sábado, 30 de outubro de 2010

Aprendendo:

UMA DIDÁTICA DA INVENÇÃO

I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
Etc.
Etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.


III

Repetir repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.


In Manoel de Barros, O livro das Ignorãças, Civilização Brasileira, RJ,1993.
(continuamos ao longo da semana)

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