terça-feira, 30 de novembro de 2010

Dica: A mulher que chora


“Morrerei na ida para lá ou na volta?”, perguntou Binu.
As feiticeiras piscaram os olhos rapidamente enquanto examinavam o desenho formado pelos pedaços de casco de tartaruga sobre a esteira. “Você não tem medo da morte?”, perguntaram. “O seu desejo é morrer na volta?”
Binu aquiesceu. “Se eu puder entregar a roupa de frio a Qiliang”, disse, “morrerei feliz.”
As feiticeiras da aldeia dos Gravetos nunca haviam encontrado uma mulher assim. Com uma expressão de censura nos olhos, perguntaram: “Por qual tipo de roupa de frio masculina vale a pena morrer?”
“Roupas de frio para o meu marido, Qiliang: por elas vale a pena morrer”, respondeu Binu.

Su Tong nasceu em Suzhou, na China, em 1963, e hoje vive em Pequim. Autor de romances e contos, teve obras traduzidas para o inglês, o francês, o alemão e o italiano. Em 2009 venceu o Man Asian Literary Prize, a versão asiática do Booker Prize, com o livro “O barco para a redenção”. Seu romance Lanternas Vermelhas foi transformado em filme por Zhag Yimou em 1991.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Festejando Sabrina Hemmi 1: com Drummond


VERBO SER
Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas!
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.


ps: óleo sobre telas de Sabrina Hemmi

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

PERSONA


8. Segunda-feira



Ele está cabisbaixo. O corpo está tenso, mais que isso: está estirado, ou melhor, parece feito de outra matéria, não são músculos, não são ossos. Parece mesmo uma coisa rígida, madeira? Ferro? Ele se arrasta, convido para se sentar, não responde e se deixa cair na cadeira. Faz barulho, a cadeira balança, vacila, ele não, permanece duro, com as pernas esticadas como se nem fossem dele, fossem estranhos apêndices incômodos. Cabisbaixo. Cumprimento, puxo conversa. Não responde, resmunga e não deixa que eu veja os olhos. Não se move, eu insisto, quero conversa, falo do tempo chuvoso e de minha vontade de chorar. Ele não se comove. Mudo. E eu desisto. Me aquieto; sinto rancor e começo a pensar numa maneira de matá-lo. Queria vê-lo morrer sofrendo bastante, sangrando e gemendo. É isso, acho que é isso que ele merece, uma coisa dura assim deveria sofrer radicalmente assim, talvez amaciasse um pouco. Me imagino surrando-o com um porrete, é, amaciando seu corpo a pauladas, como se faz com um bife. Um bom bife. Argh, acho que nunca mais vou comer carne. Mas que me importa? É isso, ele não me interessa, que se dane, que saco! É, acho que não tenho que agüentar isso. Se eu cortasse seu pulso com uma incisão perfeita, com uma lâmina bem fininha que rompesse só a veia eu poderia assistir ele sangrando devagarzinho, o sangue saltaria primeiro com força, com a pressão que ele deve ter agora, mas depois ia cair, e caindo, caindo, depois gotejando... Hummm, mais interessante se eu cortasse as duas veias, uma de cada pulso, e observasse ele perdendo sangue aos poucos, aposto que ele ia amolecer, ia amolecendo... Quando já o vejo assim sangrando, amassado, assim humano, ele resolve falar. Inicia um discurso sobre a injustiça social, a má distribuição de renda, a corrupção dos políticos, cita filósofos. Pensa nas revoluções e na apatia dos povos. Não encontra sentido na vida se não for na luta pelo bem comum. Mas não tem a menor idéia de como fazer isso. Sente-se inviável, sorri como quem não acredita no que acabou de dizer, continua sem jeito, sem conforto, puro trejeito. Não penso mais, só ouço. Ele continua a discursar sobre a falta de sentido da vida não dedicada ao bem comum. E por isso, afirma que é impossível viver dignamente. E levanta a cabeça.
E então, eu percebo a absurda tristeza de seus olhos, a dor em seus braços e pernas estirados. Vejo o horror que enrijeceu o corpo, a injustiça que o silenciou... E então, sinto a esperança que, apesar de tudo, o alimentou. E sou, neste instante, só gratidão. Digo sou gratidão e ele respira um discreto sorriso.


Magda Maria Campos Pinto

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Memoriais 4: Clarice (mais uma vez... são tantas)


“(...) de Ulisses ela aprendera ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo. Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.
A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano. (...)”

In Uma aprendizagem ou O livro dos Prazeres, Clarice Lispector, Edições Sabiá, José Olympio Editora, RJ, 1969.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Para Amel: Beckett 5 (fim)


“(...)
Vladimir: ¿Habré dormido mientras los otros sufrían? ¿Acaso duermo en este instante? Mañana, cuando crea despertar, ¿qué diré acerca de ese día? ¿Qué he esperado a Godot, con Estragon, mi amigo, en este lugar, hasta que cayó la noche? ¿Qué ha pasado Pozzo, con su criado, y que nos ha hablado? Sin duda. Pero ¿qué habrá de verdad en todo esto? (Estragon, que en vano se ha empeñado en descalzarse, vuelve a adormecerse, Vladimir lo mira.) El no sabrá nada. Hablará de los golpes encajados y yo le daré una zanahoria. (Pausa) A caballo entre la tumba y un parto difícil. En el fondo del agujero, pensativamente, el sepulturero prepara sus herramientas. Hay tiempo para envejecer. El aire está lleno de nuestros gritos. (Escucha) Pero la costumbre ensordece. (Mira a Estragon) A mí también, otro me mira, diciéndose: Duerme, no sabe que duerme. (Pausa) No puedo continuar. (Pausa) ¿Qué he dicho? (…)”

In Esperando a Godot, Samuel Beckett, Fabula Tusquets Editores, Barcelona, 2003.

A pedidos: um pouco de Brecht


Os que lutam

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis.




Bertolt Brecht (1898 – 1956) – Antologia Poética – Versão e prefácio de Edmundo Moniz – Elo Editora e Distribuidora Ltda., RJ, 1983:


Pequeno resumo deste prefácio:

Brecht é uma época. Uma época tumultuosa de rebeldia e de protesto. Sua obra reflete basicamente a luta pela emancipação social da humanidade. Usa o materialismo dialético da maneira mais sábia para a revolução estética que se dispôs a promover na poesia e no teatro. O teatro épico e didático caracteriza-se, em Brecht, pelo cunho narrativo e descritivo cujo tema é apresentar os acontecimentos sociais em seu processo dialético: Diverte e faz pensar. É um teatro que atua, ao mesmo tempo, como ciência e como arte. O essencial não é a alienação em si, mas o esforço histórico para a desalienação do homem. O papel do autor dramático não se reduz a reproduzir, em sua obra, a sociedade de seu tempo. O principal objetivo, quer pelo conteúdo, quer pela forma, e exercer uma função transformadora, que atue revolucionariamente sobre o 'ambiente social. Brecht, que passou pelo expressionismo, não ancorou o seu barco em nenhum dos portos das escolas literárias. Apesar de ligado ao Partido Comunista, não se subordinou ao realismo socialista. Ao contrário, opôs-se a ele com ardente tenacidade. Daí a repulsa das autoridades soviéticas pelas suas peças teatrais que foram proibidas de serem representadas na Rússia de Stalin. Muito embora Brecht não se tivesse pronunciado abertamente contra os processos de Moscou, em virtude da pressão que sofreu, no ocidente, sob o pretexto de que o combate a Stalin significava o fortalecimento de Hitler e do nazismo, foi com profundo horror que ele acompanhou os trágicos acontecimentos que levaram os principais dirigentes da revolução russa, companheiros de Lênin, a confessar, antes serem fuzilados, uma série de crimes hediondos que jamais cometeram.
Foram estas falsas confissões, segundo Isaac Deutscher, que levaram Brecht a escrever Galileu Galilei, talvez a mais importante de suas obras dramáticas. Há muito de Kamenev, de Zinoviev e de Bukharin no genial astrônomo que, vítima da Inquisição, atirado no cárcere, diante dos instrumentos de tortura, se viu na contingência de renegar as próprias idéias.
Brecht colocou-se à margem de todo o esquematismo das escolas literárias: Aceitando a concepção de Hegel de que há nos fenômenos artísticos uma realidade superior a uma existência mais verdadeira em comparação com a realidade habitual, chegou a Marx com a extraordinária independência de seu gênio poético e teatral. Como Shakespeare, ele soube usar, na época atual, o heróico e o lírico, o dramático e o cômico, o grave e o ridículo, dando à sua obra um sentido universal. Brecht confessa que, embora a arte e a ciência atuem de modos diferentes, não lhe era possível subsistir como artista sem servir-se da ciência. "Do que necessitamos de fato - escreve Brecht - é de uma arte que domine a natureza, necessitamos de uma realidade moldada pela arte e de uma arte natural". Acrescenta: "Não nos podemos esquecer de que somos filhos de uma era científica". Insiste: "A ciência e a arte têm, de comum, o fato de que ambas existem para simplificar a vida do homem: uma, ocupada com sua subsistência material e a outra, em proporcionar-lhe uma agradável diversão". E conclui: "Tal como a transformação da natureza, a transformação da sociedade é um ato de libertação. Cabe ao teatro de uma época científica transmitir o júbilo desta libertação".
Em 1933, quando Adolfo Hitler, à frente do Terceiro Reich, estabeleceu o nazismo na Alemanha, inaugurando uma nova ordem que, segundo ele, deveria durar dez mil anos, Bertolt Brecht, com trinta e cinco anos de idade, abandonou o país, asilando-se em várias cidades da Europa. Suas obras, em Berlim, foram queimadas em praça pública com tantas outras dos mais famosos escritores da época. No dia em que a Alemanha invadiu a Dinamarca, Brecht, que se encontrava neste país, fugiu para a Finlândia. Dali partiu para Vladivostok, onde embarcou para os Estados Unidos. No exílio, que durou até o fim da Segunda Guerra Mundial, publicou vários poemas que contribuem para sua glória literária tanto como suas peças teatrais. Brecht não se cansou de fustigar violentamente a figura de Hitler, mostrando os crimes do nazismo. De volta à Alemanha, depois do desmoronamento deste regime, continuou a lutar, como marxista, pela causa operária. Ao morrer, em 1956, o mundo inteiro reconhecia a grandeza de sua obra.



“Do rio que tudo arrasta

se diz que é violento

Mas ninguém diz violentas

as margens que o comprimem”

Contribuição à ocupação geral (e antiga) ‘O que querem as mulheres?’3


Negrito

“Logo que nasci

Foi-me dada ordem

De me procurar.

Logo assim e aqui

Não vou ter descanso

Em nenhum lugar.”

(Natércia Freire)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Memoriais 3: Ito, filosofia, mulheres, beatles e vida boa....



Há pouco tempo tivemos uma engraçada e alcoólica discussão filosófica com o jovem e inteligente Bruno (Ito para os íntimos) sobre o significado da McCartney’s song: For no One. Ele se sentia culpado, como todos aqueles que se deixaram sugestionar pelo feminismo reativo. Pois é, eu não ouço assim. Eu ouço que Paul sempre soube que elas mentem quando dizem ‘eu não preciso de você’. A discussão continua aberta. Meu amor por Paul, intocável. Ele não é um ‘ativista’ (para isso tivemos o perfeito John Lennon, e no mais, ninguém é perfeito! oba!), Paul é homem que ama as mulheres, e que não se pergunta ‘afinal o que elas querem?”. Que sejamos cavalheiros? Ohh, just!? Noutras palavras, com licença de Brecht, são os imprescindíveis. I love you, Sir.

For No One
Paul McCartney


Your day breaks,
Your mind aches,
You find that all her words of kindness linger on
When she no longer needs you
She wakes up,
She makes up,
She takes her time and doesn't feel she has to hurry
She no longer needs you
And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years
You want her,
You need her,
And yet you don't believe her when she says her love is dead
You think she needs you
And in her eyes you see nothing
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years
You stay home,
She goes out,
She says that long ago she knew someone, but no ne's gone
She doesn't need him
Your day breaks,
Your mind aches,
There will be times when all the things you said will fill your head
You won't forget her
And in her eyes you see nothing
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years




ps. thanks, Sarah! I love you.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Memoriais 2: Clarice


“Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga,fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

In Felicidade Clandestina , Clarice Lispector, Editora Nova Fronteira, 1981.

domingo, 21 de novembro de 2010

Contribuição à ocupação geral (e antiga) ‘O que querem as mulheres?’ 2

SER

Ser

Embrulho vazado
de onde escorrem
mistérios.


in Pele da Palma, Cristina Lacerda, Editora Siciliano, RJ, 1993.


(A origem do mundo, Gustave Courbert, 1866, Musseu d'Orsay, Paris)

sábado, 20 de novembro de 2010

De Wolf para Estevão:


“(...) Mas não há nenhuma nova ordem nem nenhuma nova desordem amorosa a defender. Muitos padrões de comportamento modelizados e modelizadores, muitos padrões de comportamento rebelde, nenhum padrão. Só quem atravessa é que sabe o segredo de algo que é vivido de maneira singular, constelações que não estão codificadas pela cultura e pela sociedade, puras singularidades. E estas singularidades, dimensão que estamos remetidos quando entramos por esses labirintos, essas singularidades são heréticas, eu digo entre aspas, “heréticas”, porque elas não têm lugar nos códigos dados, nos códigos prontos, movimento que passa pelas malhas das ortodoxias (“Não importa com quem você se deite/ que você se delete seja com quem for/ apenas te peço que aceite/ o meu estranho amor”, Caetano Veloso, Nosso estranho amor). Segredo poético-musical, claríssimo, oculto e óbvio, eclipse oculto, lugar-comum. O que será.” (grifo meu)


In A paixão Dionisíaca em Tristão e Isolda, José Miguel Wisnik, in Os sentidos da paixão, Funarte/Companhia das Letras, Coordenação Adauto Novaes, SP, 1987.

Para Amel: Beckett 3


“(...) não consigo distinguir as palavras a lama abafa ou talvez uma língua estrangeira talvez ele esteja contando um lied no original talvez um estrangeiro


Um oriental meu sonho ele renunciou eu também renunciarei não terei mais desejos


Ele pode falar então isso é o principal ele tem o uso sem ter de fato pensado nisso eu devia ter pensado que ele não tinha não o tendo pessoalmente e um pouco mais em geral sem dúvida que só um modo de ser onde eu era a saber meu modo canção totalmente fora de propósito deveria ter pensado


Momento terrível em todo caso se jamais houve algum que perspectivas isto encerra a primeira fase de nossa vida em comum e libera a segunda e por sua vez última mais fértil em vicissitudes e peripécias a melhor da minha vida talvez melhor momento quero dizer é difícil escolher (...)”


In Como é, Samuel Beckett, Iluminuras, SP, 2003.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PERSONA


7. Domingo


Diz que está com sono, e que queria dormir para sempre. Sorri amarelo, dormir para sempre é quase morrer, mas não digo morrer porque eu sou covarde, talvez porque dormir é melhor que morrer. Quem sabe? Pensei de repente que se eu tivesse descansado ontem, sábado, talvez eu pudesse ressuscitar hoje. Ah, piada sem graça, né? Pior, sem sentido. Afinal, quem descansa sábado é judeu, e quem ressuscita domingo é cristão. Eu não sou uma coisa nem outra. Sabe que sofro de empolgações, não sabe? Pois é, numa dessas cismei de saber tudo sobre esta história complicada de judeu, semita, anti-semita, holocausto, diáspora (ah, o dia que conheci esta palavra, adorei, fiquei repetindo um tempão, tantão de vezes: ‘diáspora’, mas então o professor, eu tava no colégio, ouviu, perguntou em que planeta eu estava e me mandou pra fora de sala, continuei lá fora repetindo di-ás-po-ra, mas verdade é que até hoje não entendo lá muito bem o que é isso, sei o que é, claro que sei, mas não entendo, se pensar um pouquinho mais, não entendo! Dormi muito mal esta noite, resolvi começar a ler Freud. Um judeu, né? Ou alemão? Arre! Tá vendo? Num dá pra entender direito, melhor não querer entender. Ah, lembrei, já sei, melhor não querer que tudo seja entendível, né? Entendi. Acho que o Freud pensou nisso, que as coisas não eram só entendíveis, mas também desintendíveis (esta palavra ficou feia né?, é, mas você entendeu, não entendeu?). Cala-se. Vejo-o cansado e triste. Vejo também que não gosta de se sentir triste, briga com isso, ou melhor, briga com alguém que não vê razões para que ele se entristeça. Eu penso diferente, acho que são muitas as razões pra que ele se entristeça, tenho até medo de pensar que o justo mesmo é ser triste e quando penso nisso tenho mais medo porque me sinto como ele, me sinto misturada, e decido: melhor não pensar. Ah! Olha ele aí de novo. Droga. Hoje é domingo. Não importa, hoje é domingo e pra mim domingo é bonito. É cheiroso. É macio, e acho que tem cheiro de Deus, não me importa se isso tem ou não tem sentido, se Deus existe ou já morreu, pra mim domingo tem cheiro de Deus, e é um cheiro bom, cheiro que ficou em mim, não sei desde quando, mas está em mim, acho mesmo que gosto muito deste cheiro de Deus em mim. Ele continua falando, não ouço, não quero ouvir mais, prefiro ficar olhando pra ele. Ele é muito bonito, mas não sabe disso. É bom, não sabe também. É um homem, nem desconfia.


Magda Maria Campos Pinto

Para Amel: Beckett 4

“Sim, eu a amava, é o nome que eu dava, que ainda dou, ai de mim, ao que eu fazia, naquela época”


“(...) um dia pedi a ela para me trazer um jacinto, vivo, num vaso. Ela trouxe e o colocou no consolo da lareira. Só restava, no meu quarto, o consolo da lareira para por objetos, a não ser que fossem postos no chão. Eu não passava um dia sem ver meu jacinto. Era cor-de-rosa. Eu teria preferido um azul. No começo ele ia bem, chegou a dar algumas flores, depois capitulou, logo não passou de um caule flácido entre folhas chorosas. O bulbo, metade para fora da terra, como se em busca de oxigênio, cheirava mal. Anne queria levá-lo, mas eu disse para deixá-lo. Ela queira me comprar outro, mas eu disse que não queria outro. O que me incomodava mais eram outros ruídos, risinhos e gemidos abafados, que enchiam o apartamento em certas horas, tanto de dia quanto à noite. Eu não pensava mais em Anne, nem um pouco, mas tinha assim mesmo necessidade de silêncio, para viver a minha vida. Por mais que eu raciocinasse, me dissesse que o ar é feito para transportar os barulhos do mundo, incluindo inevitavelmente risos e gemidos, aquilo não deixava de me afetar. Eu não conseguia concluir se era sempre o mesmo sujeito ou se havia vários. Os risinhos e gemidos se parecem tanto, entre si! Eu tinha tanto horror, naquela época, dessas miseráveis perplexidades que toda vez eu caia na armadilha, isto é, tentava tirar a limpo. (...)”


In Primeiro Amor, Samuel Beckett, Cosac & Naify, SP, 2004.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

De Estevão para Wolf:


“(...) Quando fugimos ou combatemos o estrangeiro, lutamos contra nosso inconsciente, este impróprio do nosso impossível próprio. Delicadamente, analiticamente, Freud não fala dos estrangeiros: ele nos ensina a descobrir a estraneidade dentro de nós. E este talvez seja o único modo de não persegui-la fora.”


In Estrangeiros para nós mesmos, Júlia Kristeva, Rocco, SP, 1994.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Para Amel: Beckett 2


“(...) momentos passados velhos sonhos de volta outra vez ou novos como os que passam ou coisas coisas sempre e memórias eu as digo como ouço murmuro-as na lama


Em mim que estavam fora quando a ofegação pára sobras de uma voz antiga em mim não minha


Minha vida último estado última versão mal-dita mal-ouvida mal-recapturada mal-murmurada na lama breves movimentos da face inferior perdas por toda parte


Registrada entretanto é melhor de algum modo em algum lugar como está como surge minha vida meus momentos nem a milionésima parte tudo perdido quase tudo alguém ouvindo outro anotando ou o mesmo (...)”


In Como é, Samuel Beckett, Iluminuras, SP, 2003.

PERSONA


6. Sábado


Ele chega amável como sempre, me abraça, está cada dia mais bonito, mais animado. Inteligente, curioso, sempre tem novidades pra contar. Começou a se vestir bem, a vencer uma timidez de raiz e a se enfeitar discretamente. Fala tranquilo, está solto, cheio de imaginação, de desejos, planos ousados, quer andar pelo mundo, conhecer muitos povos, conhecer pessoas diferentes, quanto mais diferentes melhor, quer andar pela Ásia, África, América e onde mais o vento levar. Quer se casar, ter muitos filhos, muitos filhos? É, sabe que isso é contracorrente, sabe que o mundo está mal, que as pessoas estão desagradáveis, perversas, e tudo isso que todo mundo fala, fala, fala... mas pensa que falam sem pensar, e como ele gosta de pensar muito, também na contra-mão (sorri abertamente, diz estar se acostumando a viver na contramão, hoje não sofre tanto, quase acostumado...), é isso, gosta de pensar e pensa que a única maneira de melhorar nossas condições de vida, é, entre outras coisas, naturalmente, ter filhos, cuidar muito bem deles, desenterrar a delicadeza, acordar a gentileza, esquecer esta competição idiota, esta idiota mania de ganhar dinheiro, de ter uma profissão de sucesso, por que sucesso quer dizer profissão de destaque?, ora, ora, já sabe sim, é porque todo quer reconhecimento, isso é sério, necessário, você não acha?, é, antes ele pensava que não precisava de reconhecimento nenhum, hoje pensa diferente, pensa que ser reconhecido é fundamental, mas não quer ser reconhecido como qualquer um, aí está a questão, é isso, por isso está assim alegre, quer ser reconhecido diferente, é verdade... Não é arrogância, é?, não, acho que não pois sou uma pessoa simples, nem gosto de gente demais perto de mim, gosto de gente diferente, gosto de novidades, entende? E todo mundo quer só uma profissão de sucesso porque é a maneira de ganhar dinheiro, e dinheiro quer dizer tudo, ou seja, tudo que todo mundo pensa que quer, verdade, é uma grande confusão, todo mundo está certo que dinheiro pode virar qualquer coisa, imagine, dinheiro atualmente vira respeitabilidade, caráter, conforto, saúde.... Imagine. Mas ele não pensa assim, acha tudo isso ridículo, risível, absurdo. Pra não dizer nojento, pois de fato tem um enorme nojo de tudo isso, tem algum receio de ser mal interpretado, algum, na verdade é sempre mal interpretado, não se adapta, acaba brigando, acaba se sentindo mal, mas tem antipatia até mesmo do mal estar que sente, pois não tem dúvida de si mesmo, não tem dúvida da vida horrível que todos vivem hoje, tem nojo desse consenso em torno do dinheiro. É certo que em alguns dias tem vontade de se livrar de tudo, sente-se cansado, e até triste. Muito triste às vezes. É que não entende por que as pessoas insistem em coisas como mentir, trair, tirar vantagens pessoais, buscar o poder individual. Não entende mesmo! É tão fácil perceber o vazio, a burrice, a mesmice, a mediocridade geral de tudo. Economia, economia, economia. Violência, violência, violência. Cansei, ele diz. Não te disse que cansei de ser infeliz? Disse? Direitos humanos!! Oh, preguiça. Ninguém vê? Não, ninguém vê. Sabe o que é pior? Às vezes, as pessoas são tão truculentas que conseguem me assombrar, fico arrasado e até duvido de mim, é verdade, duvido de mim, fico pensando se não sou eu o errado, o torto, o idiota. Olho, e até penso que as pessoas estão felizes, mas olho de novo e vejo a verdade. Desculpe, desculpe mesmo, mas só vejo merda. Os olhos dele aumentam de repente, crescem e se enchem de lágrimas. Sorri timidamente, e diz: vê como sou esquisito? De repente, me emociono. Me diga você, por favor, eu sou louco? Ah, nem adianta você falar, eu sei que não sou louco, só não sou normal, eu sei, não entendo por que as pessoas são tão más, tão ridiculamente infelizes, tão miseravelmente rasas... Não gosto deste jeito que você olha pra mim, vai me xingar? Tou falando besteira? Sou um idiota? Sou. Sou um idiota.
- Eu te adoro.
Ele sorri muito sem graça, depois gargalha e diz: você é louca, mas acho que não é idiota.
- É?
- Adoro crianças.


Magda Maria Campos Pinto

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Para Amel: falaremos em Samuel Beckett por alguns dias

“(...) Eu conhecia mal as mulheres, naquela época. Ainda as conheço mal, aliás. Os homens também. Os animais também. O que conheço menos mal são minhas dores. Penso nelas todas, todos os dias, é rápido, o pensamento vai tão depressa, mas elas não vêm todas do pensamento. Sim, há momentos, principalmente à tarde, em que me sinto sincretista, à maneira de Reinhold. Que equilíbrio. Aliás, conheço mal também minhas dores. Isso deve ser porque não sou apenas dor. Aí está a astúcia. Então me afasto, até o espanto, até a admiração, como de um outro planeta. Raramente, mas é o bastante. Nada cretina, a vida. Ser apenas dor, como simplificaria as coisas! Ser todo-dolente! Mas isso seria concorrência, e desleal. Eu lhes contarei assim mesmo, um dia se me lembrar, e tomara que consiga, minhas estranhas dores, em detalhes, e distinguindo-as bem, para maior clareza. Falarei das dores do entendimento, as do coração ou afetivas, as da alma (muito simpáticas, as da alma) e depois as do corpo, primeiro as internas ou ocultas, depois as da superfície, começando pelos cabelos e descendo metodicamente e sem pressa até os pés, abrigo dos calos, cãibras, joanetes, unhas encravadas, frieiras, pés-de-atleta e outras esquisitices."

In Primeiro Amor, Samuel Beckett, Cosac & Naify, 2004.

Samuel Beckett nasceu em 13 de abril de 1906 em Dublin, na Irlanda e morreu em 22 de dezembro de 1989, em Paris, na França. É considerado um dos principais dramaturgos do século XX, tem uma vasta obra, traduzida em vários idiomas. Filho de uma família burguesa e protestante, formou-se em literatura, italiano e francês. Em 1928 foi lecionar em Paris, onde conheceu e tornou-se amigo de James Joyce. Vinculou-se à resistência francesa durante a segunda guerra. Em 1969, Beckett ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Durante a vida escreveu poemas e textos em prosa, como romances, novelas, contos e ensaios, além de textos para o teatro, o cinema, o rádio e a televisão.
Depois da peça “Esperando Godot”, é chamado, juntamente com Ionesco, fundador do teatro do absurdo.Samuel Beckett morreu em 1989, cinco meses depois de sua esposa. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Uma didática da invenção (conclusão)

XIX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
Era a imagem de um vidro mole que fazia uma
Volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
Que o rio faz por trás de sua casa se chama
Enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
Que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

XX

Lembro um menino repetindo as tardes naquele quintal.


XXI

Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais
Ou no Viterbo –
A fim de consertar a minha ignorãça,
Mas só acrescenta.
- Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
- Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
Ou no verso das folhinhas:
- Conhece-te a ti mesmo.
Ou na boca do povinho:
- Coisa que não acaba no mundo é gente besta
E pau seco.
Etc.
Etc.
etc.
Maior que o infinito é a encomenda.
....

in O livro das Ignorãças, Manoel de Barros, op. cit.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

PERSONA


5. Sexta-feira

Hoje ele acordou feliz. Dormiu toda a noite, e jura que não teve sonhos. Talvez na verdade não se lembre deles, admite. Mas o que importa é que hoje acordou feliz. Não entende isso, e quase fica nervoso por causa disso. Esta vida é mesmo uma idiotice, ou qualquer coisa incompreensível. E também não aceita nenhuma das duas hipóteses; afinal adora muitas coisas da vida, tem muita gente boa, tem gente inacreditavelmente boa, e já viveu dias felizes. Tem que ser justo, pois foi assim, foi feliz muitas vezes, é verdade que ele é uma pessoa meio diferente, ou muito diferente, sabe-se lá, não quer parecer arrogante mas é assim mesmo que são as coisas, pois as coisas que o fazem feliz, felicérrimo! (ri macio, tranqüilo, bonito, e acrescenta: esta palavra não existe, né? Eu sei, mas gosto dela mesmo assim, pois é, de repente fico encantado, sei lá, coisas indizíveis, que não agradam à maioria das pessoas). E o pior, a maioria das coisas que fazem as pessoas felizes não lhe importam definitivamente. Quase não suporta tais coisas, e disso ele tem medo. É. Medo, pois muitas vezes explode, briga, berra, quer matar, e depois... depois se sente um idiota. Mas não pode fazer nada, é a mais pura verdade que odeia quase tudo que o povo gosta, assim tipo festa de natal, churrasco de domingo, cervejada, bebedeira.... sei lá, será que estou ficando velho? É isso?, não, não é, é verdade que já gostei, mentira, tentei gostar dessas coisas todas, e porque não gostava me sentia errado, só podia ser, afinal todo mundo tava se divertindo, enchendo a cara, pegando mulher, contando piada e eu lá.... tentando ser assim, juro que tentei, juro. Mas não deu. Não dá. Eu sou louco? Não. Acho que não. O meu problema é que gosto de pensar, é verdade, gosto mesmo, mas o problema também é que estou mudando, esquisito isto, estou mudando, eu era muito nervoso, e agora... bom, sou nervoso mas não tanto, e não me importo mais. É isso. Tou querendo viver minha vida, já disse que estou cansado de ser infeliz, pois é, não disse? Tou falando demais, isso também é novo, eu era muito calado, mas não falo com todo mundo não, mas falo muito mais que antes. Esquisita a vida, você não acha? , é , me lembro agora que um dia, há muito tempo, nem sei mais há quantos anos, eu estava no colégio e era o patinho feio da turma, ninguém me dava a mínima, não conversavam comigo, alguma coisa estava errada comigo, não sei o que era, mas aí eu tava dizendo que a turma ficou tipo em pânico porque o professor de português mandou, assim do nada, a gente fazer uma redação na hora, e nem deu um tema, disse que a gente escrevesse o que quisesse, e se sentou lá na mesa dele, abriu um livro e ficou lá, calado, lendo e esperando. Acho que ele tava num dia ruim, sem saco pra nada, eu acho. Eu nem liguei, achei foi bom e escrevi, pois eu já escrevia todo dia meu diário, escrevia escondido, mas escrevia. Naquele dia fiz como se estivesse escrevendo meu diário. Sabe o que aconteceu? A turma ficou suando, suspirando, e o professor lá, parado esperando. O cara do meu lado, que nunca falava comigo, me pediu, pelo amor de Deus!, baixinho, pra eu escrever pra ele, era minha chance, eu pensei, de fazer amizade com ele, e escrevi, me lembro, escrevi uma coisa chamada ‘Esquisitices”, ele tirou 10 e eu tirei 6, pra mim foi um vexame, claro!, mas fiquei tranqüilo porque agora ele seria meu amigo. Engano total. Ele nem me deu bola, e ainda abusou do meu 6. Mas agora, hoje, nem ligo. Pois é, importa é que hoje acordei feliz. Esquisito, né?

- É tão bom te ouvir.


Magda Maria Campos Pinto

FELIZ ANIVERSÁRIO, DONA BERNADETE!


E mais um pouquinho de poesia pra acompanhar seu dia, suas horas, seus minutos. Com nosso desejo que você se torne poesia por inteiro.


“(...) Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, ao fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas –
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida. (...)


In Passagem das horas, Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Obra Completa, Nova Aguilar, RJ, 1986.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Continuação: Uma didática da invenção



XII

Pegar no espaço contigüidades verbais é o

Mesmo que pegar mosca no hospício para dar

Banho nelas.

Essa é uma prática sem dor.

É como estar amanhecido a pássaros.

Qualquer defeito vegetal de um pássaro pode

Modificar os seus gorjeios.

XIII

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:

Elas desejam ser olhadas de azul –

Que nem uma criança que você olha de ave.

XIV


Poesia é voar fora da asa.

XV


Aos blocos semânticos dar equilíbrio. Onde o abstrato

entre, amarre com arame. Ao lado de

um primal deixe um termo erudito. Aplique na

aridez intumescências. Encoste um cago ao

sublime. E no solene um pênis sujo.

XVI

Entra um chamamento de luxúria em mim:

Ela há de se deitar sobre meu corpo em toda

A espessura de sua boca!

Agora estou varado de entremências.

(Sou pervertido pelas castidades? Santificado

Pelas imundícias?)

Há certas frases que se iluminam pelo opaco.

XVII

Em casa de caramujo até o sol encarde.

XVIII


As coisas da terra lhe davam gala.

Se batesse um azul no horizonte seu olho

entoasse.

Todos lhe ensinavam para inútil

Aves faziam bosta nos seus cabelos.


in Manoel de Barros, Uma didática da invenção, op. cit.

Telas de Sabrina Hemmi, óleo sobre tela.