segunda-feira, 1 de novembro de 2010

CONTINUANDO: Uma didática da invenção

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
Escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.



V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.



VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças.



(Halcione, Herbert James Draper, 1863-1920- detalhe)


VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo está no começo, lá
Onde a criança diz: Eu escuto a voz dos
Passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é a voz de poeta, que é a voz
De fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.

in O livro das Ignorãças, Manoel de Barros, op. cit.

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