sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Para Amel: Beckett 4

“Sim, eu a amava, é o nome que eu dava, que ainda dou, ai de mim, ao que eu fazia, naquela época”


“(...) um dia pedi a ela para me trazer um jacinto, vivo, num vaso. Ela trouxe e o colocou no consolo da lareira. Só restava, no meu quarto, o consolo da lareira para por objetos, a não ser que fossem postos no chão. Eu não passava um dia sem ver meu jacinto. Era cor-de-rosa. Eu teria preferido um azul. No começo ele ia bem, chegou a dar algumas flores, depois capitulou, logo não passou de um caule flácido entre folhas chorosas. O bulbo, metade para fora da terra, como se em busca de oxigênio, cheirava mal. Anne queria levá-lo, mas eu disse para deixá-lo. Ela queira me comprar outro, mas eu disse que não queria outro. O que me incomodava mais eram outros ruídos, risinhos e gemidos abafados, que enchiam o apartamento em certas horas, tanto de dia quanto à noite. Eu não pensava mais em Anne, nem um pouco, mas tinha assim mesmo necessidade de silêncio, para viver a minha vida. Por mais que eu raciocinasse, me dissesse que o ar é feito para transportar os barulhos do mundo, incluindo inevitavelmente risos e gemidos, aquilo não deixava de me afetar. Eu não conseguia concluir se era sempre o mesmo sujeito ou se havia vários. Os risinhos e gemidos se parecem tanto, entre si! Eu tinha tanto horror, naquela época, dessas miseráveis perplexidades que toda vez eu caia na armadilha, isto é, tentava tirar a limpo. (...)”


In Primeiro Amor, Samuel Beckett, Cosac & Naify, SP, 2004.

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