segunda-feira, 8 de novembro de 2010

De Estevão para Wolf:


“As pedras falam! Conseguir ler e entender a língua daquilo que aconteceu (e continua acontecendo) é a intenção que serve de ponto de partida para a clínica freudiana. O inconsciente fala as suas línguas, traça seus hieróglifos, aciona as suas lógicas. Questão de sintaxe e de sentido. A clínica inaugurada por Freud começa em uma instância lingüística, desenvolve-se como um trabalho de tradução e de transposição, realiza-se como uma obra pragmática. Ele parte da Babel da ‘patologia’ clássica: sua arte da escuta lhe permite, contudo, distinguir idiomas desconhecidos. Assim, tentando e tornando a tentar, busca traduzir as formações do inconsciente, os sintomas, o carnaval das imagens, as pedras e o chuvisco da cena psíquica em uma teoria metapsicológica. ‘O inconsciente é estruturado como uma linguagem’, dirá Jacques Lacan.

‘O deus das viagens’, escreve Rilke, é o deus do ‘anúncio distante’. Freud encontra o anúncio perambulando, na mistura de fronteiras e línguas. Se tivesse escolhido ater-se, burguesamente, à carreira universitária, não haveria aventura e empresa. Quando recorre à metáfora do explorador, parte da própria experiência clínica. É peremptório: o analisando que diga o que lhe passa pela cabeça, sem desprezar nada, nem mesmo as coisas que parecem mais absurdas, estranhas, inacreditáveis. Ou seja: pode-se enganar, esquivar, desviar, trair a literalidade, mas a letra não pode, materialmente, enganar. Não que a letra mate. Sua obra é (ou será) antes uma obra de justiça. O inconsciente não se deixa trair. As formações do inconsciente aderem a um princípio de justiça psíquica. Não há artimanha da neurose que possa sobrepujar essa justiça. Trata-se de direito público e não de direito privado, pois o inconsciente é regido por uma troca entre ímpares e não entre iguais. O deus do anúncio, para Freud, é o inconsciente, um aliado impessoal, inteligente, leal. Subordina-se a uma lei e a uma justiça próprias, conhece várias línguas e idiomas, vale-se de engenho e de recursos. E muito mais ainda. (...)

In As cidades de Freud, Giancarlo Ricci, Jorge Zahar Editor, 2005.


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