sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PERSONA

(óleo sobre tela de Sabrina Hemmi - )

1. Segunda-feira


Ele diz: a vida é dura, ou então eu sou muito fraco. É, acho que eu sou fraco. E lágrimas envergonhadas escapam. Ele tenta se esconder, o rosto fica vermelho, fogueado. Ele se cala. Um tempo depois diz: eu tenho asma. E diz que está tudo bem, que tem uma vida melhor que a vida da maioria das pessoas, mesmo assim está sofrendo, sabe por que está triste, mas não pode aceitar que esteja triste por causa disso, pois sua vida é melhor que a vida de muitos. Talvez seja uma doença, talvez seja a tal depressão. Não é aceitável que se sinta tão fraco, mas a verdade é que se sente fraco. Lágrimas abundantes, incontroláveis, transbordam e molham seu rosto. Ele abaixa a cabeça pra tentar disfarçar. As lágrimas abundam. Escapa um soluço, e se desculpa. Repete que não pode admitir que sofra tanto por algo tão pequeno. É pequeno, mas não consegue aceitar que tenha quer ser assim. Ele diz que o mundo é perverso, que todo mundo só trata do próprio umbigo e que ele tem vergonha de ser feliz. Ninguém pode, afinal de contas seria um puta egoísmo. Tem o peito apertado, não consegue respirar, não tem vontade de nada, está pesado e cansado. Seria um egoísmo absurdo se sentir bem. Não quer ser apenas mais um egoísta filho-da-puta. Ele odeia esta gente idiota que faz o que todo mundo faz, faz tudo igualzinho. Tem raiva da fraqueza destas pessoas que se sentem incapazes, e pensa: talvez até sejam incapazes mesmo. Mas tem ódio, são umas idiotas. Não consegue conversa. Não tem assunto. Sente-se sempre errado, no lugar errado, e quando fala alguma coisa parece que está falando grego. Sente-se pior porque parece que as pessoas sentem medo. Por isso acha que precisa representar, fingir que aceita, fingir que sente a mesma coisa que outras pessoas sentem, pois se disser a verdade de sua raiva vai acabar assustando todo mundo. Ele mesmo não entende tanta raiva. Tem medo de viver sozinho. E tem mais medo à noite, não dorme, não dorme nunca. Só dorme de cansaço, e tem pesadelos horríveis. Normalmente são sonhos de morte: às vezes mata, às vezes morre. Tudo fica escuro, tenta compreender, se esforça, torce todos os neurônios, mas não entende, não entende tanta crueldade. Nem tão pouco entende tanta bondade. E não consegue saber qual é a mentira, é impossível saber, tudo parece verdade, e tudo pode ser mentira. Não dorme. Gosta da verdade, ou melhor, só admite a verdade, e não pode fazer nenhuma concessão, é perigoso e é errado. A verdade acima de tudo. Sempre a verdade. Está exausto, tão exausto que não consegue descansar pois teria que parar e faz tempo que sua cabeça não pára, simplesmente não pára, vigia a verdade, vigia a si mesmo, vigia o mundo, tudo é tão rápido, exige que seja esperto, não pode distrair, mas a verdade é mesmo que está exausto. E, ao mesmo tempo, tudo parece simples, tranqüilo. Não se importa com sucesso nem com dinheiro. Queria mesmo é viver de arte, sabe que pode fazer muita coisa bonita, gosta de olhar as cores, as flores e de brincar de procurar pequenos tesouros pelas ruas. Às vezes encontra coisas lindas, diferentes, papel molhado por exemplo. Mas apesar da vontade, não tem coragem de pegar. O que pensariam os outros? Que é louco? Não, não é louco, mas tem medo de ficar, pois parece que não se parece com mais ninguém. As pessoas parecem tão tranqüilas, ninguém sente estas bobagens que ele sente. Tem medo, pode ser loucura afinal. Mas não é, tem certeza de que é uma pessoa normal. Mas é verdade que tem uma súbita vontade de chorar muito, e chora. Ainda bem, pois houve um tempo que nunca chorava e pensava que estava tudo bem, e agora acha que naquele tempo estava fora do tempo, noutro lugar, e não tinha consciência. Hoje tem consciência, mas não sabe bem se é uma consciência inteira. Tem dúvidas sobre o sentido desta palavra: consciência, mas acha que é uma palavra importante. Tem vergonha de se sentir assim nestas alturas da vida. Ninguém imagina o que ele sente; ninguém nem sonha nada do que se passa dentro de seu coração, por exemplo: vê se alguém imagina que ele é tímido! Que não sabe falar com uma mulher, e que quer falar com uma mulher, mas também não gosta desta necessidade de ter uma mulher, mas pensa que não seria normal não querer uma mulher, mas de verdade, de verdade mesmo, anda muito cansado de ter que querer uma mulher, e não consegue acreditar nesta história de amor homossexual tranqüilo, todos os homossexuais tranqüilos que conhece devem estar fingindo que tudo está bem tanto quanto ele mesmo finge, finge que é normal. Não sabe por que se embaraça todo e não diz coisa com coisa, e queria apenas dizer que se sente bem. Sem necessidade de se explicar.

- Você não se sente bem.
Magda Maria Campos Pinto

2 comentários:

  1. abri o blog pra matar saudades e eis que encontro esse texto tão sensível... alegria!

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  2. ei, Ana, que saudade!! que bom te 'encontrar' nas ondas líricas do universo... abraço imenso!

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