terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pela fantasia:


O unicórnio

“A primeira versão do unicórnio quase coincide com as últimas. Quatrocentos anos antes da era cristã, o grego Ctesias, médico de Artaxerxes Mnêmon, diz que nos reinos do Hindustão há velocíssimos asnos silvestres, de pelagem branca, cabeça purpúrea, olhos azuis, dotados de um afilado corno na testa, que na base é branco, na ponta é vermelho e no meio é inteiramente negro. Plínio acrescenta outros detalhes (VIII,31): ‘na Índia, dão caça a outra fera: o unicórnio, semelhante pelo corpo ao cavalo, pela cabeça ao cervo, pela patas ao elefante, pela cauda ao javali. Seu mugido é grave; um longo e negro corno se eleva em meio a sua testa. Nega-se que possa ser capturado vivo’. O orientalista Schrader, por volta de 1892 pensou que o unicórnio poderia ter sido sugerido aos gregos por certos baixos-relevos persas, que representam touros de perfil, com um só corno.
Na enciclopédia de Isidoro de Sevilha, redigida no começo do século VII, lê-se que uma chifrada do unicórnio costuma matar um elefante; isso lembra a análoga vitória do Karkadan (rinoceronte), na segunda viagem de Simbad.
Outro adversário do unicórnio era o leão, e uma oitava do segundo livro da inextricável epopéia The Faerie Queene registra a forma de combate. O leão se apóia numa árvore; o unicórnio, com a testa baixa, investe contra ele; o leão se afasta para o lado e o unicórnio fica cravado no tronco. A oitava data de século XVI; no início do XVIII, a união do reino da Inglaterra com o reino da Escócia confrontaria nas armas da Grã-Bretanha o leopardo (leão) inglês com o unicórnio escocês.
Na Idade Média, os bestiários ensinam que o unicórnio pode ser capturado por uma donzela; no Phychologus Graecus lê-se: “Como o capturam. Põem-lhe à frente uma virgem e salta ao regaço da virgem e a virgem o abriga com amor e o arrebata ao palácio dos reis”. Uma medalha de Pisanello e muitas e famosas tapeçarias ilustram esse triunfo, cujas aplicações alegóricas são notórias. O Espírito Santo, Jesus Cristo, o mercúrio e o mal têm sido representados pelo unicórnio. A obra Psychologie und Alchemie (Zurique, 1944) de Jung historia e analisa estes simbolismos.
Um cavalinho branco, com as patas traseiras de antílope, barba de cabrito e um chifre longo e retorcido na testa, é a representação habitual deste animal fantástico.
Leonardo da Vinci atribui a captura do unicórnio à sua sensualidade; esta, o faz esquecer sua ferocidade e recostar-se no regaço da donzela, e assim o aprisionam os caçadores.

In O livro dos Seres Imaginários, Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero, Editora Globo, RJ, 1981.

(A dama e o unicórnio, museu D'Orsay)
O Unicórnio Chinês

O unicórnio chinês ou K’i-lin é um dos quatro animais de bom agouro; os outros são o dragão, a fênix e a tartaruga. O unicórnio é o primeiro dos animais quadrúpedes; tem corpo de cervo, cauda de boi e cascos de cavalo; o corno que cresce na testa é feito de carne; a pelagem do lombo é de cinco cores misturadas, a do ventre é parda ou amarela. Não pisoteia o pasto verde e não faz mal a nenhuma criatura. Sua aparição é presságio do nascimento de um rei virtuoso. É de mau agouro que o firam ou que encontrem seu cadáver. Mil anos é o limite natural de sua vida.
Quando a mãe de Confúcio o levava no ventre, os espíritos dos cinco planetas lhe trouxeram um animal ‘que tinha a forma de uma vaca, escamas de dragão, e na testa um corno”. Assim narra Soothill a anunciação; uma variante recolhida por Wilhelm diz que o animal se apresentou sozinho e cuspiu uma lâmina de jade na qual se liam estas palavras: ‘Filho do cristal da montanha (ou da essência da água), quando houver caído a dinastia, mandarás como rei sem insígnias reais’. Setenta anos depois, uns caçadores mataram um K’i-lin que ainda trazia no corno um pedaço de fita que a mãe de Confúcio lhe amarrou. Confúcio foi vê-lo e chorou, porque sentiu o que pressagiava a morte desse misterioso animal e porque na fita estava o passado.
No século XIII, uma ala avançada da cavalaria de Gêngis-Kã, que havia empreendido a invasão da Índia, avistou nos desertos um animal “semelhante ao cervo, com corno na testa, pelagem verde”, que lhes foi ao encontro e lhes disse: ‘Já é hora de que o vosso senhor volte à sua terra’.
Um dos ministros chineses de Gêngis, consultado por ele, explicou que o animal era um chio-tuan, uma variedade do K’i-lin. Quatro invernos fazia que o grande exército guerreava nas regiões ocidentais; o céu, farto de que os homens derramassem o sangue dos homens, havia enviado esse aviso. O imperador desistiu de seus planos bélicos.
Vinte e dois séculos antes da era cristã, um dos juízes de Shun possuía um “cabrito unicorne”, que não agredia os injustamente acusados e que marrava os culpados.
Na Anthologie Raisonnée de La Littérature Chinoise (1948), de Margouliès, aparece este misterioso e tranqüilo apólogo, obra de uma prosador do século IX:
Universalmente se admite que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro; assim afirmam as odes, os anais, as biografias de homens ilustres e outros textos cuja autoridade é indiscutível. Até as crianças e as mulheres do povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. Porém este animal não figura entre os animais domésticos, nem sempre é fácil encontrá-lo, nem se presta a uma classificação. Não é como o cavalo ou o touro, o lobo ou o cervo. Em tais condições, poderíamos estar frente ao unicórnio e não saberíamos com certeza que o é. Sabemos que um certo animal com crina é cavalo e que um certo animal com cornos é touro. Não sabemos como é o unicórnio.

In O livro dos seres imaginários, idem.

CODA: Pra curtir um pouco mais os unicórnios, sugere-se a canção 'O unicórnio azul', na voz de Mercedes Sosa, composição do cubano Sílvio Rodriguez, e dar uma boa espiada nas belíssimas tapeçarias da Idade Média que estão no museu D’Orsay, 'A dama e o unicórnio', objeto de um trabalho de pesquisa de símbolos, que publicaremos a seu tempo.

http://www.youtube.com/watch?v=cGrBuF6oXoM

El Unicornio Azul

(de Silvio Rodríguez )

Mi unicornio azul ayer se me perdió
Pastando lo dejé y desapareció
Cualquier información bien la voy a pagar
Las flores que dejó no me han querido hablar.

Mi unicornio azul ayer se me perdió
no sé si se me fue, no sé si se extravió
Y yo no tengo más que un unicornio azul
Si alguien sabe de él, le ruego información
Cien mil o un millón yo pagaré
Mi unicornio azul, se me ha perdido ayer, se fue.

Mi unicornio y yo hicimos amistad
Un poco con amor, un poco con verdad
Con su cuerno de añil pescaba una canción
Saberla compartir era su vocación.

Mi unicornio azul ayer se me perdió
Y puede parecer acaso una obsesión
Pero no tengo más que un unicornio azul
Y aunque tuviera dos, yo solo quiero aquel
Cualquier información la pagaré
Mi unicornio azul, se me ha perdido ayer, se fue.

(A dama e o unicórnio, museu D'Orsay)

Um comentário:

  1. Essa obra se encontra no Museu Cluny e não no D'orsay.

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