terça-feira, 26 de outubro de 2010

PERSONA

(Rembrandt - São Paulo na prisão, 1647)
2. Terça-feira

Ele sorri amarelo, vira a cabeça, pisca os olhos, diz que não sabe o que está dizendo, mas sabe que não tem paciência, se sente enganado, traído, sabe que é desconfiado, desconfia de tudo, de todos, e tem boas razões pra isso, mas ao mesmo tempo tem medo de ser injusto, de imaginar coisas; a verdade é que sempre acaba se arrependendo de tudo, tudo, tudo, tudo mesmo. Não tem paz. E só quer a paz. Diz: eu sempre me calei, sabia de tudo que acontecia, mas calava pra não arrumar confusão, queria sossego, queria paz na família, e o jeito era calar. Deixar que falasse o que bem quisesse, mas agora acho que não agüento mais. Deve ser isso, não agüento mais ficar calado, mas não sei falar. Não quero briga, não quero, tenho pavor de escândalo. E não sei o que fazer. Nem me conheço mais, não sei. Tenho vergonha de tudo. E não tenho motivo pra ter vergonha, mas tenho. Talvez seja vergonha de mim. Sou confuso, reconheço. E não tenho paciência. Agora dei pra explodir; fico mais apavorado ainda. De repente, perco o controle, e depois penso que fiz uma tempestade em copo d’água. Não posso mais continuar assim, sei que não está certo, sei de tudo, ninguém liga pra mim, nem me percebe, querem só o meu dinheiro, mas tenho dúvida. Não, não tenho dúvida, é outra coisa, a questão é outra. Acho que tenho medo de ficar sozinho. É isso, acabo suportando porque tenho medo de ficar sozinho. É horrível pensar em ficar sozinho, mas na verdade acho que já me sinto sozinho. Adoro meus filhos, este é o problema, não sei ficar longe deles. Na verdade eu nem pensei em ter filhos, aconteceu, ou foi ela que me enganou? Não sei, acho que não, mas agora não sei viver sem eles. Sei que não vou deixá-los, são meus filhos pra sempre; mas é diferente. Será diferente, e acho que não dou conta disso. Ele se estica, espreguiça, boceja, tosse, sorri amarelo, depois força uma gargalhada e diz que o jeito é rir, o único jeito. Tudo lhe parece estúpido, mas sabe que não é um estúpido, ele não, ele sabe bem o que quer e como são as coisas. Se não fossem as circunstâncias, tudo seria diferente. Diz tal coisa com firmeza, respira fundo, relaxa como se tivesse encontrado a saída. Repete: se não fossem as circunstâncias... É, quer decorar, parece: se não fosse as circunstâncias. Respira fundo outra vez e volta a dizer que sente medo de tudo. Lembra-se da infância, tinha medo da noite, dos pesadelos, dos barulhos estranhos, das pessoas esquisitas que via pela rua. Um dia, um homem o convidou pra dar uma volta de carro, era amigo da família, mas teve medo, de que? Pergunta-se, ele tinha um carro novo, bonito, muito chique. Diz: Eu fiquei olhando pro carro e depois fiquei com medo. Não sei por que, sei que agora tenho medo de tudo. Viajar então... Nem pensar! É uma tortura quando tem que viajar, primeiro imagina todos os desastres possíveis e imagináveis, repete: e imagináveis!, e tem que fazer muitas preces, quer dizer, nem são preces porque não sou muito religioso não, mas, nestas horas, rezo. Tenho de rezar. Já tive fases, já rezei muito, e aconteceram muitas coisas sem explicação, eu não acredito em coincidências, por exemplo, estas coisas incríveis que acontecem, é alguma força desconhecida, eu acho, isto é, é minha opinião, mas de repente penso que é tudo da minha cabeça. E fico na dúvida. É doloroso. Cala-se. E os olhos se enchem de lágrimas. Depois diz que está preocupado com as eleições. Não sabe em quem votar. Odeia estes candidatos, eles não valem nada, é claro que são criminosos, mas o problema é conseguir olhar para o todo, é difícil, e então complica. Vai ter que pensar muito em tudo isso. Tem vergonha de si mesmo porque tem tantas dúvidas, e não consegue discutir suas idéias com as pessoas, elas falam com tanta certeza, com tanta clareza, que suas dúvidas só aumentam. Então não gosta de discutir, mas acha que deveria. É adulto, tem responsabilidade, deveria ser capaz de defender seu ponto de vista. Mas tem medo de passar vergonha. Nunca teve as coisas muito claras em sua cabeça, sente vergonha disso. Está começando a pensar que as coisas não são mesmo tão claras quanto todo mundo acredita; está começando a achar que a vida é mais difícil que imaginava, que desejava, que ter responsabilidade não é brincadeira, que... Cala-se.

- Responsabilidade rima com liberdade. É difícil, não é?
Magda Maria Campos Pinto

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