domingo, 31 de outubro de 2010

REPITO: Eu amo Drummond


Drummond, Carlos, o gauche, nosso amigo, nosso guru, nosso mestre, nosso cúmplice, nasceu a 31 de outubro de 1902, em Itabira, aqui pertim. Amante, companheiro, funcionário público, socialista, comunista, intimista, pessimista, mas nem tanto, sério, mas irônico, racional, mas sensual. É tão bom ser mineiro, é melhor ser mineiro da lavra Drummond. Seu primeiro livro ‘Alguma poesia’ foi lido na FLIP/2010 por Antonio Cícero, Chacal, Ferreira Gulllar e Eucanaã Ferraz. Pura sensação.
CONFISSÃO

Carlos Drummond de Andrade

Não amei bastante meu semelhante,
Não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
Melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
Tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
E tudo que ele implica de suave,
De concordâncias vegetais, murmúrios
De riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
Contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
Que se esfacelou na asa do avião.


(Claro Enigma – 1948-1951)

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