, não agüento mais ficar calado, mas não sei falar. Não quero briga, não quero, tenho pavor de escândalo. E não sei o que fazer. Nem me conheço mais, não sei. Tenho vergonha de tudo. E não tenho motivo pra ter vergonha, mas tenho. Talvez seja vergonha de mim. Sou confuso, reconheço. E não tenho paciência. Agora dei pra explodir; fico mais apavorado ainda. De repente, perco o controle, e depois penso que fiz uma tempestade em copo d’água. Não posso mais continuar assim, sei que não está certo, sei de tudo, ninguém liga pra mim, nem me percebe, querem só o meu dinheiro, mas tenho dúvida. Não, não tenho dúvida, é outra coisa, a questão é outra. Acho que tenho medo de ficar sozinho. É isso, acabo suportando porque tenho medo de ficar sozinho. É horrível pensar em ficar sozinho, mas na verdade acho que já me sinto sozinho. Adoro meus filhos, este é o problema, não sei ficar longe deles. Na verdade eu nem pensei em ter filhos, aconteceu, ou foi ela que me enganou? Não sei, acho que não, mas agora não sei viver sem eles. Sei que não vou deixá-los, são meus filhos pra sempre; mas é diferente. Será diferente, e acho que não dou conta disso. Ele se estica, espreguiça, boceja, tosse, sorri amarelo, depois força uma gargalhada e diz que o jeito é rir, o único jeito. Tudo lhe parece estúpido, mas sabe que não é um estúpido, ele não, ele sabe bem o que quer e como são as coisas. Se não fossem as circunstâncias, tudo seria diferente. Diz tal coisa com firmeza, respira fundo, relaxa como se tivesse encontrado a saída. Repete: se não fossem as circunstâncias... É, quer decorar, parece: se não fosse as circunstâncias. Respira fundo outra vez e volta a dizer que sente medo de tudo. Lembra-se da infância, tinha medo da noite, dos pesadelos, dos barulhos estranhos, das pessoas esquisitas que via pela rua. Um dia, um homem o convidou pra dar uma volta de carro, era amigo da família, mas teve medo, de que? Pergunta-se, ele tinha um carro novo, bonito, muito chique. Diz: Eu fiquei olhando pro carro e depois fiquei com medo. Não sei por que, sei que agora tenho medo de tudo. Viajar então... Nem pensar! É uma tortura quando tem que viajar, primeiro imagina todos os desastres possíveis e imagináveis, repete: e imagináveis!, e tem que fazer muitas preces, quer dizer, nem são preces porque não sou muito religioso não, mas, nestas horas, rezo. Tenho de rezar. Já tive fases, já rezei muito, e aconteceram muitas coisas sem explicação, eu não acredito em coincidências, por exemplo, estas coisas incríveis que acontecem, é alguma força desconhecida, eu acho, isto é, é minha opinião, mas de repente penso que é tudo da minha cabeça. E fico na dúvida. É doloroso. Cala-se. E os olhos se enchem de lágrimas. Depois diz que está preocupado com as eleições. Não sabe em quem votar. Odeia estes candidatos, eles não valem nada, é claro que são criminosos, mas o problema é conseguir olhar para o todo, é difícil, e então complica. Vai ter que pensar muito em tudo isso. Tem vergonha de si mesmo porque tem tantas dúvidas, e não consegue discutir suas idéias com as pessoas, elas falam com tanta certeza, com tanta clareza, que suas dúvidas só aumentam. Então não gosta de discutir, mas acha que deveria. É adulto, tem responsabilidade, deveria ser capaz de defender seu ponto de vista. Mas tem medo de passar vergonha. Nunca teve as coisas muito claras em sua cabeça, sente vergonha disso. Está começando a pensar que as coisas não são mesmo tão claras quanto todo mundo acredita; está começando a achar que a vida é mais difícil que imaginava, que desejava, que ter responsabilidade não é brincadeira, que... Cala-se.

- Responsabilidade rima com liberdade. É difícil, não é?
Magda Maria Campos Pinto

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

De Wolf:


“Digo: que se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se faz.” (Guimarães Rosa)

sábado, 23 de outubro de 2010

De Pedro para Lóri:


"Que arriscado e conturbante é a gente se tirar das solidões fortificadas". (Guimarães Rosa)

"Não foram os anos que me envelheceram, longos, lentos, foram alguns minutos". (Cassiano Ricardo)

"Jovens de todo o mundo: envelheçam!" (Nelson Rodrigues)


PS: Percebes como cresci? Usei seus ingredientes em doses generosas. E estou mais feliz ainda, o resultado foi maravilhoso. Eis a verdade: eu me sinto bem. Veja o que encontrei em meu baú. Gracias, muchas gracias. Beso.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PERSONA

(óleo sobre tela de Sabrina Hemmi - )

1. Segunda-feira


Ele diz: a vida é dura, ou então eu sou muito fraco. É, acho que eu sou fraco. E lágrimas envergonhadas escapam. Ele tenta se esconder, o rosto fica vermelho, fogueado. Ele se cala. Um tempo depois diz: eu tenho asma. E diz que está tudo bem, que tem uma vida melhor que a vida da maioria das pessoas, mesmo assim está sofrendo, sabe por que está triste, mas não pode aceitar que esteja triste por causa disso, pois sua vida é melhor que a vida de muitos. Talvez seja uma doença, talvez seja a tal depressão. Não é aceitável que se sinta tão fraco, mas a verdade é que se sente fraco. Lágrimas abundantes, incontroláveis, transbordam e molham seu rosto. Ele abaixa a cabeça pra tentar disfarçar. As lágrimas abundam. Escapa um soluço, e se desculpa. Repete que não pode admitir que sofra tanto por algo tão pequeno. É pequeno, mas não consegue aceitar que tenha quer ser assim. Ele diz que o mundo é perverso, que todo mundo só trata do próprio umbigo e que ele tem vergonha de ser feliz. Ninguém pode, afinal de contas seria um puta egoísmo. Tem o peito apertado, não consegue respirar, não tem vontade de nada, está pesado e cansado. Seria um egoísmo absurdo se sentir bem. Não quer ser apenas mais um egoísta filho-da-puta. Ele odeia esta gente idiota que faz o que todo mundo faz, faz tudo igualzinho. Tem raiva da fraqueza destas pessoas que se sentem incapazes, e pensa: talvez até sejam incapazes mesmo. Mas tem ódio, são umas idiotas. Não consegue conversa. Não tem assunto. Sente-se sempre errado, no lugar errado, e quando fala alguma coisa parece que está falando grego. Sente-se pior porque parece que as pessoas sentem medo. Por isso acha que precisa representar, fingir que aceita, fingir que sente a mesma coisa que outras pessoas sentem, pois se disser a verdade de sua raiva vai acabar assustando todo mundo. Ele mesmo não entende tanta raiva. Tem medo de viver sozinho. E tem mais medo à noite, não dorme, não dorme nunca. Só dorme de cansaço, e tem pesadelos horríveis. Normalmente são sonhos de morte: às vezes mata, às vezes morre. Tudo fica escuro, tenta compreender, se esforça, torce todos os neurônios, mas não entende, não entende tanta crueldade. Nem tão pouco entende tanta bondade. E não consegue saber qual é a mentira, é impossível saber, tudo parece verdade, e tudo pode ser mentira. Não dorme. Gosta da verdade, ou melhor, só admite a verdade, e não pode fazer nenhuma concessão, é perigoso e é errado. A verdade acima de tudo. Sempre a verdade. Está exausto, tão exausto que não consegue descansar pois teria que parar e faz tempo que sua cabeça não pára, simplesmente não pára, vigia a verdade, vigia a si mesmo, vigia o mundo, tudo é tão rápido, exige que seja esperto, não pode distrair, mas a verdade é mesmo que está exausto. E, ao mesmo tempo, tudo parece simples, tranqüilo. Não se importa com sucesso nem com dinheiro. Queria mesmo é viver de arte, sabe que pode fazer muita coisa bonita, gosta de olhar as cores, as flores e de brincar de procurar pequenos tesouros pelas ruas. Às vezes encontra coisas lindas, diferentes, papel molhado por exemplo. Mas apesar da vontade, não tem coragem de pegar. O que pensariam os outros? Que é louco? Não, não é louco, mas tem medo de ficar, pois parece que não se parece com mais ninguém. As pessoas parecem tão tranqüilas, ninguém sente estas bobagens que ele sente. Tem medo, pode ser loucura afinal. Mas não é, tem certeza de que é uma pessoa normal. Mas é verdade que tem uma súbita vontade de chorar muito, e chora. Ainda bem, pois houve um tempo que nunca chorava e pensava que estava tudo bem, e agora acha que naquele tempo estava fora do tempo, noutro lugar, e não tinha consciência. Hoje tem consciência, mas não sabe bem se é uma consciência inteira. Tem dúvidas sobre o sentido desta palavra: consciência, mas acha que é uma palavra importante. Tem vergonha de se sentir assim nestas alturas da vida. Ninguém imagina o que ele sente; ninguém nem sonha nada do que se passa dentro de seu coração, por exemplo: vê se alguém imagina que ele é tímido! Que não sabe falar com uma mulher, e que quer falar com uma mulher, mas também não gosta desta necessidade de ter uma mulher, mas pensa que não seria normal não querer uma mulher, mas de verdade, de verdade mesmo, anda muito cansado de ter que querer uma mulher, e não consegue acreditar nesta história de amor homossexual tranqüilo, todos os homossexuais tranqüilos que conhece devem estar fingindo que tudo está bem tanto quanto ele mesmo finge, finge que é normal. Não sabe por que se embaraça todo e não diz coisa com coisa, e queria apenas dizer que se sente bem. Sem necessidade de se explicar.

- Você não se sente bem.
Magda Maria Campos Pinto

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CONVITE ESPECIAL:

CINEBH 2010

PALAVRA EXATA
Documentário, Cor, Dvcam, 20min, 2009.
Direção:
RICARDO MIRANDA
EXIBIÇÃO:

23/10 sábado 20h Cine Tenda

"...perceber acaba não sendo mais do que uma ocasião de lembrar." - Bergson


Na palavra exata a cartografia da memória. Descobertas da pintura de Ronaldo Miranda. A caixa dos mistérios: dois mundos em um só.

PS: deixe descansar por alguns minutos.



Father And Son (Cat Stevens)



It's not time to make a change
Just relax, take it easy
You're still young, that's your fault
There's so much you have to know
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old
But I'm happy
I was once like you are now
And I know that it's not easy
To be calm when you've found
Something going on
But take your time, think a lot
I think of everything you've got
For you will still be here tomorrow
But your dreams may not
How can I try to explain
When I do he turns away again
And it's always been the same
Same old story
From the moment I could talk
I was ordered to listen
Now there's a way and I know
That I have to go away
I know I have to go
It's not time to make a change
Just sit down and take it slowly
You're still young that's your fault
There's so much you have to go through
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old
But I'm happy
All the times that I've cried
Keeping all the things I knew inside
And it's hard, but it's harder
To ignore it
If they were right I'd agree
But it's them they know, not me
Now there's a way and I know
That i have to go away
I know I have to go

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

De Lóri para Pedro:

Envio-lhe os ingredientes do dia. Você poderá usá-los a seu critério, quanto à ordem, quantidade, etc. O resultado será o mesmo:


(Where do the children play?) + Harold and Maud + Cat Stevens + Father and Son + mel a gosto = Ensina-me a viver. Aguardo retorno.




Where Do The Children Play?

Well, I think it's fine
Buildin' jumbo planes
Or takin' a ride
On a cosmic train.
Switch on Summer
From a slot machine.
Yes, get what you want to, if you want,
'Cause you can get anything.

I know we've come a long way.
We're changin' day to day,
But tell me, where do the children play?

Well, you roll on roads
Over fresh green grass
For your lorry loads
Pumpin' petrol gas
And you make them long
And you make them tough,
But they just go on and on, and it seems
That you can't get off.

Oh, I know we've come a long way.
We're changin' day to day,
But tell me, where do the children play?

Well, you've cracked the sky.
'Scrapers fill the air,
But will you keep on buildin' higher
'Til there's no more room up there?
Will you make us laugh?
Will you make us cry?
Will you tell us when to live?
Will you tell us when to die?

I know we've come a long way.
We're changin' day to day,
But tell me, where do the children play?
Do, do, do, do, do.
Do, do, do, do, do.
Do, do, do, do, do.
Do, do, do, do, do.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pela fantasia:


O unicórnio

“A primeira versão do unicórnio quase coincide com as últimas. Quatrocentos anos antes da era cristã, o grego Ctesias, médico de Artaxerxes Mnêmon, diz que nos reinos do Hindustão há velocíssimos asnos silvestres, de pelagem branca, cabeça purpúrea, olhos azuis, dotados de um afilado corno na testa, que na base é branco, na ponta é vermelho e no meio é inteiramente negro. Plínio acrescenta outros detalhes (VIII,31): ‘na Índia, dão caça a outra fera: o unicórnio, semelhante pelo corpo ao cavalo, pela cabeça ao cervo, pela patas ao elefante, pela cauda ao javali. Seu mugido é grave; um longo e negro corno se eleva em meio a sua testa. Nega-se que possa ser capturado vivo’. O orientalista Schrader, por volta de 1892 pensou que o unicórnio poderia ter sido sugerido aos gregos por certos baixos-relevos persas, que representam touros de perfil, com um só corno.
Na enciclopédia de Isidoro de Sevilha, redigida no começo do século VII, lê-se que uma chifrada do unicórnio costuma matar um elefante; isso lembra a análoga vitória do Karkadan (rinoceronte), na segunda viagem de Simbad.
Outro adversário do unicórnio era o leão, e uma oitava do segundo livro da inextricável epopéia The Faerie Queene registra a forma de combate. O leão se apóia numa árvore; o unicórnio, com a testa baixa, investe contra ele; o leão se afasta para o lado e o unicórnio fica cravado no tronco. A oitava data de século XVI; no início do XVIII, a união do reino da Inglaterra com o reino da Escócia confrontaria nas armas da Grã-Bretanha o leopardo (leão) inglês com o unicórnio escocês.
Na Idade Média, os bestiários ensinam que o unicórnio pode ser capturado por uma donzela; no Phychologus Graecus lê-se: “Como o capturam. Põem-lhe à frente uma virgem e salta ao regaço da virgem e a virgem o abriga com amor e o arrebata ao palácio dos reis”. Uma medalha de Pisanello e muitas e famosas tapeçarias ilustram esse triunfo, cujas aplicações alegóricas são notórias. O Espírito Santo, Jesus Cristo, o mercúrio e o mal têm sido representados pelo unicórnio. A obra Psychologie und Alchemie (Zurique, 1944) de Jung historia e analisa estes simbolismos.
Um cavalinho branco, com as patas traseiras de antílope, barba de cabrito e um chifre longo e retorcido na testa, é a representação habitual deste animal fantástico.
Leonardo da Vinci atribui a captura do unicórnio à sua sensualidade; esta, o faz esquecer sua ferocidade e recostar-se no regaço da donzela, e assim o aprisionam os caçadores.

In O livro dos Seres Imaginários, Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero, Editora Globo, RJ, 1981.

(A dama e o unicórnio, museu D'Orsay)
O Unicórnio Chinês

O unicórnio chinês ou K’i-lin é um dos quatro animais de bom agouro; os outros são o dragão, a fênix e a tartaruga. O unicórnio é o primeiro dos animais quadrúpedes; tem corpo de cervo, cauda de boi e cascos de cavalo; o corno que cresce na testa é feito de carne; a pelagem do lombo é de cinco cores misturadas, a do ventre é parda ou amarela. Não pisoteia o pasto verde e não faz mal a nenhuma criatura. Sua aparição é presságio do nascimento de um rei virtuoso. É de mau agouro que o firam ou que encontrem seu cadáver. Mil anos é o limite natural de sua vida.
Quando a mãe de Confúcio o levava no ventre, os espíritos dos cinco planetas lhe trouxeram um animal ‘que tinha a forma de uma vaca, escamas de dragão, e na testa um corno”. Assim narra Soothill a anunciação; uma variante recolhida por Wilhelm diz que o animal se apresentou sozinho e cuspiu uma lâmina de jade na qual se liam estas palavras: ‘Filho do cristal da montanha (ou da essência da água), quando houver caído a dinastia, mandarás como rei sem insígnias reais’. Setenta anos depois, uns caçadores mataram um K’i-lin que ainda trazia no corno um pedaço de fita que a mãe de Confúcio lhe amarrou. Confúcio foi vê-lo e chorou, porque sentiu o que pressagiava a morte desse misterioso animal e porque na fita estava o passado.
No século XIII, uma ala avançada da cavalaria de Gêngis-Kã, que havia empreendido a invasão da Índia, avistou nos desertos um animal “semelhante ao cervo, com corno na testa, pelagem verde”, que lhes foi ao encontro e lhes disse: ‘Já é hora de que o vosso senhor volte à sua terra’.
Um dos ministros chineses de Gêngis, consultado por ele, explicou que o animal era um chio-tuan, uma variedade do K’i-lin. Quatro invernos fazia que o grande exército guerreava nas regiões ocidentais; o céu, farto de que os homens derramassem o sangue dos homens, havia enviado esse aviso. O imperador desistiu de seus planos bélicos.
Vinte e dois séculos antes da era cristã, um dos juízes de Shun possuía um “cabrito unicorne”, que não agredia os injustamente acusados e que marrava os culpados.
Na Anthologie Raisonnée de La Littérature Chinoise (1948), de Margouliès, aparece este misterioso e tranqüilo apólogo, obra de uma prosador do século IX:
Universalmente se admite que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro; assim afirmam as odes, os anais, as biografias de homens ilustres e outros textos cuja autoridade é indiscutível. Até as crianças e as mulheres do povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. Porém este animal não figura entre os animais domésticos, nem sempre é fácil encontrá-lo, nem se presta a uma classificação. Não é como o cavalo ou o touro, o lobo ou o cervo. Em tais condições, poderíamos estar frente ao unicórnio e não saberíamos com certeza que o é. Sabemos que um certo animal com crina é cavalo e que um certo animal com cornos é touro. Não sabemos como é o unicórnio.

In O livro dos seres imaginários, idem.

CODA: Pra curtir um pouco mais os unicórnios, sugere-se a canção 'O unicórnio azul', na voz de Mercedes Sosa, composição do cubano Sílvio Rodriguez, e dar uma boa espiada nas belíssimas tapeçarias da Idade Média que estão no museu D’Orsay, 'A dama e o unicórnio', objeto de um trabalho de pesquisa de símbolos, que publicaremos a seu tempo.

http://www.youtube.com/watch?v=cGrBuF6oXoM

El Unicornio Azul

(de Silvio Rodríguez )

Mi unicornio azul ayer se me perdió
Pastando lo dejé y desapareció
Cualquier información bien la voy a pagar
Las flores que dejó no me han querido hablar.

Mi unicornio azul ayer se me perdió
no sé si se me fue, no sé si se extravió
Y yo no tengo más que un unicornio azul
Si alguien sabe de él, le ruego información
Cien mil o un millón yo pagaré
Mi unicornio azul, se me ha perdido ayer, se fue.

Mi unicornio y yo hicimos amistad
Un poco con amor, un poco con verdad
Con su cuerno de añil pescaba una canción
Saberla compartir era su vocación.

Mi unicornio azul ayer se me perdió
Y puede parecer acaso una obsesión
Pero no tengo más que un unicornio azul
Y aunque tuviera dos, yo solo quiero aquel
Cualquier información la pagaré
Mi unicornio azul, se me ha perdido ayer, se fue.

(A dama e o unicórnio, museu D'Orsay)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Comemorando o dia do médico:



(...) “No trecho citado no início deste capítulo, Benjamin se refere à desmoralização da experiência. O que seria uma experiência desmoralizada? Uma vivência que não pode ser compartilhada, da qual não se tira lição alguma, excluída do campo humano de produção de sentido. Em Benjamin, a idéia de experiência se refere às vivências comunicáveis. Sua tese é que a modernidade, ao transformar as condições do convívio humano que tornavam possível a transmissão do vivido na forma das narrativas, destruiu a qualidade da experiência. Não devemos perder de vista a hipótese de que tais transformações das condições do convívio estão na origem do sujeito da psicanálise, o neurótico moderno por excelência. Se o liberalismo moderno representou uma enorme expansão no campo da liberdade individual de escolhas de destino, tal alargamento no horizonte dos possíveis cobrou seu preço em termos de desamparo e alienação. O neurótico moderno suporta mal as condições de seu ganho de liberdade, sobretudo porque uma parte desse ganho lhe é expropriada pelo aumento da velocidade. Ao desconhecer os termos do testamento que determina a herança simbólica de seus antepassados, ao representar-se como autor solitário de sua história de vida e de sua escolha de destino em um mundo que torna obsoletos os ensinamentos e as experiências transmitidas pelas gerações anteriores à sua, o sujeito moderno negocia seu desejo na moeda da culpa neurótica.”
In “O tempo e o cão - a atualidade das depressões”, Maria Rita Khel, Boitempo Editorial, SP, 2009. (grifos meus)

domingo, 17 de outubro de 2010

DE AMIGOS:

Nascemos na década de 50, no interior de Minas Gerais, de pais severos e amorosos. De mães duras, e sofridas. Solitárias, é certo. Chegamos à capital em 70, para estudar e mudar o mundo. Éramos severas, amorosas, duras, sofridas, e solitárias. É certo. Estudamos, formamos e fomos trabalhar. Havia a ditadura militar, Beatles e Rolling Stones, a guerra do Vietnã, Woodstock, a maconha, o faça amor não faça a guerra. Casamos. Descasamos. Tivemos filhos porque os desejamos. Somos mulheres amorosas. Caímos trocentas vezes nas mesmas armadilhas. E saímos trocentas e uma vezes. Mas não desistimos. Não morremos nem enlouquecemos, fizemos profundas e definitivas amizades.

O mundo mudou, não conforme queríamos. O amor virou sexo, a guerra virou terror. Maconha virou tráfico, Beatles é uma saudade, a ditadura militar virou ditadura de mercado.

Não mudamos nós, ainda estamos aqui, prontas pra mudar o mundo.
Parabéns pra você, Elde! Parabéns pra seus filhos, pra seus irmãos. É um barato ser amiga de vocês.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

porque estou com saudade:


"Sereias

Ao longo do tempo, as sereias mudam de forma. Seu primeiro historiador, o rapsodo do décimo segundo livro da Odisséia, não nos diz como eram; para Ovídio, são aves de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para Apolônio de Rodes, da metade do corpo para cima são mulheres e para baixo, aves marinhas; para o mestre Tirso de Molina (e para a heráldica), ‘metade mulheres, metade peixes’. Não menos discutível é sua categoria; o dicionário clássico de Lemprière entende que são ninfas, o de Quicherat que são monstros e o de Grimal que são demônios. Moram numa ilha do poente, perto da ilha de Circe, mas o cadáver de uma delas, Partênope, foi encontrado em Campânia, e deu seu nome à famosa cidade que agora se chama Nápoles, e o geógrafo Estrabão viu sua tumba e presenciou os jogos ginásticos que periodicamente eram celebrados para honrar sua memória.
A Odisséia conta que as sereias atraiam e faziam naufragar os navegantes e que Ulisses, para ouvir seu canto, e não perecer, tapou com cera os ouvidos dos remadores e ordenou que o amarrassem ao mastro. Para tentá-lo, as sereias lhe ofereceram o conhecimento de todas as coisas do mundo: ‘Jamais alguém por aqui passou, em nau escura, que não escutasse a melíflua voz que sai de nossas bocas; mas só partiu, de pois de se ter deleitado com ela e de ficar a saber mais coisas, pois conhecemos tudo quanto, por vontade dos deuses, Argivos e Troianos sofreram na vasta Tróia, bem como o que sucede na terra fecunda (Odisséia, XII).
Uma tradição recolhida pelo mitólogo Apolodoro, em seu Biblioteca, conta que Orfeu, da nave dos argonautas, cantou com mais doçura que as sereias e que estas se precipitaram ao mar e se transformaram em rochas, porque sua lei era morrer quando alguém não sentisse seu feitiço.
Também a esfinge se precipitou do alto quando decifraram seu enigma.
No século VI, uma sereia foi capturada e batizada no norte de Gales, e figurou como uma santa em certos almanaques antigos, sob o nome de Murgen. Outra, em 1403, passou por uma brecha de um dique e viveu em Haarlem até o dia de sua morte. Ninguém a compreendia, porém ensinaram-na a fiar e venerava como por instinto a cruz. Um cronista do século XVI argumentou que não era um peixe porque sabia fiar, e que não era uma mulher porque podia viver na água.
O idioma inglês distingue a sereia clássica (siren) das que têm cauda de peixe (mermaids). Na formação desta última imagem teriam influído por analogia os tritões, divindades do cortejo de Poseidon.
No décimo livro da República, oito sereias presidem a revolução dos oito céus concêntricos.
Sereia: suposto animal marinho, lemos num dicionário brutal. "

In O livro dos seres Imaginários, Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero, Editora Globo,RJ, 1981.

Coda: Então... pra mim, são mulheres. Simples mulheres. É isso. E para seu deleite sugiro, Os Contos, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Berlendi & Vertecchia Editores, SP, 2002, onde podemos encontrar um delicioso conto, A sereia.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mais sobre o escrever...

(óleo sobre tela de Sabrina Hemmi)

HENRY MILLER

“O escrever, como a própria vida, é uma viagem de descobrimento. A aventura é de caráter metafísico: é uma maneira de aproximação indireta da vida, de aquisição de uma visão total do universo, não parcial.”
“Frequentemente escrevo coisas que não entendo, embora certo de que logo me parecerão claras e significativas. Tenho fé no homem que está escrevendo, no homem que sou eu, no escritor. E não creio nas palavras mesmo quando as junte um homem mais destro: creio na linguagem, que é algo que está além das palavras, algo do qual as palavras não oferecem mais que uma inadequada ilusão. As palavras não existem separadamente senão nos cérebros dos eruditos, filólogos, etimólogos, etc. As palavras divorciadas da linguagem são coisa morta e não entregam segredos”.
“Como o princípio prístino do universo, como o inconcebível Absoluto - o Um , o Todo -. Assim é o criador, ou seja, o artista se expressa a partir e através da imperfeição. Esta é a tela da vida, o verdadeiro signo do vivente.”
“A arte nada ensina, senão a significação da vida. A grande obra há de ser inevitavelmente obscura, exceto para um punhado de homens, para aqueles que, como próprio autor, estão iniciados nos mistérios”.
“Uma vez que a arte se torne verdadeiramente aceita, deixará de sê-lo. Constitui apenas um substituto, uma linguagem simbólica que substitui algo que há de ser captado diretamente. Mas para que isto seja possível, o homem há de se transformar em um ser cabalmente religioso e não simplesmente em um crente, em um motor primeiro, em um deus em ato. Inevitavelmente chegará a sê-lo. E de todos os rodeios ao longo desta senda, a arte é o mais glorioso, o mais fecundo, o mais instrutivo.”
Citado em "O escritor e seus fantasmas", Ernesto Sábato, Francisco Alves, RJ, 1982.
(Ernesto Sábato, óleo sobre tela)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quando quero colo:


“O mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas é Deus é traiçoeiro! Ah, uma, beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. (Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

Coração americano: CHILE, CHILE.....


Trabajo frío

Dime, del tiempo, resonando
en tu esfera parcial y dulce,
no oyes acaso el sordo gemido?

No sientes de lenta manera,
en trabajo trémulo y ávido,
la insistente noche que vuelve?

Secas sales y sangre aéreas,
Atropellado correr ríos,
temblando el testigo constata.

Aumento oscuro de paredes,
crecimiento brusco de puertas,
delirante población de estímulos,
circulaciones implacables.

Alrededor, de infinito modo,
en propaganda interminable,
de hocico armado y definido,
el espacio hierve y se puebla.

No oyes la constante victoria,
en la carrera de los seres,
del tiempo, lento como el fuego,
seguro y espeso y hercúleo,
acumulando su volumen
y añadiendo su triste hebra?

Como una planta perpetua, aumenta
su delgado y pálido hilo,
mojado de gotas que caen
sin sonido, en la soledad.



(Pablo Neruda – in Residencia en la tierra)

Aos poucos, retornamos ao nosso próprio tempo (cumpriremos a promessa de nos encontrarmos):


Poética

Manuel Bandeira


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo
manifestações de apreço ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho
vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar à mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


(As musas - Eustache Le Sueur)

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu em Recife. Com 17 anos foi para São Paulo a fim de ingressar na Escola Politécnica (1904). No ano seguinte ficou tuberculoso. Por esse motivo, abandonou os estudos, passando temporadas em várias cidades buscando climas mais propícios. Em 1913, vai à Suíça, em busca de tratamento, regressando em 1914 pelo início da Primeira Grande Guerra. Seu primeiro livro é publicado em 1917: A Cinza das Horas. Manuel Bandeira pertence à Primeira Fase do Modernismo Brasileiro. Muito embora não tenha participado da Semana de 22, seu poema Os Sapos provocou reações radicais na segunda noite do evento. O poeta morreu com mais de 80 anos, em 13 de outubro de 1968. Suas principais obras são: Cinza das Horas, Carnaval, O Ritmo Dissoluto, Libertinagem, Lira dos Cinquent'anos, Estrela da Tarde, Estrela da Vida Inteira, Crônicas da Província do Brasil, Itinerário de Pasárgada, Fraude de Papel, entre outras. Foi um grande tradutor.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sou caipira... só queria mostrar meu olhar, meu olhar...

É de sonho e de pó, o destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó, de gibeira o jiló, dessa vida cumprida a só

“Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida”

O meu pai foi peão, minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
Em busca de aventuras
Descasei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi
Me disseram porém que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

(Renato Teixeira)

Criança e poesia:

Emergência

Mário Quintana

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Quer segurar um poema com suas mãos?
Cheirá-lo?
Apertá-lo com força e sentir sua textura?
É simples: olhe, observe, beije uma criança.
No dia das crianças, o clube Quase-Ser-Tão reverencia esses grandes poemas ambulantes, soltos por aí, que nenhum adulto apressado tem tempo pra curtir. Com a carinha linda da Laura, a gente presenteia todo mundo. Beijos, Laurita!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

História e Arte:


“Essas fronteiras bem delimitadas entre a literatura e a história – entre verdades literárias e verdades históricas – são uma prerrogativa das sociedades abertas. Nelas, ambas as tarefas coexistem, independentes e soberanas, ainda que se complementando no desígnio utópico de abranger toda a vida. E, talvez , a maior demonstração de que uma sociedade é aberta , no sentido que Karl Popper deu a essa qualificação, é que nela acontece assim: autônomas e diferentes, as obras de ficção e a história coexistem, sem invadir nem usurpar os domínios e as funções umas das outras.
Nas sociedades fechadas ocorre o contrário. E, por isso, talvez a melhor maneira de definir uma sociedade fechada seja dizer que nela a ficção e a história deixaram de ser coisas distintas, e que passaram a se confundir e a se suplantar, uma à outra, mudando constantemente de identidade, como num baile de máscaras.
Numa sociedade fechada, o poder não se arroga apenas o privilégio de controlar as ações dos homens – o que fazem e o que dizem: aspira também a governar sua fantasia, seus sonhos e, evidentemente, sua memória. Cedo ou tarde, numa sociedade fechada, o passado é objeto de uma manipulação encaminhada para justificar o presente. A história oficial, a única tolerada, é cenário dessas mágicas mudanças, que tornou famosa a enciclopédia soviética (antes da Perestróica): protagonistas que aparecem ou desaparecem sem deixar rastros, sendo redimidos ou expurgados pelo poder, e as ações dos heróis e vilões do passado que mudam, de edição em edição, de símbolo, de valor e de substância, no ritmo das acomodações e reacomodações das camarilhas governantes do presente. (...) Em uma sociedade fechada, a história se impregna de ficção, passa a ser ficção, pois se inventa e se reinventa em virtude da ortodoxia religiosa ou da política contemporânea, ou, mais grosseiramente de acordo com os caprichos dos donos do poder. (...) E as sociedades totalitárias modernas deram um grande impulso à educação, à saúde, ao esporte, ao trabalho, colocando-os ao alcance das maiorias, algo que as sociedades abertas, apesar da sua prosperidade, não conseguiram, pois o preço da liberdade de que desfrutam é pago freqüentemente com tremendas desigualdades de distribuição de renda e – o que é pior – de oportunidades entre seus membros. (...) Porque a vida real, vida verdadeira, nunca foi nem será suficiente para satisfazer os desejo humanos. E porque sem essa insatisfação vital que as mentiras da literatura, por sua vez, incitam e aplacam, jamais existe um progresso autêntico.
A fantasia, da qual somos e estamos dotados, é um dom demoníaco. Está continuamente abrindo um abismo entre o que somos e o que gostaríamos de ser, entre o que temos e o que desejamos. (...) Graças a ela somos mais e somos outros, sem deixar de ser nós mesmos (...). Os homens não vivem somente da verdade; as mentiras também lhes fazem falta: as que inventam livremente, nãos as que lhes são impostas; as que se apresentam como o que são, não as contrabandeadas com a roupagem de história. A ficção enriquece sua existência, completa-a e, transitoriamente, compensa-os dessa trágica condição que é a nossa: a de desejar e sonhar sempre mais do que podemos alcançar”.

in A verdade das mentiras, Mário Vargas Llosa, Editora Arx, SP, 2ª edição, 2005.

sábado, 9 de outubro de 2010

De prêmios, de lutas, de vidas, de amores, de letras... De Política! Graças a Deus!

Então, conheci Mário Vargas Llosa em junho de 1981 quando li Conversa na Catedral, e aconteceu aquilo que me acontece no percurso de leitor compulsivo. Devorei. Naquele tempo eu estava enamorada da literatura latino-americana como todo mundo: Garcia Marques, Borges, Neruda, Guillén, Cortazar, Galeano, Benedetti e tal... Mas tive certeza que Llosa se distinguia pra mim, como também se distinguia o argentino Ernesto Sábato. Não falo de melhor, pior, mais isso ou mais aquilo... Coisa incabível quando se fala de literatura. Apenas se distinguiam. Pronto. E eu gostei. Depois, me encontrei com ‘A guerra do Fim do Mundo’, outro momento forte. Foi ótimo experimentar história brasileira, Euclides da Cunha, e a seriedade realista de Llosa, para descobrir, pouco depois, que Os Sertões também inspirariam Sandor Marai, com quem me encontraria noutra esquina, noutro tempo, num insuperável ‘DE VERDADE’. Bom, em 2005 topei com A verdade das mentiras, e novamente bebi da generosidade de Llosa. Pois é, em 89 eu votei pela primeira vez para presidente da república e vivi muitos estarrecimentos: cai o muro na Alemanha, ufa!, e os estudantes chineses são massacrados na praça Celestial. Irônica, no mínimo, a vida. E um poeta – sempre, um poeta! – pára tanques de guerra com um pedido: ‘por favor, não façam isso’. Mas eles fizeram, e fazem sempre. São surdos. Iletrados, quem sabe? Ah, pois é, me lembro agora que em outubro de 1967, uma criança – que era eu – ficou estarrecida com notícias de um assassinato nas selvas da Bolívia, e que uma jovem – que também era eu - reviveu outro terror em dezembro de 1980 com o assassinato do poeta hippie ativista, e também músico, John Lennon. E agora, prêmio Nobel de Literatura, Mário Llosa. Prêmio Nobel da Paz 2010, Liu Xiaobo. Claro que tudo é política... que assim seja, ou volte a ser, questão de poesia.

John Lennon nasceu há 70 anos:

Nasceu dia 09 de outubro de 1940. Eu ainda te amo, beautiful boy....


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

25.
- Encontrei a epígrafe que você buscava...
- É só isso?
- Estou engasgado. Por favor.
- Tudo bem. Vamos para Paris.
- Não. Vamos para Diamantina.
- Para sempre?
- Veja.
É um leve papel de seda. Escrito na pequena e clara letra de Wolf. Tem perfume. Macela. Wolf é um perfeccionista. E eu estou apaixonada novamente. É um milagre. Leio: “Tal qual ele era eu, esses ombros caídos, essa desgraciosidade. Minha infância aconchega-se ao meu lado. Muito longe para eu pousar nela a mão uma vez ou de leve. A minha é distante e a dele é secreta, como nossos olhos. Segredos silentes, pétreos, moram nos palácios sombrios dos corações de ambos nós dois: segredos exaustos de sua tirania; tiranos desejosos de serem destronados. Ulisses. James Joyce.”
- Eu quero o meu pai!!!
- Eu sabia! Mas você já o tem agora, era sua procura. Encontrei pra você.
- Eu quero o meu pai...
- Você o tem.
- Humm.
- Desculpe, mas detesto o seu romance.
- Eu também.
- Gosto quando você geme esse sorriso.
- É quando fico sem graça.
- Deixa de covardia, vá lá.
- Não consigo.
- Me faça um favor...
- Diga.
- Conte a história de Ulisses.
- Sob o céu de Diamantina.
- OK.

"Dinheiro tem valor quando se gasta.

Um pedaço de papel é um pedaço de papel.

Dinheiro não leva para o céu."

(Arnaldo Antunes, Como é que chama o Nome Disso?)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pra não esquecer:


“A sabedoria é luminosa e nunca murcha. Facilmente é contemplada por aqueles que a amam, e é encontrada pelos que a procuram. Ela até se antecipa, apressando-se a mostrar-se aos que a desejam. Quem por ela madruga não se cansa, pois a encontrará sentada à porta. Meditar sobre ela é a perfeição do bom senso, e quem ficar acordado por causa dela em breve estará seguro. Pois ela mesma sai à procura dos que dela são dignos; cheia de bondade, mostra-se a eles nos caminhos e, em cada projeto, vai ao seu encontro. O princípio da Sabedoria é o mais sincero desejo da instrução; a preocupação pela instrução é o amor; o amor é a observância de suas leis; a observância das leis é garantia de incorruptibilidade, e a incorruptibilidade faz estar junto de Deus. Assim, o desejo da Sabedoria conduz ao Reino. Ó reis dos povos, se vos comprazeis em tronos e cetros, cultivai a Sabedoria e reinareis para sempre.”

(Sab. 6, 12-21)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Lembrete:


5. Porque sou só:


"Todo mundo tem sua riqueza,

só eu pareço desprovido.

Meu espírito é o de um ignorante

porque é muito lento.

Todo mundo é clarividente

só eu estou na obscuridade.

Todo mundo tem o espírito perspicaz

só o meu é confuso

e flutua como o mar, e sopra como o vento.

Todo mundo tem seu objetivo

só eu tenho o espírito obtuso como um camponês.

só eu sou diferente dos outros homens,

porque insisto em sugar o seio de minha Mãe".


(Tao Te King, XX. 85, citado por Roland Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso, Francisco Alves Editora, RJ, 1991)