segunda-feira, 8 de novembro de 2010

De Lóri para Pedro:


CARTA

Cecília Meireles

Eu, sim. – Mas a estrela da tarde, que subia e descia o céu, cansada e esquecida?

Mas os pobres, batendo às portas, sem resultado, pregando à noite e o dia com seu punho seco?

Mas as crianças, que gritavam de coração alarmado: ‘por que ninguém nos responde?’

Mas os caminhos, mas os caminhos vazios, com suas mãos estendidas à toa?

Ah! – Eu, sim – porque já chorei tudo, e despi meu corpo usado e triste,

E as minhas lágrimas o lavaram, e o silêncio da noite o enxugou.

Mas os mortos, que dentro do chão sonhavam com pombos leves e flores claras,

Mas os que no meio do mar pensavam na mensagem que a praia desenrolaria rapidamente até seus dedos...

Mas os que adormeceram, de tão excessiva vigília – e eu não sei mais se acordarão...

E os que morreram de tanta espera... – e que não sei se foram salvos.

Eu sim. Mas tudo isso, todos esses olhos postados em ti, no alto da vida,

Não sei se te olharão como eu,

renascida de mim, e desprovida de vinganças,

no dia em que precisares de perdão.

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