quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MEMORIAIS 1 . WIN WENDERS


Há agora em mim uma urgência de verdade. Hoje chamo assim: ânsia de verdade, entretanto a mim parece que tal urgência, ou quem sabe tal verdade, é tão antiga quanto minha própria vida. Sinto-me estranhamente íntima de mim mesmo. Sinto-me também deliciosamente antiga, reconhecendo minhas coisas, trens, atitudes, modos, minas, montes, vidas, mortes e especialmente, muito especialmente, amores. Sinto-me também reconhecendo os trens, coisas, e tais alheios. Naturalmente. Melhor diria dizendo: vejo agora o alheio, o não eu. Calmamente me entrego. A mim. E me ofereço o desejado vinho antigo. Saboroso, enfim. Especialmente, amores. Especialmente amor. Lembranças são reconhecimentos. Em 1971 eu vagava como zumbi nesta vida, conduzida por desconhecido radar que me conduzia sempre a uma sala de cinema, e lá, desligava-se o radar e eu sentia: um gosto de além, o modo da paz. Entrava em qualquer sala e logo pulava tela adentro, e então vivia. Não importava em que língua, não importava entender nada, não entendia, apenas vivia aquilo que ali se vivia, e no mais, dormitava entre um filme e outro. Não me ficavam nomes, detalhes técnicos, gêneros, não importava; para mim era a vida, e vida não carece legenda. Por vezes, a sintonia foi tão forte, a história tão inteira, que o filme durava em mim semanas, meses. Anos depois, quando eu já havia conhecido Freud, Marx, Lévi-Strauss, Darwin, Nietzsche, entre outros alucinados, pensei uma bela racionalização. Lembrei-me de como conheci o meu pai. Direi melhor, lembrei-me de como me apaixonei pela primeira vez pelo meu pai. Eu conheci o meu pai no cinema. No final dos anos 40 ele fugira do exército no Rio de Janeiro onde ficara detido por causa da guerra; encontrou-se nos confins das Minas Gerais, numa aldeia em que nasci na metade dos anos 50. Entre os sonhos adquiridos na antiga capital do país ele trouxe consigo a paixão pelo cinema; juntou-se a dois outros ensandecidos e fundou o Cine Lili. Estávamos a cerca de trezentos quilômetros da capital do estado, estrada de terra. Montanhas, rios, poeira ou lama. Mas os três mosqueteiros se revezavam e corriam até a capital, pegavam um rolo emprestado em algum cinema, corriam de volta á aldeia, exibiam o filme (que naturalmente arrebentava algumas vezes, ou perdia o som, ou o projetista se embriagava e então... então a gente esperava ele se curar do porre pois o filme é que não se podia perder). Foi assim. Ou quase assim, pois não identifiquei ainda o D’Artagnan desta história, desconheço – nego? – vozes onde revejo cenas, e enfim, tampouco o divã me contou por inteiro a história do meu amor pelo cinema. Ah, Freud. Que amo. Que hoje, na verdade, na ânsia que me toma, devo admitir, declarar, assumir, gritar, que é uma paixão que tem um nome: Win Wenders. Quero dizer e escrever isso, incluindo a insanidade de dizer, a estas alturas da vida (são babélicas), que este filme é muito longo, que já dura décadas, e digo afinal, como se quinze anos eu tivesse: Wim Wenders é o meu amor. Por ele faço tudo o que ele sonhar. Posso contar esta história, mas hoje não quero. Posso dizer que, hoje, sei que começou em 71, foi assim com um fascinante filme chamado O amigo americano. Ficou assim, uma sensação de intimidade e verdade. Desde o Texas a Paris, de Lisboa à Austrália. Passando por Cuba. Até o fim do mundo. Tão longe tão perto. Asas do desejo. Que não mudou nunca, e que me fez chorar ainda ontem, dois de novembro de 2010. Agora também é fotógrafo. Do silêncio, naturalmente.

(foto Win Wenders)

ps- meu amor é tão perfeito que há quem o odeie. Eu acho ótimo. Amém.

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