sexta-feira, 1 de outubro de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ



24.
Uau! Eu quero ir banheiro! Não disse que sou intratável? Eu não existo, isto é, existo porque sou impossível. Abuso desse pato feio – poderia eu chamá-lo prato feito... rririririrr... que tanto se assusta com a solicitação de um banheiro, ele interrompe seu grasnar, me arranca da cama e me arrasta qual um saco de batatas, acerta um pontapé em certa porta e lança o saco de batatas que sou eu. Eu estou zonza, não sinto o chão, sinto uma estranha onda quente no mais alto de mim. Minha cabeça? Então uma escalada de dor vem lá de baixo, lá de onde não sei. Em dores penso: pobre homem, vai me matar!! E vejo azulejos azuis diante de mim, talvez seja o chão, e não sejam azulejos, talvez, ah... Os ladrilhos azuis, sereia-no-banheiro-campo-de-flores-da-casa-minha-avó... À dor se soma um calor insuportável que acaba o banho de sereia, sou alguma coisa que ferve, me vejo, tenho uma saia amarela de linho – que bom! Sorrio, me reconheço, tenho uma linda saia de linho amarelo, uma blusa de seda do mesmo tom, não sou, todavia me reconheço: minhas cores, minhas dores... Meus dejetos... É, penso em papel higiênico, pode? É absurda a vida, é insuportável a consciência, ah, o que quer uma mulher? Ora, ora, quantas vezes não se encontrou um imprescindível papel higiênico, imprescindibilidade que mulheres conhecem, ah, foi nos bailes da vida que eu... Volta-se ao começo? Não, não volto, quero ficar aqui no fim, canta-se? Canta-se: coração americano, acordei de um sonho estranho, estava em San Vicente as mulheres e os homens.... E aí o pato grasnado grasna e acerta em mim um ferro - ferro? – é, ferro, frio, uma vez, duas vezes, grasnando ‘eu tou te matando’, e eu chorando rio pensando ‘tolinho, eu escolhi minha morte faz tempo, um tempão... desde que me pus pra que você me matasse, quem decidiu fui eu’, e ele me arrasta pelos cabelos – cabelos?- oh, sim, aprendi a gostar deles, e acontece um pontapé e vejo agora somente a dor, vermelha, sim, esta é uma dor vermelha, quente, fervente. Novo pontapé. Outro. Mais um. Uma outra batida. O mesmo ferro? Talvez, pois agora tudo está absolutamente escuro, quer dizer, não absolutamente, existem pontos brilhantes, é, pontos brilhantes como estrelas mínimas, um dia eu as vi no céu de Diamantina em noite sem lua, lindo é o céu de Diamantina, linda é Diamantina, macia esta palavra, Di-a-man-ti-na, é, eu sei que sou insuportável, ‘pode me bater, pode me prender, que eu não mudo de opinião..’, ‘não à repressão’, ‘abaixo a ditadura’, hummm, tempo ruim, dor, dói, há um terremoto em minhas entranhas, o que são entranhas? Linda palavra, en-tran-nhas, o terremoto se revela, vomito, um vômito que corrói, vomito um vômito ácido, eu, a intratável, e por que me espancam? Ah, sim, é um espancamento, ai, sim, porque não conseguiram dinheiro, é sim, não pagaram por mim, hummm, uau, ouço, Wolf dizia ‘você é impagável’, e ria... , dor, dói, eu rio sangue, sim, aqui agora amo o Wolf que não paga por mim, me espancam, o pato pensa que está me matando, alguém em mim diz ‘o inconsciente é uma peste’, rio, lembro: sempre pensei ‘é preciso saber morrer sem escândalo’, lembro, meu pai dizia ‘é preciso coragem para morrer’, eu amei o meu pai, por quê? Ora, ora, ela gostava de ser meu pai, e agora tudo me aperta, é, aperta, me espreme, me amassa, penso, Wolf é sempre meu.
Parei de respirar. Sim. Parei de respirar, nenhum ar a mais. Há um compacto. E não dói. Não respiro, mas vejo, vejo um céu negro escorrendo... Um céu escorrendo, engraçado, escorrem palavras no céu, tudo é negro, mas posso ler, é um rio? Parece mar, palavras no rio-mar, palavras-ondas, um movimento silente. Esta apatia é aparente. Pensam ao lado, ao lado? É, ao lado pensam: ela morreu. O compacto sente: é a morte. Silente. Eu rimo, o rio-mar-de-palavras vai indo, não é o tempo que se perde com a morte, é o esforço que se vai, vai embora do mundo, ou melhor, vai embora da gente, mas não há mais gente, esta palavra foi embora agora mesmo, ainda há mundo, me confundo, definitivamente rimando, findando. Há mundo, e eu não rio. Nem há rio agora. Há rio-mundo-mar e uma mansa cor violeta na qual tudo se dilui. Sem chamas, é lua. É luz. É mansa. Perene e cálida. Duas palavras bonitas que agora se foram. Parece o amor que eu sou. Fui. Parece. Mas é o luar quente e doce das noites silentes da minha aldeia. The end.
- Corta o ‘The end’.
- Claro.
- Não há lua hoje.
- A gente espera.

Magda Maria Campos Pinto


(Melancolia - A. Durer)

Albrecht Durer (1471-1528). Filho de um ourives de origem húngara, viveu a maior parte de sua vida na Itália. Em 1512 tornou-se pintor da corte Maximiliano I e desde então viveu conviveu na elite intelectual de seu tempo, desenvolvendo trabalhos diversos em diferentes campos: matemático, geógrafo, arquiteto, ensaista, desenhista, gravador.

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