segunda-feira, 11 de outubro de 2010

História e Arte:


“Essas fronteiras bem delimitadas entre a literatura e a história – entre verdades literárias e verdades históricas – são uma prerrogativa das sociedades abertas. Nelas, ambas as tarefas coexistem, independentes e soberanas, ainda que se complementando no desígnio utópico de abranger toda a vida. E, talvez , a maior demonstração de que uma sociedade é aberta , no sentido que Karl Popper deu a essa qualificação, é que nela acontece assim: autônomas e diferentes, as obras de ficção e a história coexistem, sem invadir nem usurpar os domínios e as funções umas das outras.
Nas sociedades fechadas ocorre o contrário. E, por isso, talvez a melhor maneira de definir uma sociedade fechada seja dizer que nela a ficção e a história deixaram de ser coisas distintas, e que passaram a se confundir e a se suplantar, uma à outra, mudando constantemente de identidade, como num baile de máscaras.
Numa sociedade fechada, o poder não se arroga apenas o privilégio de controlar as ações dos homens – o que fazem e o que dizem: aspira também a governar sua fantasia, seus sonhos e, evidentemente, sua memória. Cedo ou tarde, numa sociedade fechada, o passado é objeto de uma manipulação encaminhada para justificar o presente. A história oficial, a única tolerada, é cenário dessas mágicas mudanças, que tornou famosa a enciclopédia soviética (antes da Perestróica): protagonistas que aparecem ou desaparecem sem deixar rastros, sendo redimidos ou expurgados pelo poder, e as ações dos heróis e vilões do passado que mudam, de edição em edição, de símbolo, de valor e de substância, no ritmo das acomodações e reacomodações das camarilhas governantes do presente. (...) Em uma sociedade fechada, a história se impregna de ficção, passa a ser ficção, pois se inventa e se reinventa em virtude da ortodoxia religiosa ou da política contemporânea, ou, mais grosseiramente de acordo com os caprichos dos donos do poder. (...) E as sociedades totalitárias modernas deram um grande impulso à educação, à saúde, ao esporte, ao trabalho, colocando-os ao alcance das maiorias, algo que as sociedades abertas, apesar da sua prosperidade, não conseguiram, pois o preço da liberdade de que desfrutam é pago freqüentemente com tremendas desigualdades de distribuição de renda e – o que é pior – de oportunidades entre seus membros. (...) Porque a vida real, vida verdadeira, nunca foi nem será suficiente para satisfazer os desejo humanos. E porque sem essa insatisfação vital que as mentiras da literatura, por sua vez, incitam e aplacam, jamais existe um progresso autêntico.
A fantasia, da qual somos e estamos dotados, é um dom demoníaco. Está continuamente abrindo um abismo entre o que somos e o que gostaríamos de ser, entre o que temos e o que desejamos. (...) Graças a ela somos mais e somos outros, sem deixar de ser nós mesmos (...). Os homens não vivem somente da verdade; as mentiras também lhes fazem falta: as que inventam livremente, nãos as que lhes são impostas; as que se apresentam como o que são, não as contrabandeadas com a roupagem de história. A ficção enriquece sua existência, completa-a e, transitoriamente, compensa-os dessa trágica condição que é a nossa: a de desejar e sonhar sempre mais do que podemos alcançar”.

in A verdade das mentiras, Mário Vargas Llosa, Editora Arx, SP, 2ª edição, 2005.

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