quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Continuação: Uma didática da invenção



XII

Pegar no espaço contigüidades verbais é o

Mesmo que pegar mosca no hospício para dar

Banho nelas.

Essa é uma prática sem dor.

É como estar amanhecido a pássaros.

Qualquer defeito vegetal de um pássaro pode

Modificar os seus gorjeios.

XIII

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:

Elas desejam ser olhadas de azul –

Que nem uma criança que você olha de ave.

XIV


Poesia é voar fora da asa.

XV


Aos blocos semânticos dar equilíbrio. Onde o abstrato

entre, amarre com arame. Ao lado de

um primal deixe um termo erudito. Aplique na

aridez intumescências. Encoste um cago ao

sublime. E no solene um pênis sujo.

XVI

Entra um chamamento de luxúria em mim:

Ela há de se deitar sobre meu corpo em toda

A espessura de sua boca!

Agora estou varado de entremências.

(Sou pervertido pelas castidades? Santificado

Pelas imundícias?)

Há certas frases que se iluminam pelo opaco.

XVII

Em casa de caramujo até o sol encarde.

XVIII


As coisas da terra lhe davam gala.

Se batesse um azul no horizonte seu olho

entoasse.

Todos lhe ensinavam para inútil

Aves faziam bosta nos seus cabelos.


in Manoel de Barros, Uma didática da invenção, op. cit.

Telas de Sabrina Hemmi, óleo sobre tela.


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